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Há 105 anos SP ganhava o 1º cinema, o Bijou

Edison Veiga

16 Novembro 2012 | 00h01

Ponto de encontro na antiga São João, ele ficava onde hoje está o Edifício Martinelli

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Há exatos 105 anos, o primeiro cinema de São Paulo abria suas portas. Com capacidade para 400 espectadores, o Bijou Theatre ficava na então Rua São João – na década seguinte transformada em avenida –, na altura de onde hoje se encontra o Edifício Martinelli.

“O endereço já tinha tradição para o entretenimento. Em 1898, ali funcionava um boliche, que depois virou um teatrinho. Então os exibidores Francisco Serrador e Antonio Gadotti fizeram o cinema”, explica o historiador José Inacio de Melo Souza, responsável por uma minuciosa pesquisa de todas as 150 salas que exibiram filmes em São Paulo entre 1895 – quando a novidade chegou à capital paulista – e 1929 – quando a sétima arte perdeu a mudez. “O Bijou, então, marca a passagem dos espaços ambulantes de exibição. É o primeiro local específico e fixo para cinema na cidade.”

A pesquisa de Souza ajuda a entender esse contexto. É possível dividir os cinemas antigos de São Paulo em cinco grupos: os ambulantes, os salões adaptados, os barracões de zinco, os do período de adaptação e as construções novas. “Serrador já era um veterano exibidor ambulante. Com o Bijou, transforma cinema em negócio”, afirma Souza. Antes, filmes foram exibidos em um mesmo endereço por, no máximo, poucos meses.

Mundo smart. Conforme registrou o Estado em novembro de 1907, o antigo imóvel foi “completa e luxuosamente remodelado” para a inauguração do Bijou. A disposição original dos camarotes e plateia foi mantida. Rapidamente a casa passou a ser ponto de encontro obrigatório do “mundo smart”, expressão utilizada pela imprensa da época para se referir à alta sociedade.

O ambiente contava com 15 ventiladores e um requintado botequim. A trilha sonora dos filmes era garantida pelo acompanhamento de um sexteto. Durante a semana, as sessões ocorriam às 18h30. Aos domingos, às 13h30 e às 19h30. “É preciso lembrar que, naquela época, os filmes eram curtos, de pouco mais de 10 minutos. Em média, uma sessão mostrava cinco filmes”, contextualiza o historiador. “A maior parte da produção vinha da Europa – cerca de dois terços do total. O restante era norte-americana.” A Dama das Camélias, Macbeth, Raio de Luz Libertador, O Fim do Mundo e Sevilha são alguns dos filmes que estrearam na cidade na telona da Rua São João.

Com o Bijou, Serrador se transformou em um grande empresário do entretenimento. Ele já era um conhecido distribuidor de filmes e exibidor ambulante em São Paulo. Então passa a ser um empresário com diversas filiais, montando uma rede de cinemas – que chegou a ter 35 unidades, em diversas cidades. “Ele praticamente monopolizou o setor, desbancando os concorrentes”, diz Souza.

No início dos anos 1910, o Bijou Theatre ganhou um anexo, o Bijou Salão, dobrando sua capacidade total de público para 800 pessoas. Mesmo com tanto glamour, o fim estava próximo. Com a reforma do Vale do Anhangabaú e da Avenida São João, o Bijou foi condenado pelo progresso. Acabou demolido no fim de 1914.

QUEM FOI?
Francisco Serrador (1872-1941)
O empresário espanhol foi proprietário de hotéis, cassinos, teatros e cinemas em várias cidades do Brasil. Além de São Paulo, morou em Curitiba e no Rio. É considerado o responsável por trazer ao Brasil o hábito de comer cachorro-quente, uma vez que o lanche era vendido em seus cinemas.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 16 de novembro de 2012

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