Algumas considerações a respeito do Sínodo
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Algumas considerações a respeito do Sínodo

Edison Veiga

28 de outubro de 2015 | 17h35

Foto: Divulgação

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Por d. João Carlos Petrini*

Uma coisa pouco observada do Sínodo é a convivência humana extraordinária entre os padres sinodais. No local onde eu fiquei hospedado havia bispos da Síria, do Iraque, na Venezuela, do Quênia, do Vietnam, de Moçambique, do Canadá, do Brasil etc. Nos encontrávamos de manhã para concelebrar a Missa, depois para o café da manhã, o almoço, o jantar, além do tempo de trabalho na sala do Sínodo. Cada gesto e cada palavra, por simples que fossem, comunicavam um mundo de afetos, de preocupações, de lutas. Cada um carrega histórias, às vezes tremendas, de seus povos, juntamente com a consciência de uma Fonte que alimenta a esperança e dá forças para enfrentar os desafios, construir o futuro.

Um dia, um bispo africano me disse, com o rosto abatido: “na minha terra aconteceu uma inundação, desmoronou um morro e morreram muitas pessoas”. No dia seguinte, no café da manhã, me disse a mesma coisa. Não porque tivesse esquecido que já me contara, mas porque tinha recebido outras notícias. Nada para ele merecia ser dito naquela hora a não ser comunicar o drama do povo ao qual dedica a vida.

Na diversidade das línguas, das culturas e dos costumes, compartilhávamos o que para cada um é o essencial: a fé em Jesus Cristo, o amor ao povo que nos foi confiado, a responsabilidade de sermos sucessores dos apóstolos. E era evidente que cada um vive uma batalha em sua realidade para que os jovens tenham esperança e um futuro de paz, para que todos encontrem a luz de Cristo para viver com dignidade de filhos de Deus, formar boas famílias, buscar a justiça e o bem. Diferenças e até divergências, diante desse sólido fundamento comum eram pormenores que mereciam alguma atenção em algum momento, sem que constituíssem maiores problemas.

Falar das divergências do Sínodo sem atentar para essa realidade da qual nascem respeito e estima antes mesmo de saber como cada um pensa, não ajuda a compreender o que realmente acontece.

Tivemos 14 assembleias gerais, todas com a presença do Papa, que era o primeiro a chegar e o último a sair. Cada um dos cerca de 260 padres sinodais tinha três minutos para falar, para que todos pudessem ter essa oportunidade. O ponto de partida era algum parágrafo do Instrumentum laboris, que era citado no início. Falar diante daquela assembleia, na presença do Papa, por poucos minutos era algo longamente pensado, melhorando o texto ao longo de semanas, escolhendo cuidadosamente as palavras. Cada um devia entregar por escrito sua fala ou uma reflexão um pouco mais ampla à secretaria do Sínodo, para ficar à disposição de quem quisesse consultar. A escuta dos outros certamente era muito atenta para compor, pouco a pouco, a imagem do Sínodo no seu conjunto.

O resto do tempo era reservado ao trabalho em pequenos grupos (de 20 a 25 membros cada grupo) reunidos de acordo com as cinco línguas oficiais do Sínodo. Cada parágrafo do Instrumentum laboris era discutido e reconstruído com acréscimos, cortes, novas formulações, para oferecer sugestões à equipe de redação do texto final. Cada proposta era discutida e votada. O que eu mais vi nos pequenos grupos foi a unanimidade dos consensos a cada passo dado.

A grande maioria dos 94 parágrafos da relação final do Sínodo foi aprovada por quase a totalidade dos padres sinodais, com mais de 250 votos sobre 260. Este dado significa que os padres sinodais gostaram muito da relação final, concordando com as grandes novidades apresentadas.

Em primeiro lugar, estamos diante de uma nova linguagem, mais leve, de fácil leitura. A preocupação não é dizer o que está certo e o que está errado, mas convidar a Igreja a acolher com amor a todos, usando misericórdia, cuidando das feridas que muitas pessoas no mundo de hoje apresentam pela dureza da vida. No fundo, a Igreja que é Mãe e Mestra mudou a ênfase para a maternidade, deixando para o momento oportuno a postura de mestra, como uma mãe que primeiro acolhe o seu filho, mesmo quando aprontou e acabou machucando-se, cuida das feridas e depois procura orientá-lo para que não continue nas situações que não correspondem ao seu verdadeiro bem.

Somente alguns poucos parágrafos receberam uma aprovação menor, mas, assim mesmo, acima dos dois terços exigidos. Trata-se dos parágrafos que aplicam o acolhimento e a misericórdia aos divorciados que casaram civilmente.

Eles não são excomungados, afirma o texto, são filhos de Deus, amados por Ele, nossos irmãos e nossas irmãs, e por isso devem ser acolhidos e integrados na Igreja. Até aqui, dificilmente se encontraria um padre sinodal que discordasse disso. O parágrafo torna-se problemático na segunda parte, por causa de uma redação confusa que não deixa claro o caminho do discernimento para a integração. Não se fala do acesso a eucaristia, tudo está dito entre as linhas. Um leitor pode chegar à conclusão que “está tudo liberado” como alguns órgãos de informação noticiaram, ou pode chegar à conclusão que o acolhimento não contempla a eucaristia, a não ser que haja uma declaração de nulidade do matrimônio. Essa ambiguidade do texto pode gerar problemas de interpretação e pode criar dificuldades na sua aplicação prática. Por isso, cerca de um terço dos Padres sinodais se manifestou contra esses parágrafos.

Por outro lado, o Sínodo não produz um Magistério da Igreja, especialmente no que se refere à doutrina. O Sínodo tem a função de refletir sobre diversas questões, neste caso, a vocação e a missão da família na sociedade contemporânea, e oferecer ao Papa subsídios a partir dos quais ele poderá exercitar seu Magistério, dando orientações à Igreja. Por isso, parece-me oportuno ler a relação final do Sínodo, sem selecionar alguns parágrafos, para não perder a riqueza que ela contém, assimilar esta postura de acolhimento e de misericórdia como estilo da nossa vida e aguardar orientações mais seguras a respeito do que não foi delineado com suficiente clareza.

* D. João Carlos Petrini, bispo de Camaçari, foi um dos participantes do Sínodo dos Bispos sobre a Família, encerrado domingo na Cidade do Vaticano.

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