Muito barulho e pouco bom senso na calçada da Casa do Porco
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Muito barulho e pouco bom senso na calçada da Casa do Porco

Mauro Calliari

05 de julho de 2019 | 16h18

 

Uma semana depois de ser escolhido como um dos 50 melhores restaurantes do mundo,  a Casa do Porco foi protagonista de uma estranha polêmica na internet.

 

Entrada do Restaurante A Casa do Porco. Foto: Mauro Calliari

Várias postagens  começaram a acusar o chef Jefferson Rueda de ocupar a calçada em frente ao restaurante e impedir a passagem de pessoas. Um artigo particularmente incisivo acusa o restaurante de praticar um golpe de marketing ao trazer clientes ricos para seu restaurante e expulsar os sem-teto que dormiam ali perto.

Há dois dias, por coincidência ou não, a prefeitura de São Paulo anuncia que vai passar a cobrar de restaurantes e bares pelo uso das mesas nas calçadas.

Estamos diante de mais um caso do conflito tão comum em São Paulo: como conviver no espaço público.

É nas calçadas, praças e ruas que os interesses entre pessoas diferentes ficam evidentes. Esse caso, especialmente, traz alguns aprendizados interessantes, que podem ser usados se quisermos pensar em como avançar na resolução de problemas:

1. É melhor explicitar o conflito do que escondê-lo

É saudável ver uma polêmica como essa virar pauta para a cidade.

Os conflitos cotidianos muitas vezes ficam escondidos e o resultado normalmente é que os mais fracos – pedestres, cadeirantes, pessoas que não pertencem a entidades – não conseguem sequer ser ouvidos. Reconhecer o conflito deveria ser o primeiro passo para resolvê-lo.

2. A cidade de São Paulo tem leis para quase tudo, mas a Prefeitura não consegue fiscalizá-las

Já existe uma farta regulamentação a respeito de mobiliário em calçadas. Mesas, cadeiras e toldos são permitidos, desde que deixem um espaço mínimo de 1,20 metros para calçada e que não atrapalhem a circulação.

Simples, não? Pois o fato é que os fiscais da Prefeitura são poucos, têm múltiplas prioridades e acabam não interferindo quando deveriam, como nesse caso.

A calçada da rua General Jardim, parcialmente obstruída por toldo, mesas, postes e árvores. Foto: Mauro Calliari

Eu passei pela calçada da Casa do Porco ontem. Está claro que os limites não estão sendo cumpridos.

O toldo, particularmente, atrapalha em muito a circulação. Um fiscal atento já teria entrado em contato com o restaurante, inicialmente orientando e posteriormente multando se fosse o caso.

3. Está faltando bom senso

Nesse caso, temos um pleito razoável de moradores e passantes — “preciso ser capaz de andar pela calçada” — e um pleito razoável de uma instituição respeitável — “ofereço boa comida, tenho muitos clientes e gostaria de acomodá-los dignamente enquanto esperam”. Imaginando a boa fé de todos os envolvidos, nada mais simples de resolver.

Do lado dos reclamantes, não dá para inputar a um restaurante mais responsabilidade do que ele já tem – fazer boa comida, contratar pessoas boas, atrair clientes, pagar impostos.

Do lado do restaurante, o que cabe é realmente ser mais ágil, justamente por ter mais visibilidade do que outros, para mudar a configuração externa e tirar esse toldo absurdo.

Ali pertinho da Casa do Porco,  há vários restaurantes com soluções simples, uma delas de uma lanchonete de hotdogs, do mesmo Jefferson Rueda.

Hot Pork, do mesmo dono da Casa do Porco, Jefferson Rueda, oferece toldos adequados e calçadas desimpedidas. Foto: Mauro Calliari

 

4. O comércio tem um papel fundamental na manutenção da vitalidade das ruas

Lojas, bares, farmácias, academias. Cada estabelecimento comercial aberto na cidade traz a possibilidade de termos calçadas melhores. É do interesse deles que a rua esteja limpa e os acessos fáceis. É do nosso interesse que floresçam pequenos estabelecimentos nas ruas e que eles tenham sucesso. Desde Jane Jacobs, a americana que escreveu o livro mais influente de urbanismo da história, todo mundo sabe o quão importante o comércio é para a vitalidade da cidade.

Restaurante Z-Deli, na rua General Jardim. Foto: Mauro Calliari

É importante saudar a chegada de restaurantes no centro que se relacionam com as ruas e reúnam pessoas, como a Dona Onça, Z-Deli, Olivier, mas também a sobrevivência dos botecos sem grife que oferecem comida honesta e mesas nas calçadas com urbanidade.

A questão é que há muitas lojas e bares que apenas sobrevivem e outros que explodem e acabam atraindo multidões. A Casa do Porco é uma delas. O sucesso é justificado: a comida é espetacular, para quem pode pagar, é claro. As pessoas fazem fila para conseguir comer. A fila invade a calçada e o conflito se instaura.

O que deveria ser um motivo de comemoração – ter mais um lugar no centro que atrai pessoas – passa a ser um motivo de preocupação.

Toldo ao lado de poste dificulta circulação de pedestres ao lado da Casa do Porco. Foto: Mauro Calliari

5. Já passou da hora de alargar algumas calçadas

Pensando além da lei atual das calçadas, há uma solução óbvia para conflitos como esse: aumentar a largura da calçada.

A gente  se acostumou a pensar na rua como algo imutável mas não é. Se há vinte, trinta pessoas espremidas na calçada enquanto dois ou três carros se refestelam em 70% do espaço, algo está errado.

Claro que a prefeitura tem que fazer estudos, medir, etc, mas há ocasiões em que o bom senso pode vir a ser um bom conselheiro.

Queremos bons restaurantes e bares, de todos os preços, para todos os públicos, principalmente numa região tão emblemática quanto o centro.

Também queremos que as pessoas possam passar tranquilamente pelas calçadas enquanto outras sentam numa mesa e usufruam do movimento. Não parece tão difícil.

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