A vida obscena da São Paulo antiga
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A vida obscena da São Paulo antiga

Pesquisador mapeia os pontos de prostituição da cidade colonial

Edison Veiga

06 Agosto 2016 | 16h00

MapaProstituicaoSP

Em 1549, cinco anos antes de São Paulo ser fundada, o padre jesuíta Manoel da Nóbrega (1517-1570) escreveu ao provincial da Companhia de Jesus em Portugal. Entre outras coisas, pedia que fossem enviadas mulheres para as terras brasileiras. “Parece-me coisa muito conveniente mandar sua alteza algumas mulheres que lá têm pouco remédio de casamento a estas partes, ainda que fossem erradas”, comentava o sacerdote. “E vieram as erradas e as erradíssimas”, afirma o historiador Paulo Rezzutti, estudioso do período. Estava plantada a semente da prostituição na cidade.

“Os primeiros relatos de prostitutas na vila de São Paulo surgem em discussões na Câmara na década de 1570”, conta Rezzutti, autor de livros como Titília e o Demonão (com as cartas eróticas de d. Pedro à Marquesa de Santos, sua mais famosa amante) e sócio do Turismo na História (www.turismonahistoria.com.br), que organiza tours temáticos – e, no próximo sábado, vai mostrar a história da prostituição em São Paulo. “Essas mulheres costumavam esperar por clientes nas proximidades dos chafarizes que existiam na então periferia da vila, hoje região central da cidade”, completa o historiador.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Pátio do Colégio: À esquerda da igreja, onde hoje está o prédio da Secretaria da Justiça, funcionou no século 19 o Teatro de Ópera, principal ponto de encontro cultural da cidade naquele tempo; muitas das atrizes também eram prostitutas, o que fazia do local um ambiente frequentado por potenciais clientes, ávidos pelo fechamento das cortinas

Ao mergulhar em documentos, cartas e livros antigos, Rezzutti encontrou saborosas histórias de uma prostituição quase romântica. “Os europeus que vinham para São Paulo, caso de (Augustin de) Saint-Hilaire (1779-1853; botânico e viajante francês), se impressionavam com a ‘timidez’ dessas mulheres”, afirma. “Ao contrário das europeias, elas hesitavam em abordar seus clientes, aguardando ser cortejadas.” Mas se o francês as achou recatadas, por outro lado chamou-lhe a atenção a quantidade. De acordo com seus relatos, eram “de todas as cores” e as calçadas “ficavam cobertas” por elas. Saint-Hilaire também afirmou que, em razão das meretrizes, havia mais movimento em São Paulo durante a noite do que à luz do dia.

No século 19, o principal ponto de prostituição da cidade era a Rua das Casinhas, trecho hoje chamado de Praça Manoel da Nóbrega (coincidentemente, em homenagem ao jesuíta que solicitava mulheres ao Reino de Portugal), entre a Rua 15 de Novembro e o Pátio do Colégio. As “casinhas” eram, na verdade, seis cômodos enfileirados que funcionavam como mercado de secos e molhados. À noite, o comércio se fechava e as mulheres “avulsas” dominavam a rua. “Os animais de carga e os compradores cedem lugar a verdadeiras nuvens de prostitutas de baixa classe, atraídas pelos camaradas e pelos roceiros, que elas tentam pescar em suas redes”, escreveu Saint-Hilaire.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Rua das Casinhas: Entre a Rua 15 de Novembro e o Pátio do Colégio ficavam as ‘casinhas’ que, à noite, eram ponto de meretrício

Mas a prostituição não se resumia ao centro da cidade. De acordo com o livro Quadro Histórico da Província de São Paulo, publicado por J. J. Machado d’Oliveira em 1864, o capitão-general de São Paulo Martin Lopes Lobo de Saldanha (governador da capitania de São Paulo entre 1775-1782) se enfurnava em uma fazenda mantida por monges beneditinos em São Bernardo do Campo não com o objetivo, alegado por ele, de supervisionar obras na estrada velha de Santos. “O que realmente levava o governador até o local era a liberdade a que podia se entregar aos bacanais organizados pelos monges, repletos de meretrizes”, diz Rezzutti.

Pontos. O Teatro de Ópera, também conhecido como Teatrinho do Palácio do Governo – ficava exatamente onde hoje é o prédio da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, no Pátio do Colégio – era, no século 19, procurado por quem queria contratar uma prostituta. Muitas atrizes tinham o meretrício como segunda profissão.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Recolhimento de Santa Teresa: De 1685 até o início do século 20, abrigava na hoje Rua Roberto Simonsen ‘mulheres avulsas’ e prostitutas aposentadas

Com a inauguração da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1827, o mercado da prostituição ganhou uma profusão de novos clientes. Jovens com hormônios à flor da pele, filhos de endinheirados e morando sem os pais passaram a recorrer frequentemente aos préstimos de meretrizes do centro. A mais famosa delas, Rita Maria Clementina de Oliveira, conhecida como Ritinha Sorocabana, seduziu muitos deles. Acabou amancebando-se do estudante Luiz Barbosa da Silva, mais tarde presidente da Província do Rio Grande do Norte. Quando este a abandonou, envolveu-se com o poeta Fagundes Varela (1841-1875). “Depois de três meses de um tórrido caso de amor, Ritinha o dispensou”, diz Rezzutti. “Ela já havia se profissionalizado e não precisava de apaixonados bêbados causando escândalos na porta de sua casa.” Ritinha encerraria sua vida como dona de um bordel de luxo na Rua Boa Vista.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Largo São Francisco: Com a inauguração da Faculdade de Direito, em 1827, o mercado da prostituição em São Paulo esquentou: estudantes se tornaram fregueses das mulheres

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Hotel dos Estrangeiros: No endereço onde hoje há um edifício comercial na Rua Líbero Badaró funcionou, no início do século 20, um movimentado bordel de luxo

Serviço:
Tour A História da Prostituição em São Paulo.
Turismo na História.
Mais informações e inscrições neste link.

Mais conteúdo sobre:

HistóriaProstituiçãoSão Paulo