Pesquisa mostra as dificuldades e os prazeres de andar a pé em São Paulo
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Pesquisa mostra as dificuldades e os prazeres de andar a pé em São Paulo

Mauro Calliari

01 de agosto de 2019 | 21h02

Pedestre em S.Paulo. Foto: M.Calliari

Andar a pé é o maior modo de deslocamento em São Paulo. Mas o que pensa o pedestre? É possível ter prazer enquanto se desloca a pé pela cidade?

Para explorar essas questões, o autor deste blog defendeu a tese de doutorado “O pedestre e a cidade: mobilidade e fruição em São Paulo” na FAU-USP, que deve estar publicada na biblioteca digital de teses da USP em setembro.

Um dos pontos mais importantes da tese foi a pesquisa qualitativa com pedestres. Conduzida em agosto do ano passado pelo  engenheiro e pesquisador José Roberto Labinas Oliveira, a técnica de discussões em grupo reuniu pessoas que andam a pé — homens e mulheres, de bairros centrais e da periferia.

Pedestres apertados na avenida Paulista. Foto: M.Calliari

As principais conclusões mostram que andar a pé em São Paulo é, talvez previsivelmente, uma experiência difícil – faltam calçadas, faixas, árvores, iluminação e educação no trânsito.

Os pedestres que andam em bairros periféricos relatam problemas ainda mais graves:

“Na periferia é tudo muito difícil, não tem faixa, não tem farol, não tem respeito, é diferente do centro”.– Mulher moradora de bairro da periferia

Calçada no Jardim Damasceno, zona norte de São Paulo. Foto: M.Calliari

Apesar de a segurança ser uma questão que surja em todos os grupos, são as mulheres que relatam maior vulnerabilidade, seja andando, seja quando estão paradas em pontos de ônibus.

“Eu estava subindo uma rua outro dia e veio um cara com uma moto, eu fiquei com muito medo, eu mal conseguia respirar, no fim era só um entregador de pizza que parou em um prédio”.
– Mulher moradora de bairro central

Mas, dadas algumas condições mínimas de segurança e infraestrutura, os entrevistados relatam que andar a pé pode ser uma experiência muito prazerosa:

“Eu me sinto na vantagem, o trânsito para e você passa rindo deles”. – Homem morador de bairro central

“Eu não tenho o hábito de fazer atividade física então foi uma forma de movimentar, a caminhada virou uma rotina”. – Mulher moradora de bairro da periferia

Pedestre e lojista. Foto: M.Calliari

Andar a pé também oferece a possibilidade de conhecer melhor a cidade:

“Eu adoro ver lojas, de carro a gente não vê nada, andando a gente vai vendo coisas, detalhes, se distraindo.” – Mulher moradora de bairro central

Finalmente, andar a pé também desperta sensações poderosas de estar sozinho e entrar em contato consigo mesmo:

As melhores reflexões da minha vida, eu tirei caminhando..– Homem morador de bairro central

O acesso a pé aos serviços da cidade. Foto: M.Calliari

A riquíssima narrativa dos pedestres sobre suas experiências permite pensar em como a cidade poderia melhorar se as políticas públicas enfrentassem os problemas a partir deste ponto de vista — de quem anda a pé. Afinal, acessar a cidade a pé é, em última instância, uma condição para a cidadania.

Com investimento em infraestrutura, mais segurança e o cumprimento da legislação, andar a pé poderia ser uma experiência ainda mais estimulante e prazerosa. 

 

 

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