Nova York, a cidade mais retratada do mundo ganha dois pontos de vista tão distintos quanto suas autoras: Fran Lebowitz e Radha Blank, no Netflix
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Nova York, a cidade mais retratada do mundo ganha dois pontos de vista tão distintos quanto suas autoras: Fran Lebowitz e Radha Blank, no Netflix

Mauro Calliari

15 de fevereiro de 2021 | 11h36

Fran Lebowitz em “Pretend it´s a city”. Divulgação

 

Não é só na pandemia. Cidades mudam todo o tempo e Nova York mais que todas. A Ilha de Manhattan já foi uma floresta vendida aos holandeses pela tribo  dos Lenapes, cresceu sob os ingleses, atraiu todo tipo de imigrantes após a independência e durante os séculos XIX e XX e produziu mais riqueza e cultura do que qualquer cidade do mundo.

 

Sofreu baques com a violência do final dos anos 70, a queda das torres gêmeas, assistiu à gentrificação e mudança da característica dos bairros nos anos 2000, e a uma nova visão de cidade. Nesse último século inteiro, porém, ela nunca deixou de ser uma meca para as pessoas que produzem, consomem e vivem cultura.  Para lá acorrem os turistas em busca do último musical, os artistas em busca de fama, e os famosos em busca de inspiração.

 

Os filmes sobre a (e na) cidade são tantos que é difícil pensar em algum que possa ser sua tradução. A ingenuidade e a confiança dos anos pós-guerra de “Os marujos do amor” (1949), o romantismo de “Harry e Sally” (1989), o sonhos dos excluídos em “Os embalos de sábado à noite” (1977), a violência de “Gangues de Nova York” e “Taxi Driver” (1976), a mistura de artistas em seus lofts no Soho de “After hours” (1985), a violência racial do Brooklyn em “Faça a coisa certa” (1989), o mundo do dinheiro em “Wall Street” (1987), os conflitos internos dos artistas em “Birdman” (2014) ou “All that jazz” (1979). Entretanto, é difícil imaginar qualquer coisa que tenha mais cara de Nova York do que os personagens de Woody Allen em “Manhattan” (1979) ou “Annie Hall” (1977) discutindo filosofia, a existência de deus, arte e fofoca que ninguém entende enquanto esperam para entrar num cinema ou olham para os lançamentos numa livraria. Talvez seja uma lista com muitos filmes antigos, mas ela reflete mais a visão do colunista do que a cidade em si, que nunca parou de ser vista e revista sob novos olhares.

 

Duas produções recentes da Netflix permitem constatar tanto a diferença de pontos de vista como as transformações de Nova York. Em “Pretend it´s a city”, Martin Scorsese apresenta o olhar especialíssimo de Fran Lebowitz. Lebowitz é uma jornalista e escritora, que ficou famosa justamente pelas opiniões ácidas, irônicas e engraçadas sobre tudo, mas especialmente sobre a cidade onde vive desde a década de 1970. Nas ótimas cenas antes da pandemia, ela aparece vagueando pela cidade que a acolheu, disparando opiniões sobre todos os assuntos. Ela fala do metrô, da aglomeração de pessoas nas ruas, da gentrificação, da cena do jazz, teatros e suas memórias desde a formação judaica – “eu não vim a Nova York porque era segura e limpa. Eu vim para cá porque era diferente da minha cidade e porque era legal!”.

 

De certa forma, seu mundo parece o mundo de Woody Allen mas os jovens de hoje ainda pagam para ouvir esse amálgama de erudição, memórias e raiva em entrevistas com platéia. Ao intercalar seus monólogos com as cenas de antes da pandemia, nas ruas, o documentário ganha um frescor: a mulher que tem dinheiro para comprar um apartamento de um quarto no valor de US$ 3.1 milhões, aparece andando pelas calçadas, cruzando ciclovias e tomando encontrões de estranhos no metrô, sem deixar de se interessar nunca pelos tipos exóticos, como as mulheres de uma academia que passam por ela enquanto puxam pneus para se exercitarem. Essa é a força do documentário e essa é a força da cidade: atrair gente para andar pelas ruas.

