Entre a modernidade árida do Jardim das Perdizes e a arquibancada tombada do Atlético Clube Nacional, só falta um projeto de cidade
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Entre a modernidade árida do Jardim das Perdizes e a arquibancada tombada do Atlético Clube Nacional, só falta um projeto de cidade

Mauro Calliari

06 de janeiro de 2019 | 18h16

Estádio do Nacional, com o Jardim das Perdizes ao fundo. Fotos: Mauro Calliari

Estádio do Atlético Clube Nacional, domingo de sol, jogo da Copa São Paulo de Futebol, a chamada Copinha, entre Santa Cruz e Goiás.

A arquibancada coberta, construída em 1938 e tombada pelo Compresp, o órgão municipal de proteção ao patrimônio histórico, estava bem cheia. Torcedores do Goiás, do Santa Cruz e gente que gosta de futebol, como eu.

No campo, o jogo ia devagar até que um jogador do Goiás, pego em impedimento, ficou com tanta raiva que chutou bola com força por cima da arquibancada, na direção do seu vizinho, o Jardim das Perdizes.

A torcida acordou, o jogador foi expulso e eu fiquei com vontade de ir conhecer o novo bairro.

Saí do jogo, andei um quarteirão e cheguei ao Jardim das Perdizes. Encravado entre a Marques de São Vicente e os trilhos do trem, o bairro é um modelo do que pode vir a ser a ocupação do chamado ‘arco do Tietê’, uma região maior que a ilha de Manhattan que ainda pode comportar parte do crescimento populacional da cidade..

Trata-se de algumas ruas, com vários condomínios de prédios, e uma enorme praça no meio. Na ponta, alguns prédios de escritório, com lojas no térreo.

As calçadas são ótimas. A praça é muito agradável, cheia de pais e filhos brincando, há uma área para a terceira idade e um sistema de bicicletas exclusivo. Árvores foram plantadas, tudo é limpo e muito bem cuidado.

Mas senti uma sensação estranha, a de ter viajado no tempo, e entrado no filme “Playtime”, de Jacques Tati, em que  os prédios envidraçados parecem engolir as poucas pessoas que andam a pé na rua.

As distâncias não são tão grandes, mas tudo parece convidar ao uso do carro. Andar a pé entre os prédios não tem graça, nem ir até uma padaria, que fica num pequeno centro comercial, cheio de vagas de estacionamento.

Saio de lá sem conseguir definir o que causou esse estranhamento. O bairro novo, afinal, não parece ter nada de errado, os prédios estão abrigando novas famílias que precisam ir para algum lugar, as áreas de lazer oferecem a chance do pais brincarem com seus filhos em segurança, e a cidade está se adensando ao longo da antiga área da várzea do Tietê.

Ou há realmente algo de errado? Afinal, como é que, num momento histórico em que as cidades ao redor do mundo buscam modelos de cidade mais compacta, diversa e integrada à malha urbana, São Paulo esteja construindo bairros inteiros que, apesar de serem construído com recursos e cuidados,  desestimulem as conexões?

Talvez seja essa a razão do incômodo, o fato de estarmos dentro da cidade, mas não exatamente ligados à cidade.

Mas, por outro lado, como se integrar a aquelas avenidas tão cheias de carros e ônibus, sem nada a não ser os muros enormes dos centros de treinamento do Palmeiras, do São Paulo e do próprio Nacional, que, a propósito, também se fecham para o resto?

A resposta provavelmente está no tipo de urbanização. Penso na antítese deste bairro, Santa Cecília, por exemplo, onde a área de lazer é a calçada, onde os prédios têm lojas no térreo, onde pessoas de classes sociais diferentes andam no mesmo lugar, e onde quem está no segundo andar conseguem ouvir quem está na rua. Há vários problemas, claro, mas também há uma sensação de pertencer à cidade.

Estamos falando, portanto, da noção de criar cidade. O bairro da Água Branca, onde está o Estádio do Nacional e o Jardim das Perdizes faz parte da área de uma grande operação urbana, mas parece evidente que esses recursos ainda não foram usados para criar cidade, nem para integrar o novo com o velho.

Não se trata de saber que prédios serão construídos, mas que cidade vai ser construída e como ela vai abrigar diversidade de pessoas e de usos. Antes da edificação, urbanização. Antes de prédios, espaços públicos, conexões, transporte e pensamento urbanístico.

Enquanto aguardamos por projetos urbanos que pensem em integrar as diferentes partes da cidade, esperamos sinceramente que o pessoal do Jardim das Perdizes encontre a bola que o atacante do Goiás chutou por cima da arquibancada.

Ah, o Goiás, mesmo com um jogador a menos, venceu o Santa Cruz por dois a zero.

A torcida saiu em paz do estádio e nem se deu conta de que, quase ao lado das arquibancadas tombadas havia um novo bairro, com uma praça bonita no meio.