“A iniciação judaica é uma iniciação à leitura”
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“A iniciação judaica é uma iniciação à leitura”

Edison Veiga

19 de setembro de 2010 | 07h09

FOTO: DANIEL TEIXEIRA/AE

A entrevista com José Luiz Goldfarb, perfilado no ‘Paulistânia’ da edição impressa de hoje, aconteceu em quatro etapas. Duas semanas e meia atrás, ele recebeu a reportagem em uma sala na Câmara Brasileira do Livro, em Pinheiros – era um tumultuado dia de anúncio dos finalistas do Prêmio Jabuti, do qual ele é curador desde 1991 – em um bate-papo de precisos 60 minutos. Na noite do mesmo dia, a conversa continuou por telefone. Ainda houve um longo (e despretensioso) café na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, e um e-mail em que respondeu a algumas questões sobre futebol. A seguir, os principais trechos de tantas conversas.

Pelo visto, tantos afazeres o deixam até sem tempo para comer, não é? (Ele atendeu à reportagem comendo um sanduíche e tomando um suco, substitutos do almoço daquela quarta-feira.)
Isso é raro acontecer. Eu consigo me organizar para ter uma certa tranquilidade.

Sempre viveu em São Paulo?
Nasci na Avenida Paulista. Brinco que sou uma pessoa que nasci, vivo e espero, após vida longa, morrer muito perto de tudo. Passei apenas um pequeno período de minha vida em Montreal, no Canadá, fazendo minha pós-graduação. Viajo muito, circulo o planeta, o País, o estado de São Paulo, por conta dos projetos que cuido. Mas tenho muito orgulho de minha cidade. “Seja global, seja local”, costumo pensar.

Nasceu na Avenida Paulista e depois manteve uma livraria lá…
Era um tempo diferente. A Paulista era muito segura. A livraria Belas Artes ficava aberta até de madrugada, na maior tranquilidade (a foto abaixo mostra a loja em 1999). Passei 18 anos da minha vida em que todas as manhãs abria uma loja pertinho de onde nasci. É engraçado: quem nasce e mora perto é do interior. No entanto, sou paulistano, e aqui é um monstro de cidade, mas por circunstâncias da vida eu fui parar no Itaim quando me casei, que é perto do Jardim Paulista, onde passei minha infância, que é perto da Avenida Paulista, onde nasci.
FOTO: AGLIBERTO LIMA/AE

De onde veio seu interesse pela leitura?
Eu acho que a família judaica, na média, mantém tradições milenares baseadas no estudo. Afinal, o que é um menino judeu? É um cara que, aos 13 anos, lê um trecho da Torá. Ou seja: a iniciação judaica é uma iniciação à leitura. Só vira judeu quem lê. Hoje em dia isso é meio óbvio, trivial, mas imagina milenarmente o que isso significa. Significa que todo mundo tinha de aprender a ler e a escrever.

Sua família é de que origem?
Meus avós vieram da Polônia, na década de 20, entre a Primeira e a Segunda Guerra. Vieram por razões econômicas, em busca de uma vida melhor. E isso também é interessante. Há a tradição do imigrante, que chega com uma mão na frente e outra atrás e tem, em mente, que precisa dar educação para os filhos. A ideia de que se você der estudos para seus filhos, eles têm um futuro garantido.

Quer dizer: uma mistura de tradição judaica com cultura do imigrante…
A comunidade judaica prospera porque investe pesado na Educação. Desde criança frequento o clube A Hebraica (na foto abaixo, evento esportivo recentemente ocorrido no clube). Lá tem uma biblioteca-modelo, que eu gostaria de ter igual em cada cidadezinha onde inauguro uma. Um ambiente gostoso, um lugar cuja porta se abre e você dá de cara com a piscina, como se fosse uma praia da biblioteca. Quando eu era molequinho, a biblioteca era menor, mas ficava no centro do clube. Tenho a memória de sentar ali e ler meus primeiros livros, todos encapadinhos de cor igual.
FOTO: MARCIO FERNANDES/AE

De certa forma, por meio dos projetos que você coordena, é isso que você gostaria que houvesse em todas as famílias? Esse incentivo à leitura?
Sem dúvida. Exatamente esse é meu sonho. O que eu acabei virando na vida. Eu era professor universitário – continuo sendo, dando aula de História da Ciência na PUC. Depois que fechei a livraria, criei uma empresa que faz justamente isso: consultoria para projetos de leitura. Não mudei meu meio, mas sim a forma de atuar. Antes eu tinha uma loja na qual empurrava as pessoas para que elas se aproximassem dos livros. Fazia isso pessoalmente e também treinava meus funcionários para tal. A sociedade da qual a gente é herdeiro é muito ligada à leitura. Quem consegue disseminar uma boa leitura, um bom estudo, se projeta no planeta com mais força.

Historicamente…
Sim, a Europa tem isso muito forte desde 1500: a impressão de livros. É a criação de conhecimento de fácil acesso, o que a gente fala até hoje. É tudo a mesma coisa: uma plataforma que espalha conhecimento a preço relativamente baixo. Quando os jesuítas chegaram ao Brasil, eles já montavam uma biblioteca. As coisas que eles enxergavam iam parar em revistas científicas europeias da época.

E as nações que melhor entenderam isso mais se desenvolveram.
Os Estados Unidos, por exemplo, descobriram que a biblioteca era o diferencial. Eles foram eficientes em criar uma rede rápida de bibliotecas, começando pela de Nova York (foto abaixo), que é top do planeta, a coisa mais maravilhosa. O que aconteceu? No ano passado teve aquela crise e a Biblioteca de Nova York registrou o recorde de empréstimos.
FOTO: DJMUTEX/CC

Afinal, é um serviço gratuito.
Exatamente. Bibliotecas, no mundo todo, são os únicos benefícios que ninguém quis cobrar. Não há uma locadora de livros, como há de filmes, de carros, de tudo o que você imaginar. Biblioteca é tradicionalmente free. Por que? Porque é em cima da biblioteca que a gente constrói o conhecimento, a tecnologia e a estrutura da sociedade.

Mudando de assunto, vamos falar um pouco de futebol. Desde quando você é santista?
Puxa… Quase desde que nasci! Nasci em 1957, ano em que Pelé estreou na Vila. Ia desde muito pequeno a Santos e São Vicente, passar férias. Eram anos de glória do Peixe e, apesar de ter família são-paulina (parte de pai) e corintiana (parte de mãe), eu e minha irmã mais velha éramos Peixe total. Lembro-me de ver os craques jogando na praia. Havia bandeiras do Santos por toda a parte… E só se falava em Pelé.

Você vai sempre aos estádios?
Já fui muito mais frequentador. Nos últimos anos estive um pouco afastado, mas neste ano acabei seguindo o Peixe no Campeonato Paulista e foi uma festa só ver os meninos… Quando viajo, sempre procuro ir a jogos. Assim, já visitei estádios em muitos países. Gosto de ver o povo torcendo, vibrando.
FOTO: JONNE RORIZ/AE

O que mais gosta no futebol?
Adoro misturar-me à torcida, gritar junto… Curto a memória que os torcedores têm de jogos tão antigos. Como não há muita memória histórica no Brasil – e eu gostaria que houvesse, é claro – descontamos no futebol. Como torcedor, tenho historias incríveis pra contar, de jogos inesquecíveis. Não só pelas partidas no campo, mas também pelo que ocorreu nas arquibancadas da vida. Já me livrei de situações estressantes em Israel, ao andar em áreas palestinas, quando disse que era brasileira – e, daí, o lado judeu era esquecido e o assunto virava Pelé.