Intelectuais e sem-teto criam ocupação ‘sustentável’
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Intelectuais e sem-teto criam ocupação ‘sustentável’

Diego Zanchetta

11 de agosto de 2013 | 12h16

Nos 13 andares do Edifício São Manuel, ocupado por 170 famílias desde outubro do ano passado, estudantes de arquitetura, haitianos, sem-teto, evangélicos, garotas de programa e intelectuais da USP gastam R$ 160 por mês e 2 horas diárias em atividades coletivas. A missão é criar um condomínio autosustentável e forçar o governo municipal a transformar o prédio, fechado pelos donos desde março de 2009, em moradia popular.

O “laboratório social”, como vem sendo chamado o edifício de 1939 projetado pelo modernista francês Jacques Pilon (1905-1962) na Rua Marconi, no centro paulistano, tem chuveiro quente, wi-fi, creche, sala de cinema, biblioteca, cozinha coletiva, portaria 24 horas e regras rígidas de convivência – briga de casal, ofensa entre vizinhos, barulho após as 22 horas e consumo de bebida alcoólica são infrações que resultam na expulsão imediata do morador.

Um recente documentário, “Marconi 138”, feito na ocupação por produtores independentes e hoje exibido em coletivos culturais do centro e universidades, tenta retratar a experiência inédita e a convivência harmônica dentro do prédio. Na terça-feira, a reportagem do Estadão ganhou autorização para do Movimento Moradia Para Todos (MMPT) para conhecer o local. Foram duas visitas de três horas cada uma.

A limpeza em cada canto da ocupação é o que mais impressiona logo na entrada. Não existe nenhum lixo acumulado e o mármore branco da escada chega a brilhar. Cada morador deve ter renda própria e se dedicar durante duas horas por dia a funções que ajudem a tornar a ocupação autosustentável, como porteiro, encanador, pintor e professor. O pagamento de R$ 30 para despesas (conta de luz, água e pequenos consertos) tem de ser semanal. Outros R$ 10 por semana garantem duas refeições diárias na cozinha coletiva, onde também entram toneladas de alimentos doados pela Ceasa e pelo Movimento dos Sem Terra (MST).

O ambiente nos corredores, com cartazes de oficinas culturais e pôsteres de filmes como O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, lembra um pouco as moradias estudantis da USP e da Unicamp. Só que sem as latas de cerveja e o cheiro de maconha – álcool e drogas são totalmente proibidos. As paredes foram pintadas com cal, para também acabar com a umidade, e novas tubulações construídas pelas famílias garantem água nos andares mais altos. Cada morador tem sua carterinha com foto e as visitas precisam deixar nome e RG na portaria.

A participação nas limpezas dos andares e da cozinha é obrigatória. Na porta de cada apartamento está a lista de atividades para as quais o morador foi designado no mês. Para manter a creche no segundo andar, mães que trabalham fora pagam R$ 120 semanais para duas mulheres, também moradoras da ocupação, passarem o dia com seus filhos.

As reuniões “de conscientização política” acontecem nas terças-feiras à noite. Aos sábados as crianças e adolescentes têm aulas de reforço escolar com docentes que prestam trabalho voluntário na ocupação. Oficinas culturais são realizadas para debater questões como o preço da tarifa de ônibus e a crise política no governo Dilma Rousseuff (PT).

Organização. Tamanha organização na ocupação chamou a atenção de pesquisadores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e da Defensoria Pública do Estado. Um escritório do Coletivo Chão, formado por doutourandos e ex-alunos da FAU, está sendo montado no último andar do prédio. A cerimônia de posse de 56 novos defensores públicos foi realizada dentro da ocupação no mês passado. Uma ação da Defensoria pede que o edifício, cujos nove proprietários devem R$ 520 mil em IPTU à Prefeitura, seja declarado de interesse social e se transforme em moradia oficial das famílias.

“Morar com dignidade é uma urgência, e não pode esperar. A luta aqui não é por um bolsa-aluguel de R$ 300 ou por um cadastro em programa habitacional. Aqui nós estamos lutando para que a função social do imóvel seja cumprida. Era um prédio vazio e com donos devedores do governo, portanto era um latifúndio improdutivo. Agora temos 170 famílias morando com dignidade, perto de seus locais de trabalho”, argumenta o cineasta Manuel Moruzzi, de 31 anos, do Movimento Moradia Para Todos (MMPT). Filho de mãe pernambucana e pai italiano, se formou na Universidade de Bologna e chegou à capital paulista em 2009.

