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Fotógrafos registram SP com filme extinto

Edison Veiga

28 Julho 2011 | 00h01

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Vinte e nove fotógrafos, um domingo de sol e uma missão: registrar São Paulo, pela última vez, com o mítico filme Kodachrome. Saudosismo, nostalgia e medo. Medo? “Sim, todos estávamos já tão habituados ao digital que sentimos muita tensão. Estava com medo de errar”, conta Dimitri Lee, de 50 anos, organizador da expedição fotográfica.

O passeio, que aconteceu sem muita pretensão – e não passava de um encontro de amigos apaixonados por fotografia – deve se tornar histórico: o grupo está em processo de captação de patrocínios para transformar o resultado em livro e documentário. “É um olhar sobre a cidade que não haverá mais com a extinção do filme”, lembra Dimitri.

Ele teve a ideia quando soube, em junho de 2009, que a Kodak interromperia a produção do filme – que começou a ser produzido pela empresa em 1935 e se tornou fetiche para gerações de fotógrafos. “É um filme único, com uma cor diferente, um contraste diferente, uma saturação diferente”, comenta.

Dimitri entrou no site de uma loja americana de fotografia e comprou, a US$ 14 cada, os últimos rolos disponíveis. Chamou então 28 fotógrafos amigos, combinou uma data, em setembro de 2009, e lá foram todos, com um filme de 36 poses cada, coletar as últimas imagens paulistanas com esse suporte.

Tomaram café da manhã juntos em uma escola de fotografia que funciona em Pinheiros e saíram para as ruas. À noite, encontraram-se em um bar da Vila Madalena e beberam todas – em homenagem ao extinto filme. “Enchemos a lata”, conta. “Aí combinamos que, após a revelação dos filmes, alguns meses depois, faríamos um encontro para projetar as imagens.”

Nostalgia. O tema das fotos era livre. Assim, talvez motivada pelo clima saudosista de usar o filme, a maior parte dos fotógrafos retornou às origens. “É interessante como muitos foram fotografar a rua onde moravam quando eram crianças, repetir os cliques que faziam quando eram pequenininhos, ou onde se recordavam de terem gasto o primeiro filme”, avalia Dimitri.

“Na infância estudei na região onde hoje é a cracolândia. Então decidi fotografar as ruas por ali e a Estação da Luz”, conta o fotógrafo Hilton Ribeiro, de 59. “Foi maravilhoso voltar a dialogar com esse espaço. Eu estava bem atrapalhado com um projeto e achei ótima a oportunidade de fazer essa caminhada nostálgica”, afirma.

Dimitri preferiu andar pela zona leste. “Sempre gostei de fotografar parques de diversão. E eles também estão rareando”, comenta. “Então fui a um na zona leste e fiz minhas imagens ali.”

O fotógrafo Angelo Pastorello, de 51, também escolheu a zona leste. “Fui até um circo muito simples, perto de Itaquera”, recorda-se. “Então chamei algumas pessoas que trabalhavam lá. No finzinho da tarde, fiz o retrato do palhaço.”

“A gente sabia que era um fim definitivo, por causa da extinção do filme. Então nos propusemos a fazer um projeto afetivo. Afetivo, porque entre amigos. Afetivo, porque com um filme de que todos gostávamos. E, acima de tudo, afetivo com nossa cidade”, define Dimitri.

Confira projeto similar realizado na cidade de La Coruña, na Espanha:

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 28 de julho de 2011

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