Urbanidade e barulho em Pinheiros. Os conflitos da cidade compacta na prática.
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Urbanidade e barulho em Pinheiros. Os conflitos da cidade compacta na prática.

Mauro Calliari

13 de junho de 2019 | 11h52

Rua Paes Leme. Foto: M.Calliari

Em alguns bairros de São Paulo, é possível sair de casa e andar a pé até a padaria, a farmácia, a escola, o ponto de ônibus, a academia e encontrar amigos. Mas também é possível se irritar com a barulheira do trânsito e dos bares.

A cidade compacta de uso misto é o sonho de nove entre dez  urbanistas pelo mundo.

Ela é mais democrática, mais acessível e polui menos. Em cidades mais compactas as pessoas chegam mais rápido a seus destinos e usam mais em transporte público e o pé. É por isso que um habitante da super densificada  Hong Kong emite menos de um décimo de CO2 do que os habitantes de qualquer outra grande cidade do mundo, principalmente as mais espalhadas.

São Paulo fez seu último Plano Diretor, em 2014, pensando nisso, estimulando que as pessoas morem ao lado de corredores de transporte (o tal DOT – Desenvolvimento Orientado para o Transporte), com comércio e serviços perto das moradias.

Mas a cidade já tem alguns bairros onde há essa densidade e onde a vida cotidiana acontece à sombra da diversidade e do uso misto, como Santa Cecília, Bom Retiro e Pinheiros, por exemplo.

O uso misto na rua Campo Alegre, em Pinheiros. Foto: M.Calliari

Em alguns trechos de Pinheiros, numa simples volta no quarteirão, dá para tomar um café, conversar com o vizinho que está passeando com o cachorro, comprar uma verdura na quitanda, e ir até a academia. Tudo a menos de quinze minutos do metrô ou a cinco minutos de algum ponto de ônibus.

O outro lado do uso misto e da proximidade com os transportes é o barulho.

A calçada onde a gente encontra um amigo ou caminha tranquilo se transforma com o barulho: desde o motociclista que buzina freneticamente até o bar que coloca música ao vivo com amplificadores gigantescos voltados para a rua.

Morar ao lado de uma via movimentada ou de um bar ou de alguma outra atividade é um exercício difícil de convivência entre quem dorme e quem toca música, quem dirige e quem está cuidando de um bebê em casa, quem está trabalhando e quem está buzinando.

Para que um plano diretor baseado na convivência cotidiana não naufrague, seria bom a gente resolver alguns problemas imediatamente.

Ônibus na avenida Faria Lima. Foto: M.Calliari

Barulho de ônibus –  Alguns efeitos do Plano Diretor começam a ficar visíveis em alguns eixos de transporte como no eixo da Rebouças, onde há mais de 10 novos empreendimentos que combinam habitação, lojas, escritórios, restaurantes e cinemas.

A ideia é que as pessoas morem a menos de 500 metros de um ponto de ônibus ou a menos de 1000 metros de uma estação de metrô. O problema dos corredores, porém, é que o barulho atrapalha a vida e o comércio no entorno. O Mapa de Ruídos da cidade mostra que nos corredores de ônibus, o  barulho chega costumeiramente a 85 decibéis, próximo do patamar de alto risco à saúde.

São Paulo é uma das cidades mais barulhentas do mundo, mas nas não seria tão difícil reduzir essa barulheira a níveis menos insalubres. Além de uma atenção ao Mapa de Ruídos da cidade, uma ação efetiva seria que a emissão de ruído ganhasse importância na licitação de ônibus (que está sendo contestada na justiça), responsável pelo que vai acontecer com os quase 15 mil ônibus da frota de São Paulo e dos outros tantos que vem de outras cidades. Melhor que isso seria intensificar os testes com silenciosos ônibus elétricos, como na China ou no Chile.

Bares no largo da Batata. Foto: M.Calliari

 

Barulho de bares – É ótimo que haja bares e que as pessoas queiram se encontrar nas ruas. A cidade precisa disso. Entretanto, a convivência entre os bares e moradores anda muito mal e a abertura de novos pólos, como a Rua Guaicuí, calma de dia e frenética à noite, exige um jeito mais eficiente de resolver problemas.

Homem varre a frente de uma loja na rua Guaicuí, em Pinheiros. De noite, a rua fica tomada pelos frequentadores de bares Foto: M.Calliari

Nós temos uma legislação sobre isso que bastaria cumprir. A lei do PSIU tem uma série de regras para shows, pancadões e bares. Numa zona mista, o barulho não pode exceder 45dB entre 22hs e 7hs. Além disso, os bares com mesas para fora precisam fechar até à uma da manhã. Entretanto, a maior parte das reclamações fica sem resposta e o número de multas aplicadas num ano é baixíssimo.

Barulho de moto  –  As motocicletas têm poder de reduzir a urbanidade na cidade. Motociclistas  buzinam para abrir caminho no trânsito e acordam um bebê no décimo andar de um prédio. Um escapamento aberto interrompe uma conversa entre dois amigos numa mesa na calçada por quase um minuto. Entregadores de aplicativos colocam pedestres em risco.

Não parece haver muita preocupação com isso, até porque São Paulo abriu mão da inspeção veicular, que poderia ser a chance de barrar motores barulhentos e poluidores. Sem controle, o sujeito que comprou um apartamento na beira de um corredor de ônibus vai ter que instalar janelas anti-ruído e aparelhos de ar condicionado, anulando o benefício ambiental que a cidade compacta teria, ao permitir que seus habitantes usem mais transporte público e façam mais coisas a pé.

Placa em restaurante no Baixo Pinheiros. Foto: M.Calliari

Como sempre, a resolução dos problemas parece depender de um poder público atuante, capaz de resolver conflitos com bom senso e fiscalizar com intensidade.  

  1. Cabe  à prefeitura intermediar a conversa entre moradores e comerciantes, sob pena de inviabilizar o princípio do uso misto, em que diversas funções urbanas podem acontecer simultaneamente, em benefício de todos.

O que está em jogo é justamente a urbanidade, o jogo cotidiano da convivência entre pessoas diferentes que resolveram morar num mesmo lugar.

 

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