A vontade do mar
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A vontade do mar

CRÔNICA

Edison Veiga

21 Março 2017 | 17h19

Foto: Valéria Gonçalvez/ Estadão

Foto: Valéria Gonçalvez/ Estadão

Tivessem o padre Anchieta e os outros aventureiros de batina cismado com outro lugar e a Brigadeiro Faria Lima poderia ser uma imensa alameda beira-mar, nossa Malecón, nossa Avenida Atlântica. Mas não: queriam um refúgio mais para cima, enfrentaram densa mata, íngreme serra e toda sorte de azares, chegaram, botaram uma cruz, rezaram missa, fizeram São Paulo aqui nos campos de Piratininga.

A vontade do mar persistiu. Quando menino do interior, São Paulo para mim era anual entreposto a meio caminho – mais que meio, mas em criança as escalas são um tanto deturpadas – dos castelinhos de areia no Guarujá. Na minha cabeça, geografias se fundiam; aquele mar das férias era um pouco paulistano, tão paulistano como o fato de que a ilhota que eu avistava no horizonte do oceano era um pedacinho da África.

Já adulto, forasteiro de alma e fato, repórter de mochila e bloquinho na mão, deparei-me com a história: é possível ver o mar sem sair de São Paulo. Primeiro houve uma lenda de que se fosse erguido um prédio de sei lá quantos andares em plena Avenida Paulista, mirante haveria, com uma daquelas lunetas alimentadas a moedinha de turista, para que a praia pudesse ser conferida daqui do planalto. Com barquinhos de pescadores estacionados e tudo.

Balela, garantiram todos os não poucos que indaguei seriamente a respeito, munido da mais sincera e insaciável curiosidade de neófito na profissão, na cidade e na vida.
Balela. É definir assim uma história para grudá-la de vez em meu caderninho de obsessões.

Balela.

“Mas, se você quer tanto assim, olha, não sei muito bem, mas alguém me disse, já ouvi garantirem, eu nunca vi, mas há quem tenha visto…”, alguns ensaiavam, pouca convicção, ligeiras possibilidades. Eu, angustiado pelo fim da frase, sempre. “Marsilac.”

Para quem nunca associou toponímia ao lugar, trata-se do mais meridional entre todos os distritos da cidade. Este não é seu único predicado extremo: também é o que tem a maior área territorial de São Paulo – quase todo o tamanho da região central –, a mais baixa densidade populacional, a menor renda média e o mais baixo IDH.

(Curiosidade de almanaque: o nome é uma homenagem ao engenheiro José Alfredo Marsilac, 1904-1985, especialista em estradas e túneis, mesmo após ter perdido 99% de sua visão na Revolução de 1932.)
Sob a ótica de quem vive no centro expandido, é longe. Quarenta e tantos quilômetros da Praça da Sé – 1h30 de carro, se o trânsito cooperar; mais de 3h de transporte público.

Voltemos ao mar. A história é que de Marsilac dá para ver o danado. Mais precisamente, a orla de Itanhaém, município limítrofe a São Paulo. O caminho das pedras: é preciso enveredar por uma das trilhas do Parque Estadual da Serra do Mar e torcer para o dia estar limpo, sem neblina – raridade por lá.

Alguns anos atrás, a Maria Lúcia Cirillo, presidente da Associação de Moradores do Distrito de Marsilac, garantiu-me que, sim, dava para ver. “A olho nu”, lembro de ela ter frisado. “Se o dia estiver claro, dá até para ver os prédios de Itanhaém e algumas embarcações maiores”, ousou dizer.

Diversas vezes tentei, imbuído do mais paulistano espírito de Indiana Jones, na vã expectativa de ver não os prédios – estes temos aos montes aqui no centro – mas o mar, ó salgado mar. Não me contentaria com os barquinhos balançando ao sabor das ondas. Sonhava com os banhistas se refestelando ao sol, as cangas coloridas estendidas e até com a versão paulistana da Garota de Ipanema a caminho do mar.

Em uma de minhas incursões, conversei com a caseira do sítio paulistano mais perto do litoral, o último antes da entrada do Parque da Serra do Mar, 14 quilômetros mais ao sul do que o próprio centrinho de Marsilac. A Alda Maria dos Santos sorriu quando falei sobre o mar. Apontou para sua casa, ao fundo do terreno – a mim, coube desenhar mentalmente a rústica construção, a coisa de 100 passos de onde conversamos. “A cerração não deixa ver nem minha casa, acha que dá para ver praia, menino?”, disse-me, mais em tom de bronca do que de explicação.

Sempre que fui a Marsilac voltei sem ver o mar.

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