A casa do poeta
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A casa do poeta

Edison Veiga

01 Setembro 2010 | 16h31

O Estadão de hoje traz reportagem sobre a reabertura da Casa Guilherme de Almeida, prevista para outubro, após três anos de obras. Estive lá no ano passado – e guardo na memória a beleza e riqueza memorialística do local, que rendeu a reportagem abaixo, publicada em 1º de agosto de 2009.

Uma casa onde o tempo insiste em parar
Imóvel que pertenceu a Guilherme de Almeida tem preservados objetos pessoais do poeta e vai virar museu e centro de estudos

FOTO: ERNESTO RODRIGUES/AE

Percorrer os imponentes cômodos do sobrado de 230 m² onde viveu o poeta, advogado, jornalista, crítico de cinema, ensaísta e tradutor Guilherme de Almeida (1890-1969) é uma volta no tempo. Tempo em que o som vinha da vitrola – preservada, na sala -, os textos eram datilografados – sua Remington Rand, sobre a escrivaninha na mansarda, não tem pingo na letra i – e São Paulo contava com tão menos luzes que era possível brincar de ser astrônomo e passar horas observando estrelas – o telescópio de Almeida ainda está lá, na casa em que morou por 23 anos, de 1946 até a sua morte. Hoje, Casa Guilherme de Almeida.

Depois de ficar fechado por quase três anos, o imóvel, que pertence ao governo paulista desde a década de 70, passa por uma série de adequações para ser reaberto, no primeiro semestre de 2010, como museu e Centro de Estudos de Tradução Literária. “Aqui discutiremos teoria da tradução, tanto de prosa quanto de poesia”, adianta o poeta Marcelo Tápia, diretor da instituição. “Também servirá para estimular o interesse pela obra de Guilherme de Almeida.” Tanto que já está na pauta a ideia de reeditar toda a obra de Almeida. E, no dia da reinauguração da Casa, deverá ser lançado o último livro do poeta, Margem, concluído dois meses antes de sua morte e ainda inédito. “(A obra) é a transição da vida para a morte”, impressiona-se Tápia. “Guilherme de Almeida fez uma espécie de testamento.” O último poema, cujo título é um ponto final, diz: “Sem/ mim/ em/ mim? Sim:/ FIM.”

O espaço será administrado pela Poiesis, mesma organização que está à frente da Casa das Rosas e do Museu da Língua Portuguesa. Graças a isso, a programação da Casa Guilherme de Almeida foi antecipada para este ano – funciona na Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Cursos e palestras já aconteceram no primeiro semestre e, a partir de hoje, começa uma nova leva.

NA COLINA
Quando se mudou para o sobrado, no número 187 da Rua Macapá, em Perdizes, Guilherme de Almeida tratou logo de apelidá-lo carinhosamente de “casa da colina”. Por ali, saraus eram constantes. Entre os frequentadores, estavam o escritor Oswald de Andrade (1890- 1954), o escultor Victor Brecheret (1894-1955) e as pintoras Tarsila do Amaral (1886-1973) e Anita Malfatti (1889-1964). Quadros e livros – há um acervo de cerca de 6 mil títulos, entre eles muitas primeiras edições de autores modernistas, autografadas – espalhados pela casa evocam lembranças dessa efervescência cultural.

O mobiliário também é impressionante, complementado por enfeites e louças de porcelana. Alguns itens são curiosos, como, no quarto principal, uma pequena cama para o cachorro do poeta. Almeida era fã de cães da raça pequinês – o último, chamado Ling Ling, morreu um ano depois de seu dono e ganhou um túmulo no quintal da casa. Objetos que aludem à Revolução de 32, cuja causa foi defendida ardentemente por Almeida, também permanecem ali. Há até a arma que Almeida usou, quando se alistou na “guerra paulista”.

Engana-se quem pensa que, fechada, a Casa esteja parada. Minuciosas, dez pessoas cuidam da catalogação do acervo – objetos, mobília, livros e obras de arte. Enquanto isso, o projeto de readequação do espaço recebe os últimos retoques antes de ser posto em prática. “O espaço terá uma dupla vida, já que será museu e centro de estudos”, explica o arquiteto e artista plástico Carlos Fernando Coelho Nogueira, coordenador de Programação Visual da Poiesis.

Nos fundos da casa, haverá uma pequena arquibancada e um deck, utilizados para palestras e outros eventos. No interior, estão previstos, entre outros, um projeto de iluminação e uma reorganização dos objetos, de modo que possam ser melhor vistos pelos visitantes. De acordo com a Secretaria de Estado da Cultura, os custos das obras ainda não foram calculados.

FOTO: ERNESTO RODRIGUES/ AE

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 1 de agosto de 2009