“A criação de personagens é um processo parecido com o dos sonhos”
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“A criação de personagens é um processo parecido com o dos sonhos”

Edison Veiga

09 Setembro 2010 | 08h28

A segunda participante da série de entrevistas por escrito é a premiada escritora paulistana Beatriz Bracher.

FOTO: ANDRÉ LESSA/AE

Quando e como você se descobriu leitora? E escritora?
Em geral, na família, cada um ocupa um espaço, o de leitor cabia a meu irmão logo abaixo de mim. Ele lia Monteiro Lobato, Robson Crusoé e outros livros para crianças e adolescentes. Eu só lia revistinhas. Com 11 anos passei dois meses na Alemanha com uma família de amigos dos meus pais. Todos falavam alemão, eu, que já sabia um pouco, não tive dificuldade em aprender razoavelmente bem o idioma. Sentia muitas saudades dos meus pais, mesmo com a atenção da família alemã, sentia-me muito sozinha. Alguém me arrumou um livro brasileiro, O Boi Aruá, de Luis Jardim. Ler este livro era como estar no Brasil, ficava feliz, estimulada e em paz. Parece que estar imersa no português trazia de volta meus pais e me tirava da solidão, ou me ajudava a lidar com ela. Outra fonte importante para me iniciar na leitura era a admiração que tinha pela Maria Bethânia. No show Rosa dos Ventos ela declamava poemas de Alberto Caieiro. Minha mãe me deu de presente uma edição completa dos poemas de Fernando Pessoa, que eu passei a ler com avidez, parecia estar descobrindo uma coisa que eu nem desconfiava que existia.
Quando estava na Alemanha escrevia longas cartas e também histórias em quadrinhos, talvez este tenha sido o meu começo como escritora. Lembro-me que as cartas demoravam muito a chegar, então o que escrevia não era uma resposta a carta que recebia, eram mais um relato, o prazer de ficar conversando em português, mesmo que por escrito. Agora me lembro, que mesmo sem gostar muito de ler, desde os nove, dez anos, eu adorava contar histórias para os meus primos pequenos, histórias que inventava.

Escrever dói? Por quê?
Não. Às vezes é muito difícil, outras vezes é excitante e outras alegre, quase frívolo, engraçado. O que dói é não conseguir escrever, o que várias vezes acontece, e então fico uma pessoa muita chata.

Em seu trabalho, como os personagens nascem?
Às vezes inspirados em pessoas que conheço bem, outras em pessoas que vi de relance na rua ou em uma reunião na casa de amigos. Acho que a criação de personagens é um processo parecido com o dos sonhos, em que, às vezes sem nos dar conta, misturamos características de pessoas diferentes como se fosse a coisa mais natural do mundo.

De que forma você se organiza (ou não) para escrever?
Escrevo todos os dias de 9h às 12h30, fora de casa, e desligo o telefone.

Enquanto escreve, você imagina um leitor? Como ele é?
Não. Depois de publicado um livro, fico emocionada quando vejo que algumas pessoas se emocionaram com o que escrevi. Isso como que me alimenta, me dá vontade de continuar escrevendo. Escrever para ser lida é o que eu desejo, mas quando estou escrevendo não consigo pensar em qualquer leitor, é só a história, sua tensão narrativa, sua lógica interna e consistência o que me interessa.

Você acredita em interação com os leitores? De que maneira e quando?
A única interação com os leitores se dá através da leitura dos livros. Todas as outras, palestras, eventos literários, entrevistas, são tentativas de que a leitura dos livros possa acontecer.

Prêmios literários a envaidecem? O que (mais) a envaidece?
Prêmios literários e fotografias nos jornais me envaidecem e perturbam muito. Ter os meus livros reconhecidos pelas leituras de pessoas diversas, me envaidece e estimula.

Leitura ainda lhe dá prazer? O que você lê?
Mais do que nunca. Leio de tudo, autores novos e antigos, brasileiros e estrangeiros, e releio também.

Como você definiria Beatriz Bracher?
Mulher, nascida em 1961, São Paulo, mãe de Matias, Daniel e Julia, mulher de Roberto, filha de Sonia e Fernão, e escritora.