Haddad autoriza corte recorde de 1.787 árvores
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Haddad autoriza corte recorde de 1.787 árvores

Diego Zanchetta

25 Maio 2013 | 08h32

COM ADRIANA FERRAZ

Após cinco anos de polêmica, a Prefeitura de São Paulo autorizou o maior corte de árvores em benefício de um empreendimento comercial de que se tem registro. Para a construção de um residencial de alto padrão no Panamby, na zona sul, a gestão Fernando Haddad (PT) permitiu o corte de 1.787 árvores – centenas delas remanescentes de um fragmento de Mata Atlântica. É mais que o dobro da quantidade retirada dos canteiros da Marginal do Tietê durante a construção das novas pistas.

O futuro Golf Village vai ocupar um terreno de 256,7 mil m² no km 14 da Marginal do Pinheiros. As autorizações para o corte foram dadas em março e abril pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. O aval tem como base parecer da Companhia Ambiental do Estado (Cetesb), que não considera a área como de proteção permanente. O documento pôs fim a um impasse que durava cinco anos – em 2008, a construtora responsável, Bueno Netto, chegou a ser multada em R$ 500 mil por cortar 206 árvores.

Utilizando o entendimento estadual, uma comissão do Departamento de Parques e Áreas Verdes (Depave) da Prefeitura analisou o empreendimento em menos de quatro meses e forneceu a licença ambiental. Os trabalhos de terraplenagem começaram no início deste mês e grande parte da mata já foi derrubada. Funcionários da construtora informaram que um estande de vendas deve ser erguido nas próximas semanas.

A Prefeitura informou que o corte de 1.787 árvores é necessário para que a construtora faça a descontaminação do terreno. A área está contaminada pelo lodo do Rio Pinheiros, que anteriormente era depositado ali. Segundo a pasta, a Bueno Netto, em termo de compensação ambiental, comprometeu-se a plantar a mesma quantidade de árvores dentro do empreendimento e converter 3.659 mudas em depósito para o Fundo Municipal de Meio Ambiente (Fema) no valor de R$ 704.453,27.

Já a Bueno Netto afirmou que a compensação será maior e chegará a “11.799 árvores de doação”, ao custo total de R$ 6.388.665,71. O resultado dessa correção, porém, não será imediato. Segundo ambientalistas, a reposição demora mais de 10 anos para surtir algum tipo de efeito. E, para uma floresta ser refeita, passa de 30 anos.

Em São Paulo, os prazos despertam preocupação. Nos últimos 14 anos, a capital perdeu, com autorização oficial, 14 árvores por dia. Foram 72.514 exemplares cortados de lotes e áreas verdes com aval da Prefeitura. A vegetação retirada deu espaço a prédios, shoppings, ruas, estações de metrô e outras construções. O número corresponde a quase cinco Parques do Ibirapuera – área verde da zona sul com cerca de 15 mil árvores.

Alvará. Apesar da licença ambiental, a obra não tem alvará da Secretaria Municipal da Habitação (Sehab), que ainda analisa a documentação da Bueno Netto. A empresa não quis detalhar quais alterações fez no projeto. Originalmente, a ideia era construir 56 prédios residenciais, com unidades com metragem mínima de 367 m², uma torre corporativa, dois clubes, um campo de golfe e um centro de compras.

O certo, por enquanto, é que os futuros moradores terão um parque como vizinho. A entrada do Burle Marx fica a um quilômetro, entre as Pontes do Morumbi e João Dias.


Condomínio com 56 torres vai ficar ao lado do Parque Burle Marx

 

Cercado por espécies nativas da Mata Atlântica, como tapiá, pau-de-viola, tamanqueiro, fumo-bravo e capororoca, o terreno é considerado um “refrigerador” das imediações. “Toda aquela área é muito rica em flora e fauna urbanas. Serve para equilibrar a temperatura do entorno. Antes de autorizar essa retirada enorme de árvores, seria necessário ter um estudo de impacto ambiental em mãos. Em obras dessa grandiosidade, é o que a lei exige”, reclama o ambientalista Carlos Bocuhy.

Com base no laudo de um geógrafo que aponta supressão de vegetação nativa de Mata Atlântica em um “topo de morro” da várzea do Rio Pinheiros, a Associação Morumbi Melhor e o Movimento Defenda SP prometem recorrer ao Ministério Público do Estado com o intuito de parar a obra.

“A sociedade tem a Promotoria de Meio Ambiente para proteção dessa área de APP (Área de Proteção Ambiental), na várzea do rio, assim como também não acredita que a Secretaria Municipal da Habitação vá aprovar esse escandaloso projeto que afronta todas as regras municipais e estaduais de proteção ambiental”, informa a Associação Morumbi Melhor.

Contaminação. Mas o promotor de Justiça José Eduardo Lutti, da Promotoria do Meio Ambiente, adiantou que a retirada das árvores é necessária para que o terreno possa ser descontaminado. Ele disse que a construtora terá de “cobrir a área” com terra, a uma altura de 1,5 metro. “Essa história precisa ter um fim. Discute-se essa remediação há cinco anos. Foi por causa dessa demora que a vegetação cresceu.”

A Cetesb, em nota, informou que o terreno não mais constitui várzea do Pinheiros, visto que o curso d’água foi retificado e teve a vazão regularizada há anos. O órgão ressaltou ainda que a área também não é mais caracterizada como APP, já que o Córrego do Pau Arcado foi canalizado

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