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No rio poluído, som erudito

Edison Veiga

22 de setembro de 2010 | 08h00

FOTO: CLAYTON DE SOUZA/ AE

Arrigo Barnabé não sabia do Dia do Rio Tietê. Mas, por uma dessas coincidências inexplicáveis, o músico inventou de gravar, na tarde de ontem, seu programa Supertônica – exibido aos domingos, às 21h, pela Rádio Cultura FM – justamente no fedido rio que corta São Paulo. O quadro, no qual Arrigo realiza uma “investigação do gosto musical” foi feito na Barragem da Penha, divisa de São Paulo com Guarulhos, e envolveu funcionários da dragagem do rio.

No discman, o CD Coros Invisíveis do compositor alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2007). Como de praxe em seu programa – que já levou música a locais que vão de mosteiro religioso a ponto de atendimento a transexuais –, Arrigo pergunta ao sujeito o que está achando da música. “Música? Isso é só chiado”, estranha o maquinista João Gomes Lustosa, 52 anos. “Música tem de ter letra.”

FOTO: CLAYTON DE SOUZA/ AE

“Este som é limpo ou sujo?”, provoca o músico. “Mais limpo que o rio”, responde, de bate pronto, o ajudante-geral Francisco José Carlos, de 42 anos. O operador de máquinas Antonio Braz, de 42 anos, concorda: o rio é pior. “Essa ‘coisera’ parece o ruído de um motor”, diz o vigia João Senhorinho de Oliveira, 66 anos, acenando negativamente com a cabeça. “Isso é música? Para mim é um rádio dessintonizado”, reclama o piloto da embarcação, Manoel Henrique Ramos, de 44 anos.

Na rotina desses “dragueiros”, responsáveis por manter a calha do rio livre de assoreamentos, pneus, garrafas PET e até sofás velhos são imagem renitente. “Já apareceu carcaça de carro, cadáver… Hoje retiramos uma bola. Inclusive vou levar pra casa”, comenta o chefe da equipe, o engenheiro civil Drausio Angelo Pagianotto, de 58 anos, apontando para a gorduchinha. “Já vi cavalo, cachorro e até gente morta”, enumera Manoel. Com o fedor, já estão acostumados. E bichos, também tem? “Já vi bagre e sempre aparece capivara”, garante Francisco.

O músico. Não é a primeira vez que Arrigo entra em uma draga e sente o cheiro fétido de um rio poluído. No filme Cidade Oculta, dirigido por Chico Botelho em 1986, o músico – além de ter assinado a trilha sonora – encarnou um personagem que morava em uma dessas embarcações. Só que no Rio Pinheiros. “Nunca me esqueci desse cheiro”, disse ontem, logo que chegou às margens do Tietê.

Nascido em Londrina (PR), em 1951, Arrigo despontou para a música em 1980, quando já vivia em São Paulo e lançou o disco Clara Crocodilo. Desde o início do mês, sua vertente experimental vem sendo aproveitada pelo Museu da Casa Brasileira (Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705, Jardim Paulistano). Até dezembro, ele é o curador do projeto Música no Museu, que leva, semanalmente – todos os domingos, às 11h, grátis – apresentações musicais para o espaço. “Não temam, portanto, sua música”, pede ele, em texto que apresenta os princípios de sua curadoria. “Antes, a recebam com a cumplicidade necessária.”

Quer ouvir as edições passadas do programa Supertônica? Clique aqui.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 22 de setembro de 2010