A Casa da Ópera
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A Casa da Ópera

A história do primeiro teatro paulistano

Edison Veiga

10 de agosto de 2015 | 07h33

Pátio do Colégio, em foto da década de 1860. Parte da Casa da Ópera aparece à esquerda. Foto: Militão Augusto de Azevedo/ Reprodução

Pátio do Colégio, em foto da década de 1860. Parte da Casa da Ópera aparece à esquerda. Foto: Militão Augusto de Azevedo/ Reprodução


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Empresto mais uma vez este espaço aqui ao meu xará Edison Loureiro, economista aposentado, que conta a história do primeiro teatro de São Paulo:

“São Paulo tem 164 teatros, além de 260 salas em 55 cinemas e várias salas de espetáculo. Claro que não foi sempre assim. Durante os primeiros duzentos anos de existência, São Paulo não tinha nenhum teatrinho.

O primeiro teatro digno desta denominação foi a Casa da Ópera que ficava no Pátio do Colégio ao lado da igreja dos jesuítas, com fundo para a antiga Rua da Fundição, atual Rua Floriano Peixoto.

Não que não existisse nenhuma atividade teatral. Desde os tempos em que Anchieta andava por aqui sempre houve representações. O próprio padre usava técnicas teatrais na sua catequização dos indígenas no velho colégio de São Paulo de Piratininga. Durante as festas religiosas e datas festivas aconteciam manifestações, que poderiam ser classificadas de teatrais, ao ar livre ou em tablados.

Em 1762, três personagens tentaram fazer um teatro: Luis Lopes Coutinho, Pedro Luiz Seixas e o capitão José Dias Cerqueira, que alugaram o casarão de João Dias por 640 réis e instalaram a primeira Casa da Ópera. O casarão ficava na Rua São Bento entre o largo do mesmo nome e o antigo Largo do Rosário, atual Praça Antônio Prado. Mas ao que tudo indica o teatro profano não era bem visto pelas autoridades, pois em 1763 a Câmara intimou os responsáveis a apresentarem a ordem de sua majestade que teriam para fazerem a ópera. Parece que os responsáveis não deram muita bola para a notificação, pois em 1764 uma ata da Câmara registrava era “grande ofensa a Deus o que na dita Casa da Ópera se causa”.

Ninguém sabe exatamente como terminou a pendenga, nem que fim levou aquela antiga Casa da Ópera. Em 1770, o primeiro governador de São Paulo, Luís António de Souza Botelho Mourão, conhecido pelo título de Morgado de Mateus, consentiu que se fizesse um teatrinho no porão do Palácio do Governo, que ficava no Pátio do Colégio, um edifício contíguo à igreja dos jesuítas.

Depois, em 1793, Bernardo José Maria Lorena e Silveira manda reformar a antiga Casa de Fundição, onde se cunhava o ouro para registrar o pagamento do “quinto real”, e o espaço foi transformado na Casa da Ópera, com capacidade para 350 pessoas. Não pense, porém, em espetáculos líricos. A palavra ópera era usada genericamente para apresentações teatrais e os teatros eram comumente chamados de Casa da Ópera.

Auguste de Saint-Hilaire, que visitou São Paulo em 1819, assistiu a uma apresentação naquele teatro e o descreveu como uma casa pequena, de um único andar, baixa, estreita, sem nenhum ornamento arquitetônico, pintada de vermelho, com três largas janelas de postigos negros. Entrava-se num vestíbulo estreito por onde se ia aos camarotes e à plateia. A sala, muito bonita e com três ordens de camarotes, era iluminada por um lustre central e velas colocadas entre os camarotes.

Quando Saint-Hilaire chegou, a plateia já estava ocupada. Somente homens sentados em bancos. No começo do século 19, as mulheres só saiam de casa para ir à igreja ou visitar parentes, e mesmo assim acompanhadas da família. O francês reparou que os atores eram todos operários mulatos e as atrizes eram mulheres públicas, cujo talento era proporcional à sua moralidade. Pareciam fantoches.

Os assentos eram um problema à parte, pois ao terminar a sessão, saíam todos ao mesmo tempo carregando suas cadeiras e havia um tumulto. Os mais apressados da plateia, normalmente estudantes, chegavam a escalar os camarotes em vez de sair normalmente pelos corredores. Em 1854, a companhia dramática chegou a publicar uma nota no jornal Correio Paulistano dizendo que nos dias posteriores aos de espetáculo “achar-se-ha aberto o theatro das 11 horas da manhã ás 3 da tarde, a fim de quem quizer mandar procurar suas cadeiras.” Pois era assim, quem quisesse sentar-se, que trouxesse sua cadeira de casa.

A pequena Casa da Ópera, que já era conhecido como Teatro da Ópera, teve seus momentos de glória. Na histórica noite de 7 de setembro de 1822, d. Pedro I, então Príncipe Regente do Brasil, foi aclamado com gritos de “viva o rei do Brasil” e o espetáculo daquela noite teve declamação de poemas e até a execução do Hino da Independência, composição de d. Pedro e por ele mesmo executado. É claro que Domitila de Castro Canto e Melo, futura Marquesa de Santos, estava presente. Seu romance com d. Pedro estava apenas começando.

No período de 1830 a 1835 os estudantes da Academia de Direito alugaram o teatro, através da Sociedade Acadêmica, constituída para este fim. Após o encerramento do contrato com os estudantes, o teatro passou por várias administrações e até mudou de nome, passando a ser conhecido por Teatro São Paulo. No final da década de 1860, o casarão estava em péssimas condições e, em 27 de junho de 1870, o presidente da província aprova o contrato para demolição do velho teatro.

O empreiteiro que aceitou o contrato foi Antonio dos Santos Chumbinho, um personagem bastante conhecido de todos os paulistanos da época. Católico fervoroso, dedicava as manhãs a cuidar das igrejas, armar os anjos para as procissões; à tarde cuidava de seus negócios; à noite, sua paixão era o teatro. Lá fazia de tudo: cenógrafo, iluminador e, também, ator. Descobria peças inéditas, montava e representava como cômico.

Chumbinho se desincumbiu da tarefa meio a contragosto e só no final de agosto daquele ano o velho casarão virou entulho. Conta-nos um antigo cronista que, naquela tarde, Chumbinho foi visto “chorando apaixonadamente junto aos escombros do casarão”.

Poucos anos depois, Chumbinho ficou completamente cego, dependendo de doações de seus amigos para sobreviver. Chegou a viver da caridade do Major Diogo, com um emprego de favor na tecelaria do Beco da Fábrica, na Florêncio de Abreu, e em 19 de maio de 1877 publicou uma comovente e envergonhada carta no jornal O Estado de S. Paulo, solicitando ajuda da população.

Mas quando o pioneiro Teatro da Ópera veio abaixo, outros dois já estavam em funcionamento em São Paulo: o Teatro São José e o pequenino Teatro do Batuíra. Ambos com histórias interessantes, mas, como dizia Júlio Gouveia, quando apresentava o Sítio do Pica-pau Amarelo: Isto é uma outra história, que fica para uma outra vez…”

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