Na terra dos bares, a importância de duas novas livrarias de rua
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Na terra dos bares, a importância de duas novas livrarias de rua

Mauro Calliari

12 de setembro de 2019 | 14h31

Livraria da Travessa, em Pinheiros. Foto: Mauro Calliari

 

Reportagem da Folha de São Paulo da semana passada registra que foram lançados espantosos 56 novos empreendimentos de comida e bebida na região de Pinheiros, apenas em 2019.

 

De fato, basta andar pelas ruas Pinheiros e Guaicuí, ou pelo Largo da Batata para constatar como esses novos lugares estão transformando o bairro. São multidões em busca de bebida, comida, amigos, música.

 

Diante disso, é surpreendente que algum empresário pense em abrir livrarias.

 

Pois no mês de agosto, foram inauguradas duas delas: a da Travessa veio do Rio de Janeiro e se instalou na rua Pinheiros e a Mandarina abriu  as portas na rua Ferreira de Araújo. Elas se juntam a outras (contei 27 livrarias no Google Maps, que inclui todo e qualquer lugar que vende livros) que sobrevivem no bairro como a fantástica livraria da Vila, os vários sebos e lugares especiais como o inesperado Desculpe a poeira, instalado numa casinha entre predinhos residenciais.

 

Livrarias são bons vizinhos

 

As livrarias de rua fazem bem à cidade: elas geram emprego, atraem pessoas de outros lugares e contribuem para a urbanidade da rua. Imagino que nenhum vizinho vá reclamar de ter uma livraria perto de casa. Elas não fazem barulho e vendem um produto que serve para nos tornar pessoas melhores. As duas livrarias recém-chegadas também são muito simpáticas.

 

Livraria Mandarina. Foto: Mauro Calliari

A Mandarina atrai os passantes da rua pela singeleza e pela atmosfera calma da casinha com cara de interior.

Livraria da Travessa. Foto: Mauro Calliari

A Livraria da Travessa construiu um lugar muito agradável, bem menor do que sua congênere de Ipanema, mas com aquele tipo de arquitetura generosa, voltada para a rua, aberta e sem paredes, um verdadeiro ponto de encontro.

 

Livrarias e bares. Amigos ou inimigos?

 

Bares e livrarias parecem ser opostos em tudo. No bar, grita-se para ser ouvido. Na livraria, os livros parecem sussurrar. No bar, abraçamos desconhecidos. Na livraria, cumprimentamos com cumplicidade discreta um conhecido. No bar, barulho e extroversão. Na livraria, silêncio e introversão.

 

Existem exceções, mas são poucas. A mercearia São Pedro, na Vila Madalena, por exemplo, sempre foi um lugar que conseguia juntar livros e bebida, com sucesso, barulho e inspiração, tudo junto. Em outras livrarias, o pessoal se reúne em torno dos cafés.

 

Quem sabe um dia, entraremos num bar na rua Pinheiros e veremos um grupo  discutindo aos berros a passagem do tempo na obra de Thomas Mann, uma moça citando Maria Carolina de Jesus numa conversa com o namorado e Rubem Braga sendo reverenciado com um silêncio respeitoso antes do primeiro gole de uma boa cachaça?

 

Seja como for, espero que as novas livrarias prosperem tanto quanto os bares e restaurantes da região. Sejam bem-vindas.

 

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