A 1ª ligação de São Paulo de Piratininga com o litoral
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A 1ª ligação de São Paulo de Piratininga com o litoral

ARTIGO

Edison Veiga

19 Julho 2016 | 07h53

Imagem: Acervo Benedito Lima de Toledo/ Reprodução

Imagem: Acervo Benedito Lima de Toledo/ Reprodução


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Por Benedito Lima de Toledo*

Na era dos descobrimentos, vamos encontrar uma obstinada mobilização de um pequeno reino consciente de sua situação propícia na extremidade ocidental da Europa.

Nada foi por acaso. Dada essa vocação marítima, estava a realeza disposta a mobilizar todos recursos que implicassem sua expansão.

Das naves mediterrâneas, os portugueses passam à construção de navios “de alto bordo”. Vai-se aperfeiçoando a galeaça, a caravela, a nau, a fragata e o galeão.

Não eram naves costeiras, mas embarcações para todos os mares capazes de se valer da força propulsora dos ventos. Já estavam familiarizados com o uso da bússola e do astrolábio. E, a cada investida pelos mares, o conhecimento de novas terras compensava os desafios e riscos inerentes às incertezas.

Merece registro o obstinado empenho dos estaleiros navais, desde a seleção e abate de madeiras, autorizados pelo rei, até a provação a que cada modelo estivesse submetido ao se aventurar por mares desconhecidos. Dessas investidas, novo elenco de informações era colhido e somado ao conhecimento da arquitetura naval.

As cidades marítimas foram se consolidando, motivando o que poderíamos chamar o surgimento de um império.

Por essa época, coincidia o descobrimento da Índia e a sedução do comércio fantástico com as riquezas do Oriente.

Nesse quadro, o Brasil assomava a posição de uma simples ilha, como haviam narrado ao rei os descobridores. Mesmo assim, seria conveniente conhecer melhor as potencialidades de tal ilha e, para tanto, foi enviada uma pequena frota de três caravelas.

Os resultados dessa primeira expedição (1500) foram altamente compensadores. O governo finalmente se deu conta de que tal ilha na verdade era um continente. A partir de então, sucederam-se as expedições. É dessa época uma carta intitulada “Provinsia de Santa Cruz” (sic).

Da expedição de 1501 ficaram conhecidas a baía e a ilha de São Vicente.

São Vicente, durante o primeiro século, quase que se reduzia à zona marítima, separada pela cordilheira com seu grande contraste e caminhos pouco explorados.

Em princípios de 1553, o governador geral dispôs-se a conhecer melhor as capitanias do sul. Subiu ao planalto e determinou que ali se erigisse com caráter de vila a povoação de Borda do Campo, inaugurada com a denominação de Santo André da Borda do Campo.

Juntamente com Tomé de Souza, chegou a São Vicente o padre Manuel da Nóbrega, já como vice-provincial da Companhia de Jesus no Brasil.

Entendendo que seus companheiros não deveriam ser constrangidos a ficar na Borda do Campo, resolveu escolher um sítio mais adequado, que se chamou Piratininga. Tal local, em pouco tempo, iria transformar-se em um centro de convergência para onde ocorriam famílias em busca de segurança naqueles tempos incertos.

Nóbrega dedicou grande empenho à obra. Cogitou fundar um colégio em Piratininga, tarefa que atribuiu ao Padre Manuel de Paiva. Um magnífico local com largas vistas foi o escolhido, e nele levantaram a primeira capela, inaugurada a 25 de janeiro de 1554, sob a invocação de São Paulo, o Apóstolo dos Gentios, cuja conversão a Igreja celebra nessa data.

Treze religiosos integravam a missão encarregada da obra, entre os quais o irmão José de Anchieta. Ordenado sacerdote, Anchieta surpreende a todos quantos estudam sua vida.

“Quando o visitador dos jesuítas, Cristóvão Gouveia, esteve no Brasil, trouxe consigo o Padre Fernão Cardim que registrou em seu famoso livro ‘Tratados da Terra e Gente do Brasil’ muitos aspectos interessantes do país.”

Em São Paulo, conheceu Anchieta, já então investido das funções de provincial da Companhia de Jesus, e nos deixou um retrato que consta de uma de suas cartas para o Reino.

“Eis o retrato: o padre vinha detrás, a pé, com as abas da cinta, descalço, bem cansado; é este padre um santo de grande exemplo e oração, cheio de toda perfeição, desprezador de si e do mundo, uma coluna grande desta província e tem feito grande cristandade e conservado um grande exemplo; de ordinário anda a pé, nem há de retirá-lo de andar sendo muito enfermo. Enfim, sua vida é ‘vere apostolica’.”

Em 1584, Anchieta escreveu a obra ‘Informação do Brasil e de suas Capitanias’. Historiadores mais notáveis e qualificados veem o quanto essa obra é útil à nossa história.

Capistrano de Abreu afirma que Anchieta era um “psicólogo penetrante”. Varnhagen, na Revista do Instituto Histórico Brasileiro declara que “é um documento cheio de beleza e de verdade”. Leonardo Arroyo menciona “o próprio texto é de grande simplicidade, que outro não era o espírito do grande apóstolo, todo voltado para a confraternização humana”.

Uma gravura de Hans Staden mostra o lagamar vicentino acometido por uma tormenta. Essa região era inabitável e um empecilho para atingir a base da serra. Todavia, era tarefa vital chegar a caminhos que permitissem acesso ao planalto.

Vários caminhos foram tentados, como cita Adolpho A. Pinto em seu ‘História da Viação Pública’. “Compreendendo o governador que convinha abrir outro caminho, a fim de facilitar a comunicação de beira mar com o campo e melhor garantir o trânsito dos viandantes, expostos a ciladas dos selvagens, mandou traçar nova estrada por lugares mais seguros, encarregando dessa tarefa o padre José de Anchieta, que de bom grado a desempenhou, lançando o novo caminho por um trilho feito também pelos índios e dele conhecido, o qual por isso veio a chamar-se ‘caminho do padre José’ (grifo nosso). Tal a primeira estrada regular que o homem civilizado abriu na capitania de São Vicente, hoje Estado de São Paulo.”

Na obra ‘Aldeamentos Paulistas’, Pasquale Petrone confirma a citação acima referida, a saber: “[…] primeira estrada regular que o homem civilizado abriu na capitania de São Vicente, e que por isso se denominou caminho do Padre José”.

“A morte alcançou-o em plena missão, numa de suas visitas ao Espírito Santo, no dia 9 de junho de 1597. O lugar leva hoje seu nome: Anchieta. Nos funerais, numerosos indígenas e portugueses o aclamaram como ‘apóstolo do Brasil’.”

O mapa intitulado ‘Caminhos antigos entre São Paulo e Santos’ (acima reproduzido) é um documento de imenso interesse e exatidão, de grande utilidade aos pesquisadores.

* O historiador, arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

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