A polêmica das novas luminárias do Viaduto do Chá
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A polêmica das novas luminárias do Viaduto do Chá

Substituição ocorreu no ano passado e desagradou especialistas tanto dos aspectos históricos quanto das questões técnicas

Edison Veiga

26 de abril de 2015 | 21h44

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão


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Nas ruas do centro, não são só para iluminar que servem os postes. Muitos deles – 1.524, para ser preciso – são resquícios da São Paulo da primeira metade do século 20. O Departamento de Iluminação Pública (Ilume) os chama de “unidades ornamentais”. A substituição dos globos de 45 deles, no Viaduto do Chá, em agosto do ano passado, entretanto, passou a incomodar aqueles que lutam pela preservação histórica.

“Os novos são transparentes, menores, mais baixos e com outro desenho”, resume o arquiteto e urbanista Ayrton Camargo e Silva, colaborador da Associação Preserva São Paulo e professor convidado da Faculdade de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. “Ao contrário do globo original, neste o coroamento não é piramidal, mas achatadinho”, completa ele. “Se a ideia era modernizar, trocar o vapor metálico pelo LED, por que não manter o desenho original? Isto é um desprezo com a paisagem e com a memória de São Paulo.”

Questionado pela reportagem, o Ilume confirmou que a troca ocorreu por causa da instalação das lâmpadas de LED. Na primeira nota enviada pela Assessoria de Imprensa, o órgão relatou que “a substituição foi necessária porque os antigos globos eram leitosos, o que impediria a luminosidade proporcionada pelas lâmpadas”. Ainda ressaltou que “foram mantidas todas as características dos globos antigos” não concordando, portanto, com “divergência do conjunto histórico”.

DPH concordou com mudança

Quando o Estado insistiu que os formatos antigo e novo eram diferentes entre si, o Ilume enviou nova resposta. Desta vez, admitindo que os novos globos são “ligeiramente menores que os anteriores”. O órgão frisou, entretanto, que tudo foi feito em “concordância com o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH)”. A Secretaria Municipal de Cultura, responsável pelo DPH, confirma. “Apesar de não haver uma resolução específica sobre tombamento dos postes denominados São Paulo Antiga, a Ilume sempre consulta o DPH”, informou a secretaria, em nota. “Há consenso entre os órgãos que os postes fazem parte do centro da cidade.”

Histórico. “Essa discussão é muito importante porque a área central de São Paulo foi tratada de maneira especial com relação ao restante da cidade desde os anos 1920, quando a Light (The São Paulo Tramway, Light and Power Company Ltda) era a concessionária responsável pelo serviço”, pontua Silva. “Toda a área central teve a fiação enterrada e, em comum acordo com a Prefeitura, a empresa definiu o padrão da luminária, com as colunas ornamentais.” O arquiteto calcula que, no total, tenham sido cerca de 2 mil os postes do tipo instalados – muitos acabaram removidos por conta de obras em vias públicas e instalações de estações de Metrô.

Silva recorda que esta não é a primeira descaracterização das luminárias. “Nos anos 1990, começaram a substituir os de vidro por plástico. Pelo menos, naquela ocasião, respeitaram o desenho. O argumento, à época, era que o vidro não suportava a trepidação do viário, por conta dos veículos do centro, essas coisas. Enfim, sempre vão achar uma desculpa técnica para justificar a opção adotada”, lamenta. “Falta competência para olhar para aquilo como um símbolo da paisagem, um marco de quase 100 anos.” Ele conta que em 2013 enviou uma carta para o Ilume – e jamais obteve resposta.

Especialista analisou qualidade das luminárias – e reprovou

A reportagem pediu para que o arquiteto Rafael Leão, presidente da Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação (Asbai), analisasse, in loco, as novas luminárias do Viaduto do Chá. Ele é mestre no assunto pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo com a dissertação Plano diretor de iluminação urbana do centro histórico de São Paulo: uma nova ambiência e atmosfera para os calçadões. “Foi substituído o globo leitoso pelo prismático, ou seja, translúcido”, esclarece Leão. “Trata-se de um modelo mais recente, moderno. Só que o conjunto óptico que eles instalaram é ruim: causa ofuscamento, ruído na visão. Ou seja: caminhar no Viaduto do Chá hoje é menos confortável do que anteriormente.”

O especialista ressalta que há ainda outro problema: a sensação de insegurança. “Não adianta aumentar só na ponta do lápis a quantidade de luz e a eficiência se você compromete todo o resultado com um conjunto mal resolvido. É preciso uma emissão mais controlada de luz”, explica. “Da maneira como está, há um brilho muito grande no campo visual dos pedestres. É como um carro dando luz alta no sentido contrário – não se enxerga o entorno, porque as pupilas se contraem. Assim, quem anda por ali à noite tem maior dificuldade para reconhecer os rostos das pessoas.”

Quanto à explicação oficial para a substituição dos globos em decorrência da tecnologia LED, Leão diz que essa necessidade só existiu porque a Prefeitura optou pela solução mais fácil. “Eles provavelmente não pediram uma customização”, afirma. “Devem ter escolhido uma luminária parecida, algo que já exista no mercado.”

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