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A livraria

CRÔNICA

Edison Veiga

23 Maio 2017 | 07h08

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

“Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras”

(Trecho de Livros, de Caetano Veloso)

A moça já conhecia bem aquele lugar, isto estava nítido para o observador, no caso eu, mas ela estava mostrando para um rapaz completamente neófito, logo percebi que era gringo, ela apontava para um lado, para outro, ele não conseguia disfarçar a surpresa, embasbacado, atônito, o olhar não ficava alinhado como deveria ser, mas se descalibrava ora para cima, ora para baixo, tamanha a imensidão do espaço, dos livros esparramados pelas estantes que mal dão para serem contadas. O gringo olhava, olhava, olhava, claramente embevecido com aquela arquitetura que parece ter sido feita para oferecer livros, sem miséria, com fartura como mesa de pobre em dia de Natal, com abundância como festa de casamento em fazenda, com deseconomia como se não houvesse limite nas estantes das casas das pessoas, ele não entendia nada daquelas palavras que via nas capas, então podia, mais livremente do que um lusófono, observar apenas a arquitetura, a forma, a ecologia, a textura e as cores das capas, a disposição do livro como objeto, dos andares nas estantes, das estantes no tapete, do tapete no chão, isto em cada um dos pisos, mesmo quando um piso se mistura a outro, mesmo quando tem um dragão dependurado ou um assento de madeira apinhado de gente lendo, onde, aliás, antes ficavam pufes coloridos, eu bem me lembro. A moça era bonita, como são bonitas as moças que gostam de livros. Ela explicava para o gringo que aquela arquitetura toda resultava de um espaço pré-existente, que aquele lugar, antes de sediar o manancial de livros, jorrava filmes em forma de cinema, que era por isso que havia pisos, desníveis, amplitude e amplidão, foco, luzes, que até Saramago, este lusófono ele deveria já ter ao menos ouvido falar, posto que era culto ao menos e o gajo havia sido laureado inclusive com Nobel, até Saramago, veja só, havia pisado ali e, mais do que pisado, se encantado, elogiado, escrito sobre o local como uma das mais autênticas e inolvidáveis e belas experiências paulistanas que ele tinha colecionado. O gringo só ouvia, de vez em quando parecia sobretudo conseguir desviar o olhar daquele templo da literatura para encarar os olhos castanhos brilhantes e sedosos da moça, sua cicerone autóctone e telúrica, isto ficava claro pelo sotaque dela, como ele só ouvia e nada dizia, não pude ter a certeza se ele sabia quem é, quem era ou ao menos quem fora José Saramago, o literato em questão, o único escritor sobre o qual ouvi a moça mencionar enquanto roubei a conversa dos dois para mim desconhecidos naquela tarde de maio de 2017 em que caminhava inútil e assoberbado entre as fileiras da Livraria Cultura, Conjunto Nacional, Avenida Paulista, São Paulo, capital.

Lá fora, chovia.

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