Rhada Blank em “My forty year old version”. Divulgação

 

É aqui que vale a pena pensar em outro filme da Netflix, “My forty year old version”, também lançado há pouco. Como no mundo de Lebowitz, Radha Blank, (que escreveu, dirigiu e fez o papel de si mesma) também é uma intelectual, ela escreve peças, ensina adolescentes entediados e vive às voltas com as possíveis produções teatrais, que nem sempre acontecem.

 

Só que ela é negra. Sua Manhattan acontece na mesma ilha, mas quase num outro mundo. No Harlem.

 

O contraste entre os dois mundos não é só pela cor da pele. A atitude parece ser  radicalmente diferente. Lebowitz  observa e critica. Radha observa. Mas parece aceitar as imperfeições da cidade. Não lhe cabe perder tempo criticando alguém num metrô, ou o sistema de transportes, ou a sujeira. Há um homem que mora na rua, bem em frente à sua janela e ela parece resignada a interagir diariamente com o sujeito, que se mete até na sua vida sexual.  Sua batalha é pessoal, pela sobrevivência, pela integridade como artista. Ela segue em frente.

 

Os dois mundos têm uma intersecção: a arte. É através da arte que excluídos se expressam, seja através do rap (quando ela assume a identidade hilária da rapper quarentona RadhaMUS Prime), ou através do teatro. E aí, vê-se a importância da indústria novaiorquina da arte que engloba artistas, galerias, teatros, diretores, atores, e toda a estrutura montada para acomodar essa malta, que consome livros, come em diners ou restaurantes sofisticados, termina as noites em bares de jazz ou batalha de rap.

 

A arte atrai as crianças pobres e também os intelectuais ricos, até porque a arte parece em seu filme, ser mais democrática do que o mundo das ruas. Seu agente é oriental, o produtor do teatro é branco, seu mentor de rap é negro.  Alguns ganharão assento bem localizado na noite de estréia. Outros estarão nas cadeiras mais baratas de um teatro off Broadway. Mas a arte parece redimir a todos. Radha dá voz a uma nova Nova York, mais diversa, mais humana, mais sofrida, menos glamurosa. Lebowitz trafega pelo mundo da intelectualidade que se orgulha de ser democrática, diversa e glamurosa. Mas para poucos.

 

Talvez seja possível ver o fim de um ciclo. Se a Nova York do consumo, do dinheiro, das reservas em lugares impossíveis, e dos encontros exclusivos ainda vai existir, talvez a pujança nas ruas seja diminuída e com ela, um pouco do charme indefinível que nos fazia imaginar que Woody Allen ou David Byrne ou Leonardo di Caprio pudessem aparecer na próxima esquina. Mas Allen fez 85 anos e Lebowitz já não parece se reconhecer nessa nova cidade, das ciclovias, das pessoas sem modos, sem a finesse para o consumo mas principalmente sem cultura.

 

O que virá depois talvez tenha mais a ver com o mundo de Radha, uma sobra da riqueza de outros tempos, mas com outros atores, sem livros mas com letras de rap, sem o brilho dos musicais mas com gente tocando na rua, menos grifes e mais pessoas comuns.

 

A rua, porém, talvez continue a ser protagonista. Afinal, o que ambos os filmes nos trazem é um olhar sobre essa potência de Nova York, naquilo que de fato é o ímã daquela cidade tão especial: as pessoas, as ruas, a vida que pulsa entre os restaurantes, lojas, cinemas.

 

Talvez no futuro, os cineastas do mundo inteiro se encantem com outros lugares e os turistas queiram passar suas férias em outra cidade para fazer compras e encontrar essa energia vital. Porém, seja Londres, Paris, Lisboa, Shangai, Toquio ou Buenos Aires é difícil imaginar que qualquer lugar no mundo vá concentrar tamanha energia, dinheiro e criatividade como ali

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.