Nunca conhecerei Luzia
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Nunca conhecerei Luzia

Mauro Calliari

05 Setembro 2018 | 11h53

Luzia, 12 mil anos

Nunca entrei no Museu Nacional.

Quando criança ia visitar os avós no Rio e só me interessavam a praia da Urca, o bondinho, o Pão de Açucar e o Corcovado. Mais velho e depois de muitos anos e dezenas de viagens ao Rio, meus interesses se expandiram.

Passeei pela Floresta da Tijuca, dancei na Lapa, fui assaltado junto com amigos no bonde em Santa Teresa e vi o ano nascer na praia de Copacabana.

Caminhei pela Orla Conde, visitei o Gabinete Português de Leitura e os museus MAR e o MAM, mas fiquei com preguiça de encarar uma hora e meia de fila para entrar no Amanhã.

Vi ópera no Teatro Municipal, Miguel Falabella e Guilherme Karam no teatro da Gávea. Escrevi uma artigo sobre a praça Mauá e fiz reunião com clientes em Botafogo.

Vi a seleção brasileira no Maracanã décadas antes da reforma, peguei o VLT, conheci Jacarepaguá e Seropédica, fiz entrevistas para um instituto de pesquisas no Meyer.

Conheci o cais do Valongo e o Edifício Capanema com o bravo pessoal do IRPH. Comprei guarda-chuva na rua da Carioca. Levado por tios queridos,  tomei cerveja no bar Urca e comprei livros na Travesssa.

Andei pela rua do Ouvidor pensando em Machado de Assis, pelo Passeio Público pensando em Rubem Fonseca e pela Cinelândia pensando em Nelson Rodrigues.

Mas nunca pensei em ir ao Museu Nacional.

Não sei como isso aconteceu, mas de repente dou-me conta do tamanho da lacuna que nunca será preenchida e da visita que eu devia ter feito e que nunca fiz.

Teria gostado de conhecer o esqueleto de Luzia, a mulher que provava que a espécie humana andou por aqui há 12 mil anos.

Não sabia que o Bendegó, o meteorito de cinco toneladas também estivesse exposto lá. Li que ele sobreviveu ao fogo, mas isso eu já imaginava, não por saber qualquer coisa sobre os meteoros, mas por achar que qualquer coisa que viajou milhões de quilômetros pelo espaço e se chocou contra o solo do que viria ser a Bahia numa velocidade espantosa, sem se espatifar, provavelmente, deveria mesmo sobreviver.

Li com assombro que havia outros  20 milhões de itens no Museu. Coisas que poucos visitantes eram capazes de ver, porque só 1% ficava exposto, os outros 99% à disposição apenas dos pesquisadores. Vejo nas redes sociais uma enormidade de gente que andou por lá fazendo pesquisas, historiadores, arqueólogos e arquitetos, todos inconformados com a perda de seus objetos de estudo.

Patrimônio e identidade

Entrei há poucos anos num grupo de estudos sobre o Patrimônio Histórico no Mackenzie, dirigido pela professora Nadia Somekh. Aprendi com ela que cuidar do patrimônio nos permite entender nossa própria identidade.

Essa é uma associação muito interessante. Se cuidar do patrimônio nos ajuda a entender nossa própria identidade, talvez descuidar do patrimônio seja uma das maneiras como nossa identidade se revela. Será que há algo no incêndio anunciado que seja parte da nossa identidade? E, mais ainda, será que a nossa reação à tragédia não revele ainda mais sobre ela?

Após a tragédia, há os que buscam culpados freneticamente, cada um com seu ponto de vista.

Somando tudo o que já li e recebi, entendo que os culpados podem estar entre o presidente, a ex-presidenta, todos os presidentes que nunca visitaram o museu, a prefeitura falida, o estado falido, a falta de gestão da universidade federal, os conselheiros que não quiseram mudar a governança em troca de uma verba privada, o ministro que nem chegou e já vai sair, o descaso pela cultura, o descaso pela educação, a sociedade como um todo.

Alguns poucos lembram de coisas mais práticas que deveriam ter sido feitas como controles, procedimentos, seguro, sprinklers e até verificar periodicamente se os hidrantes têm água. Muitos levantam matérias que saíram anos atrás, anunciando os problemas que acabaram acontecendo.

Talvez nossa identidade se revele mesmo na tragédia. Buscaremos culpados até que novos incêndios ocorram ou mudaremos procedimentos, reveremos prioridades? Ou será que há algo mais onde nos apoiar, talvez na história das pessoas que viveram o museu?

A tristeza do chefe dos bombeiros

Em meio a tudo isso, lembro do chefe dos bombeiros que apareceu numa entrevista ao vivo na noite do incêndio. Antes de responder à pergunta sobre os procedimentos de combate às chamas, ele fez questão de dizer que estava triste e de lembrar que havia sido levado ao Museu Nacional pelos pais. Quando adulto, fizera o mesmo com seus filhos.

Talvez essa seja a pista para mudarmos qualquer coisa: reconhecer a genuína comoção pessoal de quem experimentou o prazer de compartilhar conhecimento  e memória entre gerações, num fio de identidade que vai subindo, subindo, até chegar nas instituições nacionais, nos orçamentos, nas divisões de verba e até nos procedimentos dos próprios bombeiros.

Fico menos triste em saber que o chefe de bombeiros, seus pais e seus filhos, tenham podido conhecer a Luzia, os vasos indígenas, o fóssil do bicho-preguiça, as múmias.

Espero um dia visitar a pedra Bendegó

A pedra Bendegó sendo transportada

Quem sabe, ela esteja exposta num lugar bem cuidado, seguro e bonito? Quem sabe os filhos do chefe dos bombeiros também estejam levando seus familiares para brincar perto da pedra, em meio a milhares de visitantes, pesquisadores e estrangeiros?

Quem sabe todos nós reconheceremos ter algo em comum a partir da lembrança de um esqueleto que não existe mais e de uma pedra que viajou milhões de quilômetros pelo espaço e escolheu cair justamente em território brasileiro?