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O fotógrafo desconhecido da cidade antiga

Edison Veiga

22 Setembro 2013 | 00h01

Livro traz imagens feitas pelo fazendeiro Raul de Almeida Prado, um amador das câmeras que registrou a SP do início do século 20

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Hoje todo mundo tem sua câmera e fotografar a cidade é algo banal. Mas, um século atrás, ser fotógrafo amador era algo raro, caro e praticamente impossível. Por isso, os registros fotográficos da capital paulista, em geral, ficam restritos aos profissionais – entre eles, os mais conhecidos são Militão Augusto de Azevedo (1837-1905), Guilherme Gaensly (1843-1928) e Benedito Junqueira Duarte (1910-1995).

O recém-lançado livro Transformações Urbanas: São Paulo – 1893-1940 (leia mais abaixo) revela o trabalho de um desconhecido fotógrafo dessa época, de sobrenome quatrocentão, que fazia as imagens por hobby: Raul de Almeida Prado (1896-1945). Algumas das 289 imagens feitas por ele, que integram o acervo da Fundação Energia e Saneamento, estão no livro.

São documentos produzidos entre 1925 e 1933: retratos de família, registros de viagens turísticas, vistas da cidade de São Paulo e de uma fazenda em local não identificado. “Provavelmente se trata de material inédito”, afirma a historiadora Isabel Regina Felix, gerente de documentação e pesquisa da Fundação e uma das responsáveis por transformar parte do conteúdo em livro. No prefácio, a superintendente da Fundação Mariana de Souza Rolim classifica Raul apenas como um “fotógrafo amador, pouco conhecido do público”.

Memória. O acervo de Raul de Almeida Prado foi recebido pela Fundação Energia e Saneamento como doação, em 2003, graças a uma das netas dele, a produtora de TV aposentada Maria Antonieta Vautier Franco, hoje com 64 anos. Durante quase meio século, ela foi a guardiã dessas preciosidades – grande parte em obsoletos e frágeis negativos de vidro.

Fazendeiro – com terras na região de Pirassununga – e produtor de café, Raul era um entusiasta da fotografia. Gostava de registrar paisagens e eternizar cenas paulistanas. Teve duas filhas. E nove netos que, como morreu com 49 anos, nem chegou a conhecer – por isso, aliás, informações biográficas dele são difíceis e raras atualmente.

Tanto que a microempresária Maitê Vautier Franco, 58 anos, irmã de Maria Antonieta, contou à reportagem que nem sequer conhecia essas imagens – foi ela quem descobriu, a pedido do Estado, um retrato do avô Raul nas gavetas da família (veja na galeria acima). “Das histórias que me lembro, posso contar que ele era o caçula de 14 irmãos”, afirma. “Era um homem de hábitos bem requintados.” Na imagem, vê-se ao fundo o Pico do Jaraguá. “Ali perto era a propriedade da família, até quando éramos crianças”, recorda-se. No terreno, atualmente, funciona uma empresa de tecnologia.

Obra permite ‘visitar’ o início do século 20

Com 179 fotografias do acervo da Fundação Energia e Saneamento, o livro Transformações Urbanas: São Paulo – 1893-1940 (R$ 15) traz as obras e a evolução da cidade em um momento-chave do desenvolvimento da infraestrutura urbana.

Os registros mostram como eram as operações das empresas de energia e saneamento, além de registrarem o cotidiano e o desenvolvimento da cidade naquela época. Há imagens de fotógrafos como Guilherme Gaensly, Pierre Doumet e Hugo Zanella, entremeadas por imagens de autoria desconhecida, além das amadoras de Raul Almeida Prado.

Há registros de obras clássicas da própria urbanização de São Paulo, como a retificação do Rio Pinheiros, além de operações mais prosaicas, como a instalação de postes de luz e a disposição de redes de esgotos. Esse cenário é contextualizado pelos professores Carlos Lemos e Ricardo Toledo Silva, ambos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Foi um período de efervescência e transformação da capital paulista, que saltou de 65 mil habitantes em 1890 para 1,4 milhão de paulistanos em 1940. “Os bondes de tração animal dão lugar aos bondes movidos por eletricidade; a iluminação a gás é substituída pela iluminação elétrica; os automóveis multiplicam-se pelas ruas; os sobrados de taipa dão lugar a elegantes casarões de alvenaria, que depois são arrasados para a construção de esbeltos edifícios em concreto”, diz texto logo no início do livro.

Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 22 de setembro de 2013

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