No ano em que as cores foram símbolos de guerra, vestir uma roupa branca no Réveillon foi um ato de urbanidade
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No ano em que as cores foram símbolos de guerra, vestir uma roupa branca no Réveillon foi um ato de urbanidade

Mauro Calliari

02 de janeiro de 2019 | 20h29

 

Réveillon na Paulista – Ano Novo em São Paulo. Imagem: Divulgação. Fan Page Oficial.

De um momento para outro, já não se pode mais sair de casa sem pensar na cor que você está vestindo, tais são as paixões suscitadas pelo vermelho, amarelo, verde, azul, preto, rosa. Cada cor virou um uniforme, um símbolo da própria verdade que exclui todas as outras verdades, numa inversão do que é a boa e necessária negociação política. Em comícios, protestos, manifestações, cada cor parece ter um dono, assim como já acontecia com os times de futebol.

Felizmente, sobrou a cor branca. É de branco que se vestiu a multidão que tomou as ruas de São Paulo no Réveillon. Ninguém combina com ninguém. As pessoas simplesmente escolhem uma peça branca e saem por aí no Ano-novo. Essa linda tradição de paz foi particularmente bem-vinda neste ano, em que as cores parecem ter sido sequestradas para fins eleitorais. Na virada do ano, minha mulher e eu andamos a pé durante horas, para encontrar amigos em lugares diferentes e divertimo-nos na cidade cheia, colorida e pacífica.

Nas ruas calmas da Pompéia, vimos grupos sentados ao redor de mesas nos jardins, ouvindo música ou tirando selfies, invariavelmente de branco. Na praça da Nascente, encontramos um pequeno grupo ao redor de uma fogueira. A música calma e a conversa em voz baixa só foram interrompidas pelo barulho dos rojões de três adolescentes, também vestidos de branco. Logo após a meia noite, acabou o estoque dos fogos e, sem conflito nenhum, o silêncio voltou.

Na Paulista, é hora de se misturar à multidão, que anda sem pressa após saudar a chegada de 2019. Estar imerso na multidão, é uma sensação complexa. Estamos cercados de pessoas que não conhecemos, mas com quem compartilhamos algo em comum, pelo menos o fato de ter escolhido estar naquele lugar, naquela hora, com aquele propósito e até – por que não? – com aquela roupa branca.

Praça Roosevelt no ano-novo. Foto: M.Calliari

A massa se dispersa. Muitos descem a Consolação e nós vamos junto, até a Praça Roosevelt, que vai enchendo aos poucos. A fauna habitual da praça está toda lá – namorados, grupos de amigos, skatistas, quase todos muito jovens, vestidos com todas as cores possíveis, ampliando o código de paz e a a paleta de cores que parece vigorar nesta noite.

Muitas pessoas estão sozinhas, numa demonstração de que a vida real é diferente das propagandas das operadoras e das cervejarias onde todos sorriem, bronzeados, entre amigos, com o mar e os fogos ao fundo.

Terminamos a noite cansados de tanto andar, mas felizes de ter passeado pela cidade numa noite especial.

Vimos e abraçamos amigos, mas também encontramos desconhecidos. Passamos por um homem agressivo numa rua deserta, mas também cumprimentamos efusivamente algumas pessoas que nunca vimos antes e que provavelmente nunca mais veremos. Entramos no meio da multidão, mas também aproveitamos o silencio das ruas vazias.

Pessoalmente, não acredito que o dia de Ano-novo traga qualquer prenúncio do que virá depois. A vida se mostra mesmo é no dia-a-dia, em que tentamos dar significado às nossas ações, combatendo a nostalgia individual, o conflito coletivo e sorvendo a felicidade efêmera.

Mas caminhar em meio a pessoas diferentes em clima de paz não deixa de ser uma pequena utopia do que uma cidade poderia ser – essa mistura poderosa de pessoas que tocam suas vidas, mas que são capazes de conviver civilizada e prazerosamente em grupo.