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“A poesia é uma obrigação, um vício mesmo”

Edison Veiga

18 de novembro de 2010 | 08h27

A entrevista por escrito de hoje é da poeta de primeiro livro Analu Andrigueti. Aos 32 anos, ela lança hoje A Matadora de Orquídeas – a partir das 20h30 no Centro Cultural B_arco (Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, Pinheiros, São Paulo – SP).

FOTO: EDUARDO MUYLAERT/ DIVULGAÇÃO

Por que matar as orquídeas?
Essa história tem várias versões. Como todas as boas histórias… A mais simples é que eu estava indo com um amigo ao cinema e ele quase atropelou uma banca de flores, de orquídeas. Olhei pra ele, brava, e disse “seu matador de orquídeas!” e percebi que daria um ótimo nome para um poema. Tentei escrever o poema A Matadora de Orquídeas várias vezes, mas não consegui chegar em alguma coisa que me agradasse.
Uma outra possibilidade é que as orquídeas morrem na minha companhia. Mudei de apartamento e nada mudou. As flores entram lindas e logo morrem. E nunca mais florescem.
Existem mais uma dúzia de histórias e cada pessoa pode inventar a sua justificativa também para aniquilar as flores mais bonitas – e sensuais – que existem.

Qual você prefere: Maxillaria shunkeana, Cattleya labiata ou Vanda coerulea?
Vanda coerulea. É grande, rara e cara. Mas cada orquídea tem sua beleza. E seu momento.

Como brotam seus poemas?
A maioria nasce de madrugada, interrompendo meu sono. Umas poucas palavras ficam gotejando na cabeça algumas horas até que eu desisto de dormir e pego o caderninho. Começa assim. Depois tem muito retrabalho, ofício de carpintaria mesmo. Também tenho escrito bastante no metrô. Vou e volto do trabalho olhando o povo, ouvindo as senhoras se lamentando e a molecada zoando. Escrevo algumas linhas no caderno e depois vou melhorando no computador. Às vezes demoro 15 minutos, mas na maioria das vezes vai o dia todo, indo e vindo, aparando uma aresta aqui, outra rebarba ali. Tem poemas que nunca ficam prontos. Teimosas, as palavras querem mudar de lugar.

A estreia em livro tem comparação com alguma outra sensação?
Não tive filhos ainda; acho que deve ser uma emoção maior do que a de publicar. Não estou em trabalho de parto, mas está tudo meio estranho. Achei que ia ficar agitadíssima. Mas ao contrário, só penso em dormir, na minha cama king size, em assistir House debaixo das cobertas.
É uma sensação boa. Muito boa. Piegas dizer que é a realização do maior sonho da minha vida. Mas é isso mesmo.

Por quais poetas você pira?
Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Adélia Prado, Fernando Pessoa. Isso para ficar nas estrelas de primeira grandeza da língua portuguesa.
Dos novos, gosto do Pardal, do Fabrício Corsaletti, da Maria Rezende, do Ramon Mello, do Gustavo Vinagre e de outros tantos que ainda não publicaram.
Ah, tem Clarice Lispector que para mim é poesia pura. Só que “direto e reto”, sem versos.
(Nem meia hora depois, Analu mandou a seguinte mensagem via celular: “Esqueci da minha poeta preferida. Please inclua Ana Cristina Cesar antes que ela venha puxar meus pés à noite. Beijo, Analu”)

Relações humanas parecem ser a força motriz de seus poemas. Por quê?
(Suspiro. Tô pensando. Dedos parados no teclado). Acho que é porque o dia todo, a vida toda, o ser humano se relaciona afetivamente. Começa com a mãe, os irmãos, a família, e depois parte para a “carreira solo”, com as escolhas amorosas. E é sempre difícil, enroscado, cheio de detalhes novos. O desafio – e a delícia – de conviver. E chega de filosofia.

Você diz: “A matéria-prima dos meus poemas é o amor e principalmente o desamor.” É mais fácil ou mais gostoso falar do desamor?
É duro falar dos “abraços partidos”, do que não foi, do que não deu certo, do que não durou o suficiente (e qual é mesmo o suficiente?)… Não é gostoso não. Se eu pudesse, ficava quieta, na minha. Mas a poesia é uma obrigação, um vício mesmo.
Claro que tenho meus momentos de “vingancinha”, de sacanear ex-namorado, de juntar histórias reais minhas e das minhas amigas com viagens da minha cabeça, Sex and the City, Bataille (História do Olho, genial!) e outras referências, das mais eruditas às mais baixas. Desses desabafos sobrevivem 10%, que viram bons poemas. Os outros vão pra lixeira.
E também gosto de escrever na pele dos homens. Em muitos poemas eróticos o eu-lírico é masculino.

Por que seus poemas não têm título?
Alguns tinham. Outros não. Não sou boa de título. Entrego tudo logo de cara e aí o poema perde a graça. O editor e eu chegamos num acordo de que era melhor padronizar e tirar os títulos.

Como você se descobriu poeta?
Com quatro anos decorei o livro Ou Isto ou Aquilo, da Cecília Meireles. Minha avó lia para mim. Eu gostava de declamar. E aí acho que foi natural querer escrever daquele jeito. Aos 9 anos rabisquei umas tristezas. Minha mãe achou na gaveta e disse que era poesia.

Tem mais?
Sim, muito mais. Continuo firme na poesia e também quero começar a trilhar a prosa. Já tenho dois projetos em andamento, para 2011.

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