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Alex, o astrofísico do supercomputador da USP

Edison Veiga

13 de fevereiro de 2012 | 11h54

Equipamento de R$ 1,5 milhão será usado por 150 professores e pesquisadores
FOTO: FILIPE ARAUJO/ AE

Vinte trilhões de cálculos por segundo parece exagero para a grande maioria das pessoas – cujas contas se resumem à fatura do cartão ou à lista do supermercado. Para o astrofísico Alex Carciofi, entretanto, esse número astronômico (com o perdão do trocadilho) é a síntese de um importante projeto: mostra a capacidade de um supercomputador que funciona, sob sua coordenação, desde o início deste mês.

Alex é professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) desde 2009. Três meses depois de ser contratado pela universidade (a mesma em que se graduou em Física, em 1995, doutorou-se em Astronomia em 2001 e concluiu um de seus dois pós-doutorados em 2009), ele decidiu formular um megaprojeto pedindo financiamento para a compra de um cluster – um conjunto de computadores, ou um “supercomputador”. Um ano depois, obteve US$ 560 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Aí decidimos fazer uma competição pública entre as empresas estrangeiras para conseguirmos a melhor configuração com esse preço.”

“Foi muito legal. Chegou a me ligar até o vice-presidente de uma delas, explicando como era importante ter isso na USP. Virou um negócio de visibilidade”, lembra. “No fim, com esse dinheiro, acabamos conseguindo comprar um equipamento com o dobro da configuração que poderíamos pagar.”

No ano passado chegou a supermáquina (foto abaixo). Com 2.304 processadores, é considerada uma das mais rápidas do mundo destinadas exclusivamente a pesquisas astronômicas. Entretanto, com essa configuração duas vezes melhor do que a inicialmente prevista, surgiu um problema: todo o custo da instalação aumentou. “Para se ter uma ideia, só de ar-condicionado gastamos R$ 100 mil. De fiação, foram outros R$ 80 mil… Ou seja: no total, acabou virando um projeto de R$ 1,5 milhão”, explica.

FOTO: FILIPE ARAUJO/ AE

Em funcionamento desde o início do mês – ainda em período de testes –, deve servir diretamente a 150 professores e pesquisadores da USP e do Núcleo de Astrofísica Teórica da Universidade Cruzeiro do Sul, entidade parceira do projeto. “Estamos firmando um acordo também para que, no tempo ocioso, o computador possa ser utilizado por qualquer pesquisador da área no Brasil”, explica o professor, que estima que, assim, o equipamento será compartilhado por cerca de 300 usuários.

Com essa máquina, os pesquisadores ganham em agilidade. “São três as limitações de um cientista: criatividade, conhecimento teórico e capacidade de processamento. Com esse computador, eliminamos o terceiro ponto”, conta Alex. Quando astrofísicos desenvolvem um modelo matemático – por exemplo, com as características de uma estrela – precisam “resolver a conta” para ver se a numeralha faz sentido. “O cluster antigo (que tem praticamente o mesmo tamanho, mas apenas 40 processadores) levava cinco dias para fazer cálculos que este resolverá em 15 minutos.”

“Esse é o maior cluster de nossa empresa no Brasil em poder de cálculo e o mais denso”, explica o engenheiro de sistemas Arthur de Toledo Faria, funcionário da fabricante do equipamento. Na semana passada, dois engenheiros da empresa ficaram de prontidão na USP, monitorando os primeiros dias de atividade do supercomputador. Instalado em uma sala de cerca de 20 m², o cluster gasta energia elétrica que seria suficiente para alimentar 360 casas.

Hobbies. Nascido em 1972 em São José do Rio Pardo, Alex se apaixonou pela Astronomia ainda garoto. Aos 8 anos, seus pais se mudaram para Araras e ele se encantou com a biblioteca municipal. “Lembro de um livro fantástico: O Colapso do Universo, de Isaac Asimov…” Depois, arrumou um manual que ensinava a construir telescópios e chegou a montar dois no quintal. Nessa época, já tinha apreço pela música, hobby que cultiva até hoje – é pianista e, de 1998 a 2006, integrou um quinteto vocal que se apresentava em bares e eventos.

Alex mudou para São Paulo quando passou no vestibular, em 1990. “Apesar de tudo, aprendi a gostar da cidade.” Mora no Parque dos Príncipes, na zona oeste, com a mulher e os dois filhos, um de 8 e outro de 5 anos, que, assim como o pai, adoram brincar de olhar o céu por meio de um telescópio.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, seção ‘Paulistânia’, dia 12 de fevereiro de 2012

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