Moruzzi mora na ocupação e compara a experiência brasileira com os centros sociais autogestionáveis da Alemanha. “A diferença é que aqui não é um espaço totalmente aberto, como são esses centros de Berlim. Precisamos ter alguns cuidados na portaria. Aqui muitas mulheres fugiram de casa após serem vítimas de violência doméstica”, explica o cineasta, que também ajuda como tradutor das famílias haitianas da ocupação e só falam francês. “O cinema estava muito ‘coxinha’. Precisava de algo mais desafiador”, acrescenta Moruzzi sobre a nova opção.

Espera. O Edifício São Manuel é um dos 47 prédios que estão ocupados hoje no centro de São Paulo. Mais de cem famílias estão na lista de espera por um dos 170 apartamentos, incluindo dezenas de estudantes e arquitetos que querem viver a experiência das atividades coletivas da ocupação. Uma das salas no terceiro andar do prédio foi reservada para receber hóspedes transitórios.

O “guest room” está ocupado neste mês pelas estudantes de arquitetura Marcela Arruda, de 21 anos, que deixou a casa dos pais no Itaim Bibi, área nobre da zona sul, e Isabel Hergueta, de 23 anos, espanhola que faz programa de intercâmbio no Brasil há nove meses. “Aqui tem mais espaços de convivência coletiva do que no prédio onde eu morava. É essa vida coletiva que estamos querendo mostrar que é possível”, conta Marcela em seu apartamento com rede e janelão de vidro com vista para o calçadão da Rua Barão de Itapetininga.

Ela e a amiga da Espanha estudam arquitetura na Escola da Cidade, na Praça da República, a menos de 200 metros da ocupação. “Não precisamos nem gastar dinheiro com ônibus”, emenda a estudante.

Haitianos e sem-tetos que passaram a trabalhar em comércios do centro também estão entre os moradores. Há 11 meses em São Paulo, a haitiana Schelma Charles, de 25 anos, era professora de Língua Portuguesa em Porto Príncipe, antes do terremoto de 2010. No Brasil, como não entende nem fala português, só consegue bicos de faxineira em bares e restaurantes da região central. Mas diz estar feliz por não ter ido morar em favelas, como aconteceu com muitos conterrâneos que também se refugiaram em São Paulo. “Esse prédio é um lugar muito feliz”, conta.

Prefeitura estuda desapropriar prédio e deixar famílias

A Secretaria Municipal de Habitação informou ter dado encaminhamento para a “desapropriação de interesse social” do Edifício São Manuel, o que torna possível o sonho de as famílias que ocupam o prédio desde outubro permanecerem no local. Segundo a pasta, existe a possibilidade de o prédio ser transformado em habitação popular para os atuais moradores.

Dos 47 prédios invadidos no centro de São Paulo, onde hoje estão 4 mil famílias, a administração do prefeito Fernando Haddad (PT) estuda transformar pelo menos 13 deles em moradias populares. Nos prédios particulares onde a Justiça concedeu a reintegração de posse aos donos, o governo fez o cadastro das famílias ou ofereceu bolsa-aluguel.

Foi o caso do prédio do antigo Othon, ao lado da Prefeitura, no centro – antes de as famílias deixarem o local há duas semanas elas receberam do governo a promessa de serem contempladas, num prazo máximo de quatro anos, com moradias da CDHU ou Cohab.

O governo quer comprar o prédio onde funcionava o hotel para que o local abrigue secretárias de governo e outras repartições, se transformando numa extensão do Edifício Matarazzo.

A Prefeitura também estuda comprar dois prédios do governo federal que estão invadidos e transformá-los em moradia popular, segundo a Sehab.

A reportagem entrou em contato com um dos advogados que representam os proprietários do Edifício São Manuel, mas não houve retorno às ligações feitas na quarta-feira e sexta-feira. Os donos não movem ação de reintegração de posse contra as 170 famílias que ocupam o edifício.

O QUE TEM NA OCUPAÇÃO

Internet Coletiva

Creche

Cozinha comunitária

Hortas nas sacadas

Sala de cinema

Biblioteca

Portaria 24 horas

Quarto para hóspedes

Escritório de arquitetura do Coletivo Chão

O QUE É PODE RESULTAR NA EXPULSÃO

Fumar

Qualquer uso de bebida alcoólica ou drogas

Briga de casais

Ofensas entre moradores

Preconceitos

Som alto ou barulho após as 22h

Lavar louça nas pias dos banheiros

 

Posse de defensores públicos realizada em maio na ocupação da Rua Marconi

 

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