60% das paróquias de São Paulo não têm grupos de jovens
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60% das paróquias de São Paulo não têm grupos de jovens

Diego Zanchetta

22 de julho de 2013 | 16h26

COM ADRIANA FERRAZ

Assim como o número total de católicos, o número de grupos de jovens também encolheu nas paróquias de São Paulo. Apenas 40% delas contam atualmente com uma Pastoral da Juventude (PJ) oficialmente organizada e atuante. Dados das dioceses da capital mostram ainda que a maior parte desses grupos está na periferia, e não se alimenta apenas de religião. O trabalho social e a música são hoje os principais fatores aglutinadores de jovens católicos.

As características das regiões mais periféricas ajudam a explicar a divisão da juventude católica. Os bairros localizados nos extremos da zona sul, por exemplo, reúnem 140 dos 260 grupos de jovens da cidade. São pessoas na faixa etária dos 14 aos 30 anos que passam boa parte dos fins de semana dentro da igreja simplesmente porque não têm outra opção de lazer, de esporte ou mesmo cultural. Na falta do Estado, a igreja assume o papel de tirar os jovens da rua e dar a eles alguma “função social”.

Quando o trabalho de base é forte, a atuação da PJ pode até extrapolar os muros da paróquia. Foi o que aconteceu com os 25 jovens que frequentavam a Paróquia São José Operário, na região de Grajaú. Em 2004, eles fundaram a Comunidade Cidadã, uma ONG que promove oficinas a 250 jovens da comunidade. Na semana passada, eles comemoraram a visita de 40 peregrinos que visitam o País por conta da Jornada Mundial da Juventude.

O coordenador pedagógico Magno Duarte, de 31 anos, é um dos fundadores da ONG. E apesar da intensa agenda social, ele ainda persevera nos compromissos religiosos, sendo um dos responsáveis pela PJ na Diocese de Santo Amaro, formada por 107 paróquias. Mas Duarte admite que nem todos seguiram seu exemplo. “Os grupos se esvaziaram ao longo do tempo. Percebo que antes havia um trabalho maior de formação, de base familiar. Hoje, enfrentamos dificuldades na articulação dos grupos”, diz.

A música, muitas vezes, é o principal atrativo. “Ela chama a juventude”, afirma a publicitária Aline Brito, de 29 anos, que coordena o setor na Diocese de São Miguel Paulista, zona leste. Só na região há 80 grupos, que reúnem cerca de 2 mil jovens aos fins de semana. “Aqui, a renovação carismática é muito forte. É uma característica das regiões mais pobres, como a nossa.” Mesmo assim, a participação caiu cerca de 30% nos últimos dez anos.

Para Eliane Gouveia, coordenadora do núcleo Religião e Sociedade da PUC-SP, o vínculo formado dentro da igreja ajuda o jovem a criar identidade. “Na periferia, parte dos movimentos sociais é capitaneada pela igreja, o que torna essa relação ainda mais forte, e não necessariamente por causa da religião”, diz a professora.

 

Peregrinos visitam sede da ONG Comunidade Cidadã, criada por grupo de jovens do Grajaú

 

Perseverança. Nos bairros do centro expandido, a dificuldade em formar e manter grupos de jovens é maior, segundo dados da Arquidiocese de São Paulo. Há apenas 40 pastorais formadas entre as 301 paróquias que integram a maior divisão administrativa da igreja na capital, onde vivem 6 milhões de pessoas. Mais uma vez, as características sociais explicam parte da baixa adesão dos jovens: a população é mais velha e com maior poder aquisitivo.

O horário das atividades, muitas vezes, é outro impeditivo. Quem costuma viajar ou precisa trabalhar aos sábados e domingos lamenta não poder participar dos grupos, que geralmente se reúnem nos fins de semana. A estudante Nataly Vieira Fappiano, de 17 anos, faz parte desse grupo. Ela trabalha com o pai nos fins de semana e lamenta a falta de tempo para se dedicar ao grupo de jovens da Paróquia Santa Clara, na zona leste. “Estou começando a frequentar agora, mas não posso ir sempre. Acho que muita gente tem esse mesmo problema”, diz.

O pároco João Batista Domingues afirma se esforçar para que as famílias que frequentam a igreja estimulem os jovens do bairro a fazer o mesmo. “É um desafio em duas frentes. Primeiro, manter o interesse de quem já frequenta a paróquia, dos adultos e dos idosos. Depois, incentivá-los a acolher bem a garotada que está começando.”

Para o padre Rodolfo Camarotta Costa, responsável pelas pastorais jovens da Diocese de Campo Limpo, na zona sul, o desafio não está só em manter o jovem na igreja, ou convencê-lo a seguir as doutrinas rígidas do Vaticano, como manter a virgindade até o casamento. “Hoje, é preciso ainda lutar contra o preconceito. Muitos jovens não são compreendidos por exercer sua religião. Os amigos zombam de quem acorda cedo para ir à missa ou ‘perde’ o fim de semana ajudando nas atividades de evangelização. É preciso entender que o jovem católico não é um ET”, diz.

 

Outros países

A dificuldade em atrair jovens para dentro da Igreja não é ‘privilégio’ exclusivamente brasileiro. Na Europa, as paróquias sofrem do mesmo mal. Nascida em Luxemburgo, Magda Ribeiro, de 20 anos, visitou a capital na semana passada para a pré-jornada e afirmou que seu grupo de jovens hoje tem a participação de 20 pessoas. “Antes, éramos mais de cem. O altar ficava lotado, agora é vazio”, lamenta. Ela diz que o tipo de participação também é diferente por lá. “No Brasil, tenho a impressão que os jovens são mais atuantes, ou pelo menos mais animados”, diz.

QUEDA

62,8% dos jovens brasileiros se consideram católicos, segundo o censo de 2010 do IBGE. Em 2000, esse porcentual era de 72,8%. Na capital paulista, o índice atual é de 55,4%, contra a taxa de 66,3% registrada em 2000.