Qual é o futuro das bancas de jornal?
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Qual é o futuro das bancas de jornal?

Mauro Calliari

17 de setembro de 2020 | 14h43

As bancas de jornal e revista fazem parte da paisagem urbana de São Paulo desde que a gente se lembra.

A primeira vez que eu saí de casa sozinho foi para comprar figurinha na banca da esquina. O João deu o troco direitinho e a expedição foi um sucesso. Lembro do prazer de voltar todas as terças-feiras para comprar a revista Placar e do fascínio de ver um lugar com tanta coisa para ler e ver. Até hoje leio jornal em papel, a esquina é outra, o jornaleiro é outro – o Auro, mas o prazer em ler pegar o jornal e ler durante o café da manhã é o mesmo.

As bancas têm esse caráter: são lugares ligados à escala local da cidade, ao bairro, à familiaridade, trazem a intimidade da vizinhança e as lembranças de nossos deslocamentos.

Sim, as bancas já foram pontos de cultura, de informação, de encontro e de notícias. Foram tão importantes que a cidade decidiu dar a elas o espaço mais nobre da cidade: as calçadas.

Quase nada pode ser feito nas calçadas da cidade, mas as bancas podem se instalar, desde que ocupem até 50% da área das calçadas e que sejam aprovadas e ganhem um documento chamado termo de permissão de uso. São concessões públicas, que usam um espaço público.

 

 

A perda de relevância dos produtos impressos

As bancas de jornal sofrem com a queda da importância de publicações impressas. Inicialmente, foram supermercados e padarias que passaram a vender revistas e aumentaram a concorrência. As próprias assinaturas também colocaram em risco a chamada ‘venda avulsa’ de publicações, mas o golpe mais contundente foi a migração da leitura de revistas e jornais impressos para o digital. Não há mais necessidade de ir até algum lugar para comprar alguma coisa.

O Brasil já teve centenas de jornais e as pessoas corriam para as bancas para saber as notícias. No Rio, na década de 1940 havia mais de três dezenas de jornais diários circulando todos os dias, às vezes com duas ou até três edições. De lá para cá, tudo mudou. A circulação de jornais impressos já vinha caindo, mas despencou quase 50% nos últimos cinco anos.

Em  São Paulo, durante a década de 1990, a Folha de São Paulo e o Estadão disputavam a liderança de vendas com mais de 500 mil exemplares por dia cada um, e atingindo picos de um milhão aos domingos. Hoje o número de exemplares impressos não chega a 100 mil, dos quais uma pequena parcela é vendida em bancas. A assinatura agora é digital, com até 90% de desconto sobre o preço de capa. A VEJA já teve mais de um milhão de exemplares semanais. Hoje, menos de 220 mil são impressos e apenas uma fração deste número vai parar nas bancas.

Diante dessa queda no consumo de produtos editoriais, as bancas estão sofrendo.

 

 

As bancas fecham

A estimativa do número de bancas em atividade varia muito. O sindicato dos vendedores de jornal e revistas de São Paulo estima o tamanho da queda: em dez anos, de 2006 a 2016, o número caiu pela metade, de 5 a 2,5 mil. Hoje, segundo a Prefeitura de São Paulo, existem exatamente 2.372 bancas em funcionamento, mas muitas dessas licenças de funcionamento às vezes se referem a pontos que nem estão abrindo. Jornaleiros que vendiam até 100 exemplares de jornal por dia, hoje entregam melancólicos cinco ou seis.

É uma queda brutal e vale perguntar: para que queremos que as bancas continuem funcionando na cidade?

 

Parte da paisagem urbana

Acho que a resposta está em dois aspectos das bancas: conveniência e paisagem urbana. Acostumamo-nos com os jornaleiros com as publicações, mas também com a segurança que as bancas ajudam a dar, principalmente à noite. Existem estudos que mostram que a sombra da área ocupada pela lata da banca quando está fechada pode ajudar a esconder pessoas e até a aumentar a insegurança, mas também há o lado oposto: o de oferecer um refúgio, principalmente à noite.

Ou seja, se alguma banca fechar, que retiremos as latas que ocupam pedaços importantes das calçadas, mas vale a pena perseverar para garantir que aquelas que investirem continuem e mantenham sua presença na cidade.

Mas o que elas vão oferecer?

 

Na prática, as bancas já resolveram isso. Elas vendem de tudo, basicamente, reguladas por uma lei de 1985 e complementada com dois decretos posteriores. Apesar de terem que dedicar um espaço mínimo de 75%  para produtos editoriais, os jornaleiros já começaram a mudar o mix de produtos vendidos faz anos:

 

 

Pilhas, cigarros, fósforos, carregadores, bebidas geladas, sorvetes, bolachas, brinquedos, cartões pré-pagos, papelaria e até água de coco. Ainda oferecem serviços inesperados como xerox, chaveiros, autenticações e uma gama incrível de coisas. Tem até a venda de jornal para cachorros, não para ler, para fazer xixi.

 

 

Algumas bancas foram além e viraram pontos diferenciados. São pequenas lojas, centros de serviço que conseguem, naqueles poucos metros, criar um ambiente interessante, diferente e que estava, antes da pandemia, atraindo segmentos interessados em mangá, ou café ou livros, como a banca Tatuí, em Santa Cecilia ou a banca Kurva, no centro, ou essa linda em Pinheiros – Café Livraria, que não sei o nome mas fotografei antes da quarentena.

 

 

 

Outras bancas se amalgamaram com a barraca de frutas, criando um ambiente agradável e seguro, como duas ou três na região do Pacaembú. E tem aquelas que estão em pontos tão bons que vão sobreviver de um jeito ou de outro.

 

 

Nesse ano, surgiu uma iniciativa do banco Santander que concede um crédito para que os jornaleiros reformem suas bancas e transformem em pontos de serviços, como ateliê de costura ou floricultura. A motivação do projeto parece ser, além de abrir novos setores de crédito, ganhar a possibilidade de publicidade, nas cidades em que a lei permite. Em São Paulo, a propaganda em bancas é discutida há anos, mas hoje, com a lei Cidade Limpa, apenas publicidade de produtos editoriais é permitida, dentro de pequenas áreas reguladas.

 

Vale a pena cuidar das bancas na cidade

 

Em resumo, temos uma atividade que sempre fez parte da vida da cidade, ocupando o lugar mais nobre da circulação nas ruas e que ainda teve um caráter social, ao privilegiar pessoas físicas e não jurídicas. Seu futuro está ligado à sua capacidade de se fortalecerem como lojas de conveniência e como ligação com a cidade, oferecendo mais que um abrigo para a chuva, um ponto de encontro para o dia e a chance de uma parada com o mínimo de segurança.

 

As bancas que conseguirem sobreviver a essas mudanças todas serão muito bem vindas. Torço para que elas achem modelos e recursos para se modernizarem e consigam achar diferenciais que garantam sua permanência, como pontos de encontro na vizinhança, integradas a uma pracinha ou largos, de preferência sem ocupar o precioso espaço da caminhada nas calçadas.

 

 

Aquela lata fechada e pichada não ajuda ninguém e nem é boa para a cidade e por isso vale a gente investir um pouco de energia na discussão de como ajudar os jornaleiros a manterem sua atividade e integrá-la à circulação das pessoas.

 

Em tempos de incerteza para o comércio de rua, seria bom a gente ter a garantia de contar com o João, o Auro e os outros donos de bancas que acordam cedo para vender alguma coisa que interessa a quem está passando pela rua.

 

Fotos: Mauro Calliari

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