Na crise da mobilidade urbana, andar a pé pode ajudar a resgatar a escala local e o sentido do lugar
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Na crise da mobilidade urbana, andar a pé pode ajudar a resgatar a escala local e o sentido do lugar

Mauro Calliari

31 Maio 2018 | 17h19

Calçada no bairro da Liberdade. Foto: Mauro Calliari

A crise deve passar. Mas vai deixar algumas reflexões sobre o modo de vida – e de deslocamentos – que escolhemos.

A compressão do tempo-espaço

Vivemos no período que se convencionou chamar de pós-modernidade. Nele, o tempo foi comprimido, até se tornar quase irrelevante. A velocidade da transmissão dos dados permite que possamos assistir ao vivo um casamento na Inglaterra ou um jogo na Russia, mas também permite que um investidor em Dubai retire seu dinheiro da Petrobrás e invista em letras do tesouro norteamericano no exato segundo em que o algoritmo detecta uma potencial perda nos seus ativos.

O efeito da compressão na configuração do espaço é mais complexo, a noção é que ele deixa de ser importante, pois tudo pode ser feito em qualquer lugar, já que tanto o custo como o tempo de distribuição são tão baixos que não fazem diferença. Uma fábrica de auto-peças em São Bernardo do Campo deixa de funcionar porque uma fábrica de auto-peças em Shenzen produz parafusos mais baratos, parafusos esses que serão entregues numa montadora que fica em … São Bernardo do Campo.

Na cidade, a hipermobilidade perde sentido

Da mesma maneira, nas cidades, acreditamos que é possível morar num lugar, trabalhar em outro, ir ao cabeleireiro em outro e viajar para passar o fim de semana numa praia deserta. A questão é que o se mito da hipermobilidade  já começa a não fazer sentido na lógica global da distribuição de mercadorias, dentro das cidades, ele passa a ser um paradigma bem pouco lógico para nossa vida cotidiana.

Quando uma pessoa sai de Mogi das Cruzes para trabalhar em Alphaville de carro, não parece haver nada de errado. O problema acontece quando milhões de pessoas fazem isso ao mesmo tempo. São milhões de deslocamentos diários, de  pessoas que precisam trabalhar, estudar, namorar, ir ao médico, a um show de rap ou comprar um maço de rabanetes.

Em São Paulo, um terço dos deslocamentos é feito de carro. Se parte das pessoas que andam em transporte público começarem a usar o carro também, a cidade vai parar mais ainda.

Se, por outro lado, como aconteceu durante a crise, parte dos que usam o carro migrarem para outros modos, vai melhorar a situação de todo o sistema.

Mas será que dá para deixar de usar o carro em algumas circunstâncias?

Não é todo mundo, nem toda hora, mas em muitos casos, a troca do carro por outro meio é muito fácil:

Calçada no bairro da Pompéia. Foto: Mauro Calliari

Trocar o carro por andar a pé nos percursos até 2,5 km

Existe uma grande parte das viagens de carro que poderiam ser facilmente trocadas por uma caminhada. Um estudo mostra que 42% de todos os deslocamentos de carro são para destinos que ficam a menos de 2,5 km.

Vale a pena parar e pensar nesse número.

2,5 km não é muito, mesmo para quem não está muito acostumado a caminhar. Uma pessoa consegue andar essa distância em meia-hora, talvez  um pouquinho mais, se tiver uma ou outra ladeira. É um exercício razoável e ainda aproveita o percurso para explorar a cidade e desligar um pouco do mundo digital.

Claro que é muito confortável entrar num carro, ir até a padaria ou a farmácia e voltar até em casa em minutos. Mas, com ou sem combustível, existem maneiras ótimas de cobrir a mesma distância num tempo um pouquinho maior e em condições muito prazerosas.

Ciclovia da Faria Lima lotada durante a crise de transportes. Foto: Bike Zona Oeste

Trocar o carro por bicicleta em percursos de até 7,5 km.

Com a bicicleta, o raio de distância de deslocamento se multiplica por dois ou três em relação ao pé . Em termos de velocidade média, a bicicleta se equipara, em horários de pico, ao carro ou ônibus. Claro que não é todo mundo que consegue andar ou tem vontade de enfrentar o trânsito, mas, como vimos na crise, as ciclovias  estão ajudando pessoas a tomar essa decisão.

A troca pela bicicleta ainda ajuda a chegar mais “ligado”. Um estudo americano mostra que alunos que vão a pé ou de bicicleta para a escola demoram menos tempo para se conectar nas atividades da classe. E ainda gera um benefício tremendo, com a redução da poluição, como aconteceu durante a crise em São Paulo. Veja notícia sobre queda de poluentes na crise. 

Trocar o carro por transporte público nos percursos longos

Sim, o ônibus às vezes vem lotado, às vezes demora, às vezes o motorista acelera ou freia bruscamente. Mas funciona e nunca fica muito longe de casa.

