O abraço na piscina do Pacaembu
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O abraço na piscina do Pacaembu

Mauro Calliari

19 de dezembro de 2019 | 20h00

No último dia de novembro, a piscina do Pacaembu foi objeto de uma bonita e insólita homenagem. Várias pessoas vestidas de sunga e maiô se reuniram, deram-se as mãos e abraçaram a piscina.

São nadadores que usam a piscina regularmente, e que protestam contra a falta de definições sobre o seu uso a partir da concessão do complexo do Pacaembu à iniciativa privada.

188 piscinas públicas em São Paulo

O ato me fez pensar nas piscinas públicas da cidade. Será que São Paulo oferece algo para quem quer enfrentar o calor numa piscina? Perguntei à Prefeitura e descobri que São Paulo tem muito mais locais com piscinas públicas do que eu imaginava – são 188, espalhadas em 73 locais.

Há dois tipos de piscinas. De um lado, 50 piscinas espalhadas em 27 Centros Esportivos, administradas pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (SEME). http://www.capital.sp.gov.br/noticia/ferias-na-piscina

De outro, há os 46 Centros Educacionais Unificados (CEUs), que possuem 3 piscinas cada, abertas ao público, administrados pela Secretaria Municipal de Educação (SME). Para utilização da piscina do CEU é necessário apenas fazer uma carteirinha, levando 1 foto 3×4, comprovante de residência e um documento pessoal atualizado.

São Paulo é gigante e esse número não dá para cobrir a cidade inteira, mas parece algo auspicioso que um número razoável de pessoas possa socializar e nadar à beira de uma piscina pública. Como os CEU´s estão localizados em áreas de grande densidade, a maior parte deles em periferias, as piscinas – e as quadras, o cinema, o teatro – amenizam uma carência geral de equipamentos e de lazer.

No Pacaembu

A piscina do Pacaembu  faz parte do complexo que está sendo concessionado à iniciativa privada. O Consórcio Allegra vai pagar 115 milhões de reais à Prefeitura e arcar com investimentos na área, beneficiando-se das receitas. O complexo vai muito além do estádio, que e possivelmente um dos mais bonitos do mundo:

São mais de 26 mil metros quadrados com ginásio poliesportivo coberto, ginásio de saibro coberto para tênis, quadra externa para futsal e vôlei, três pistas de Cooper e duas salas de ginástica. E uma piscina olímpica de alto padrão, que é o objeto do protesto.

 

Danyela Silva, que organizou o abraço à piscina, junto com Marilia Ohta, conta que não é contra a concessão. Ela mesma lembra que piscinas públicas existem com cobrança em vários países da Europa e Canadá. Nelas, a pessoa se cadastra, paga uma taxa (dois euros aproximadamente) e entra na água. O que elas queriam demonstrar era a incerteza com os termos da concessão do Pacaembu à iniciativa privada.

De fato, com a concessão, a rotina de treinos dos 200 nadadores que utilizam a piscina todo dia vai mudar bastante (ainda há uns 500 que vão aos finais de semana). Hoje, a piscina fica aberta 6 vezes por semana, entre 8 e 17hs. Com a concessão, vai passar a ficar aberta apenas 5 horas por semana, sendo que os termos do edital não são claros sobre como será feito o acesso.

A grande e as pequenas questões da concessão

O Pacaembu já foi discutido sob vários ângulos, a operação foi aprovada, está em curso e não vale a pena discutir a concessão como instrumento aqui. Concessões de equipamentos públicos são feitas para melhorar os serviços ou para garantir algo que o Estado não consegue fazer, dentro de parâmetros estabelecidos pelos editais a partir de discussões com a população.

O que  talvez valha a pena discutir é a importância de uma comunicação adequada e o estabelecimento de parâmetros de uso. Que os usuários de um serviço qualquer – passageiros de uma linha de ônibus que mudou o itinerário, moradores de uma rua que vai passar por um serviço de recapeamento, nadadores da piscina ou ainda os moradores do entorno do complexo Pacaembu quanto a shows no novo estádio concessionado – sejam avisados, é o mínimo que se espera.

São essas pequenas interações que fazem as coisas funcionarem e que garantiriam o apoio e não a desconfiança a concessões que estão sendo planejadas. Quantos shows poderão ser feitos por ano no Pacaembu, como será o acesso ao Museu do Futebol, de onde virão as receitas com os equipamentos esportivos? Tudo isso teve que ser discutido minuciosamente antes do edital. Daí a razão para que “processos participativos” sejam complexos, mas fundamentais para que o poder público entenda quais os limites e as obrigações dos concessionários.

Nesse caso, estamos falando em pequenos gestos (manter equipamentos abertos) para um número razoavelmente pequeno de pessoas, mas que ligam parte significativa e afetiva de seu cotidiano aos espaços públicos.

É o caso de pensarmos na concessão dos parques e de outros equipamentos públicos que estão sendo planejadas ou em andamento agora e quantos abraços serão necessários para garantir que os usuários ganhem e não percam com as mudanças.  Assim como o Ibirapuera e o  Anhembi, o Pacaembu é parte da memória afetiva da cidade e seu funcionamento merece ser acompanhado de perto, pela Secretaria de Gestão e por conselhos de usuários e moradores do entorno, como espaço público, mesmo sob concessão privada.

 

Fotos: divulgação

 

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