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A cidade de São Paulo e seus largos

Edison Veiga

01 de outubro de 2010 | 15h07

Por Benedito Lima de Toledo*

A cidade de São Paulo originalmente não contava com praças. Os espaços abertos de uso público resumiam-se ao adro das igrejas, comumente designados por largos. O eixo maior da cidade unia o Largo de São Bento ao Largo de São Francisco. Uma rua dirigia-se à Igreja da Sé: era a Rua Direita.

Segundo o historiador Hélio Damante: “Poucos saberão que Rua Direita tem imanente sentido espiritual. Rua Direita porque rua da matriz, caminho da fé, à imagem da Estrada de Damasco” – local da conversão de São Paulo.

Comparece nas principais cidades brasileiras. Formava o segundo lado de um triângulo. O terceiro lado desse triângulo era constituído pela Rua do Rosário, atual 15 de Novembro – seu nome completo era São Benedito e Nossa Senhora do Rosário -, como vemos em alguns mapas.

A área central da cidade ficou, dessa forma, conhecida como Triângulo. Seus vértices eram bem conhecidos. Ao norte, ficava a Igreja de São Bento, rica em história. Ali residiu, em sua estada nesta cidade, o Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria, merecedor do título de “o maior cartógrafo da era colonial”.

Como agradecimento pela acolhida dos monges, realizou um projeto para a igreja do mosteiro, cuja planta é conhecida. A igreja do Brigadeiro Sá e Faria permaneceu por longos anos até a construção da atual. O convento de São Francisco seguia a imagem de todos conventos dessa ordem no país, com seus longos beirais e um amplo espaço aberto à sua frente, o Largo de São Francisco. O convento foi ocupado pela Academia de Direito e, posteriormente, demolido. Em seu lugar foi erigido um edifício de arquitetura duvidosa, por vezes conhecida por estilo neocolonial – que nunca existiu na colônia.

A ala confinante com o convento foi ampliada e, com isso, os frades ficaram sem iluminação natural em seu corredor, rumo ao largo. Trata-se de uma modalidade de direito, coerente com arquitetura da Academia. A Igreja do Rosário, pobre e desamparada, situava-se no local onde hoje se ergue a Praça Antônio Prado.

O colégio dos Jesuítas, local de fundação da cidade de São Paulo, apresenta uma singularidade: São Paulo é uma das poucas cidades do mundo que conhece o local de sua fundação. A escolha desse local não foi feita de forma aleatória, como nos explica Jaime Cortesão em A fundação de São Paulo, capital geográfica do Brasil (1955).

“O que distingue essencialmente São Paulo de todas as outras cidades brasileiras e foi a causa do seu êxito histórico são as vantagens de posição, que podemos sumariar da forma seguinte: a situação sobre o trópico de Capricórnio, numa divisória do planeta, que lhe permitia tornar-se um centro de irradiação cíclica para regiões de regimes climáticos diferentes; a proximidade conjunta do mar e do Paraná, ou seja do lugar onde o vale do Prata mais se aproxima do litoral atlântico, o que fazia, na realidade, de São Vicente um porto platino; a contiguidade com a melhor passagem, a menos de 800 metros de altitude, na serra do Mar para o litoral, – o que tornava ainda São Vicente o melhor porto e ponto de acesso ao planalto, tanto mais quanto a praia vicentina, ao contrário das que lhe ficam próximas, quase confina com a montanha; finalmente, assentar num campo, entre 700 a 900 metros de altitude, grande clareira a meio da floresta, o que lhe dava clima temperado e salubridade, refletindo a pobreza estimulante do solo, mais propício à criação do gado do que à agricultura, mas excelente como boca do sertão, começo e término de pista das penetrações no continente.”

Ao tempo do Marquês de Pombal, o colégio foi expropriado e transformado em sede do governo. A igreja do Colégio foi abandonada e seu uso interditado. Sem reparo, o madeiramento do telhado veio a ruir na noite de 13 para 14 de março de 1896 “com grande fragor”.

Pouco tempo depois, o antigo pátio cedeu espaço a uma praça pública, com um obelisco ao centro. O madeiramento da nave, à semelhança das demais casas da cidade, necessitaria cuidados permanentes e, com estes, certamente não conheceria desabamento algum. O engenheiro Theodoro Sampaio elaborou uma Memória sobre a Egreja do Collegio dos Jesuítas, uma peça notável por seu farisarismo.

No tramo urbano da cidade de São Paulo, as principais vias claramente indicam suas relações com as vias de penetração. O Porto Geral, próximo ao Tamanduateí, acesso fluvial a Santo André, o Colégio dos Jesuítas com suas largas vistas à volta e, igualmente acessível a Santo André, de onde recebiam cerâmica e mantimentos, via fluvial, São Bento com acesso fácil ao norte e, no mesmo patamar, São Francisco do Sul. A leste, além do Tamanduateí, a imensa várzea do Carmo sujeita ciclicamente a inundações.

Saint-Hilaire, visitando a cidade de São Paulo em 1822, registrou suas impressões sobre as residências da cidade. Vejamos algumas:

“A situação de São Paulo é encantadora e é puro o ar que ali se respira.”

“As casas construídas de taipa muito sólida, são todas brancas e cobertas de telhas côncavas; nenhuma delas apresenta grandeza e magnificência, mas há um grande número que, além do andar térreo, tem um segundo andar e fazem-se notar por um aspecto de alegria e de limpeza.”

“Vi moradias dos principais habitantes de São Paulo tão lindas por dentro como por fora. As visitas são recebidas em um salão muito limpo e mobiliado com gosto.”

“A cidade de São Paulo possui, como se vê, vários edifícios públicos e todos concordam em que ela é bonita e está muito bem situada.”

A primeira praça de São Paulo

A praça mais antiga de São Paulo a cidade deve ao Tenente-General Arouche de Toledo Rendon, conhecido como Marechal Arouche, doutor em Direito, formado em Coimbra.

O Marechal arruou e demarcou a chamada “Cidade Nova”, onde abriu a Praça da Legião, em 1811, para exercícios de Artilharia.

Em 1865, a praça passou a se chamar Campo do Arouche e, em 1913, Largo do Arouche.

Arouche possuía no local extensa chácara onde introduziu a cultura do chá em São Paulo. Em suas terras foi aberta, portanto, a primeira praça da cidade.

* O arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

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