Se você quiser andar apenas em transporte de alta capacidade, com horários mais confiáveis, intervalos menores e confiabilidade, é possível que você seja um dos 25% que moram a menos de 500 metros de um corredor de ônibus, ou a menos de 1 km de uma estação de metrô ou trem;.

Um estudo apresentado por Toni Lindau, diretor do WRI no Summit de Mobilidade do Estadão, mostra que em São Paulo esse número ainda é muito menor que outras metrópoles.

Percentual de habitantes que mora até 1 km de estação de metrô e trem ou até 500m de um corredor de ônibus (PNT):

  • São Paulo – 25%
  • Rio de Janeiro – 47%
  • Cidade do México – 48%
  • Nova York – 77%
  • Paris – 100%

O interessante é que dá para aumentar muito esse número em São Paulo, apenas seguindo os planos já existentes da EMTU e o PlanMob. Com mais corredores de ônibus e as linhas de metrô, previstas, até 70% das pessoas passariam a morar muito perto de estações, ajudando na decisão de trocar de transporte.

Sem o carro, a pessoa economiza em combustível, manutenção e estacionamento.

A escala local. O que você consegue fazer a pé num raio de 2,5 quilômetros a partir da sua casa? 

Dá para acessar um bairro inteiro a pé. Visitar amigos, trabalhar, fazer compras. O que é novidade para alguns, é a norma para a maioria.

Um terço dos paulistanos já fazem isso e se deslocam a pé para fazer suas coisas todos os dias. Outro terço anda para chegar até o transporte público. Por isso, o que parecia estranho para muitos durante a crise é que a maioria das pessoas não teve sequer que mudar suas rotinas para tocar sua vida. Continuaram andando até o transporte ou diretamente até seus destinos.

Todo mundo pode fazer isso? Claro que não. A cidade é uma soma de destinos, atividades, ritmos. Deslocamentos fora da rotina normalmente exigem outra logística. Quando chove, pessoas mudam suas preferências e talvez peçam um carro pelo aplicativo.

Cadeirante na ciclovia da Av. Frederico Hermann Jr. Foto: Mauro Calliari

Cadeirantes terão algumas necessidades especiais, mas certamente apreciariam ganhar condições de passear pelas redondezas e pegar um transporte público adaptado.

Mas, não há razão para ninguém deixar de caminhar para deslocamentos curtos e rotineiros. E ir aumentando as distâncias com o tempo.

O sentido do lugar. 

A cidade – densa, errática, cheia de gente diferente – é, queiramos ou não,  cada vez mais o palco de nossas vidas. É aqui que vamos viver, então é melhor garantir um sentido para esse palco.

Como retomar a noção de pertencimento a um bairro, a uma região? Talvez não seja tão difícil.

A primeira maneira é caminhar. Caminhar é uma maneira de “tomar posse” do bairro. Quem anda, vê coisas que não vê de carro, ou mesmo de ônibus, encontra pessoas, passa mais tempo na rua, e começa a se interessar por resolver problemas – calçadas, travessias – e até tomar conta de uma praça.

Há bairros onde isso vai muito além. Há quem faça festas juninas na praça pública. Há quem ainda pinte a rua e enfeite para a copa. Há música em bares. Há futebol em escolas. Há de haver uma praça, um larguinho sem carros. Tudo isso dá para fazer a pé.

 

Outra maneira é optar por comprar coisas no comércio local. Aqui pertinho da minha casa tem uma papelaria. Ela é mais cara que as grandes redes e menos conveniente do que comprar através de uma loja online. Mesmo assim, prefiro comprar o toner, o papel sulfite, um caderno, ali. Demora uns minutos caminhando, mas eu converso com a dona do lugar e depois tomo um café na volta.

Comerciante limpando a calçada da rua Guaicuí. Foto: Mauro Calliari

Os lojistas são defensores clássicos da urbanidade no bairro.  Eles varrem a calçada, tomam conta do entorno, conversam com vizinhos e oferecem distração para quem passa. O grande supermercado ou o shopping center dificilmente criam lugares agradáveis ao seu redor e o comércio eletrônico, por sua vez, ignora o sentido do lugar, transformando-o em uma via de entrega rápida.

Tem também as feiras. São Paulo tem 857 pontos de feira semanal. Alguma vai estar perto da sua casa e muitas delas ainda têm uma vantagem: vendem produtos que foram produzidos localmente, principalmente orgânicos. Os poucos alimentos que chegaram aos mercados durante a semana passada foram aqueles produzidos aqui mesmo, no município de São Paulo. No lugar de uvas chilenas, tangerinas do Grajaú. Ao invés de endívias italianas, alface produzido numa horta em São Mateus. Também é uma maneira de pensar na escala local e fortalecer a economia da cidade.

Finalmente, não custa nada encontrar a associação de moradores, ou o conselho participativo. São pessoas que estão pensando em como tornar a vida melhor perto da sua casa e a conversa pode render algumas ideias e contatos.

A crise nos obrigou a pensar em como nos deslocamos, mas também pode ser uma oportunidade para pensar em como vivemos.