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Há 50 anos, São Paulo inaugurava seu monumento mais hediondo, o Minhocão

Mauro Calliari

24 de janeiro de 2021 | 19h08

No aniversário de São Paulo do ano de 1971, os paulistanos foram apresentados ao novo viaduto Costa e Silva. A obra que hoje talvez parecesse fora de propósito, fora projetada e construída em apenas um ano. Numa época em que os prefeitos biônicos não encontravam dificuldades para aprovar seus projetos, Paulo Maluf apostou em um eixo viário para acelerar a ligação entre a região oeste e leste.

 

O congestionamento no dia da inauguração já dava o tom da verdadeira vocação do novo monstrengo: destruir a região onde passava e suas vizinhanças.

 

A cicatriz rasgou o centro e seu entorno nunca se recuperou. Para os que moram, poluição sonora, visual e ambiental. Para os vizinhos, uma barreira escura, úmida e amedrontadora a pé. Para comerciantes, um afastador de clientes.

 

Gradualmente, o Minhocão, apelido talvez carinhoso demais para o monstro de concreto, foi ganhando algum respiro. Primeiro foi o fechamento para carros aos domingos, depois aos sábados e noites, até que São Paulo mostrasse aquilo que tem de melhor: as pessoas foram ocupando o elevado, a pé ou bicicleta, com eventos, pinturas e até comida. No último plano diretor, decretou-se que o viaduto iria deixar de funcionar, virando um parque ou sendo destruído.

 

Recentemente, trocou de nome, mas ninguém chama o elevado pelo nome de João Goulart. É Minhocão mesmo e a mudança de caráter do uso conta muito mais sobre as mudanças dos seus habitantes do que são gestores.

 

Esse continuam sem conseguir abrir espaço para uma discussão adulta, aberta, inteligente. Sem se converter em parque, sem ser destruído, o Minhocão permanece como uma lembrança das coisas ruins da cidade, a zombar de todos os que vieram depois dele.

 

Diante da iniquidade do monumento, o embate entre a demolição e o parque teria tido o poder de nos colocar ao lado das cidades que tomaram decisões corajosas, como o Rio de Janeiro, Seul ou São Francisco, que optaram por mandar ao chão seus viadutos. O nosso continua lá, como uma assombração. Pois bem, a assombração está fazendo 50 anos, no mesmo dia do aniversário de fundação da cidade, que talvez merecesse um presente melhor.

 

Uma solução poderia ser o tal parque, outra poderia ser uma demolição parcial e há os que, como eu, advogam que simbolicamente seria ótimo poder não ver a estrutura lá nunca mais. O fato é que qualquer solução é melhor que nenhuma. O que não faz sentido é assistir ao cinquentenário dessa excrescência urbana num mundo que anda botando abaixo seus monstrengos, corrigindo erros do passado e fazendo as pazes com seu futuro através de bons projetos. Aqui, parece que cabe a nós apenas soprar as velinhas desse bolo insosso e poeirento.

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