As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em tempos de podcast, a incrível experiência de ouvir doze horas de rádio AM pelas estradas do interior

Mauro Calliari

22 de janeiro de 2021 | 20h00

Desde que ouvia jogos de futebol no rádio, nunca mais pensei na rádio AM. Pois, numa longa viagem de carro ao interior do estado nesses dias, sintonizei uma estação meio sem querer, redescobri esse universo incrível e não consegui largar mais.

 

A cada 30 quilômetros, irrompe no rádio uma nova estação, cada uma de uma cidade diferente. A recepção é ruim, o som vem atrapalhado, cheio de estática. Mas a conversa é imperdível e fascinante.

 

Os apresentadores são as estrelas dos programas. Eles conversam intimamente com os ouvintes, que retribuem com mensagens no whatsapp e pedidos de  música: “ dedico essa música à minha tia, meu irmãozinho, meu paizinho que já me deixou, a todo o pessoal da rádio e aos meus colegas aqui do trabalho”.

 

O apresentador da rádio de Catanduva recebe as mensagens com carinho e reage com uma insuspeita religiosidade: “Ah, meu Deus do Céu, que maravilha essa música que você pediu” ou “Minha Nossa Senhora, tá muito calor mesmo!”.

 

Em Matão, o locutor chega a ter uma gravação de risada para rir de suas próprias piadas, que misturam uma ingenuidade de Mazzaropi – “Minha mãezinha me disse para não ser locutor de rádio, porque o salário é muito baixo” à ousadia dos country boys – “hoje é domingo, não vai sobrar latinha de cerveja cheia hoje”.

 

Para preencher tantas horas de conversa, o pessoal apela ao almanaque. Fico sabendo que dia 19 de janeiro é o dia do cabeleireiro. A dupla de apresentadores de Taquaritinga louva o profissional que nos ‘ajuda a melhorar a auto-estima’. Concordo, claro. E quem não gosta de sair com o cabelo aparado, se sentindo melhor?

 

A música não deixa ninguém se enganar: estamos na terra do sertanejo, que domina quase todas as estações do dial, a qualquer horário. É o tipo de música que eu quase nunca ouço, então procurei acompanhar com atenção às evoluções dos cowboys (muitos) e cowgirls (poucas).

 

Percebo dois padrões de letras de músicas.

 

No primeiro tipo, há cervejas, mulheres e alegria. O raciocínio é algo como “bebo, então posso ter uma mulher” ou o inverso “tenho uma mulher ao meu lado, então, preciso de uma cerveja”. Um dos cantores sugere que a mulher já venha tirando a roupa e “não aceito um não como resposta”. Até a latinha de cerveja é objeto de desejo, como nos lembra o simpático cantor que ouvi na altura de Araraquara: “quero ser essa latinha de cerveja para encostar na sua boca”.

 

Outro padrão de letras é o da tristeza e aqui já aparecem algumas cantoras mulheres. Ele ou ela foi trocado por alguém. E bebe para esquecer, ou canta para lembrar. Nessas letras, há um certo prazer mórbido em contar os detalhes do fim do relacionamento. Em Rio Claro, ouço abismado essa pérola: “no jantar de despedida, fomos num restaurante caro, pedimos ceviche de entrada, tomamos vinho chileno, mas nossa história acabou ali”. Gastronomia e dor de cotovelo, memorável.

 

Como uma quebra nessa intensidade toda, há alguns programas que saúdam a ‘música antiga’: o sertanejo raiz, a moda de viola. Ali, ainda se saúda o sitiozinho, o boizinho, o riachinho e a porteira.  Como ouvinte desacostumado a tanta cerveja em letras de música que sou, consigo um alívio nostálgico durante alguns quilômetros enquanto Milionário e Zé Rico louvam a zona rural que não existe mais, do caipira simples e feliz, que talvez tivesse um burrico e não uma Ford Ranger.

 

Uma atração à parte são as propagandas. Em tempos de grandes redes de franquias, é um alento ouvir o anúncio das lojas locais, como o da “casa de carnes Estrela do Sul” ou da lojas de carros dos  irmãos Larry e Luan, logo ao lado hortifruti Repolhão”. Vários anúncios trazem um número de telefone, como se os clientes precisassem falar com Larry ou Luan antes de encher a despensa.

 

As rádios religiosas também estão lá, disputando ouvintes. Ao contrário da louvação à cerveja, aqui, busca-se louvar a cura. Os que bebiam ou se drogavam ou eram infiéis mudam totalmente de comportamento ao descobrir a palavra.  Um empresário conta com orgulho que se converteu e conseguiu comprar um apartamento com quatro quartos e cinco garagens para guardar seus carros, estimulando outros a fazerem o mesmo.

 

A rádio AM também traz notícias. Como em rádios ‘nacionais’, os locutores falam da chegada da vacina contra a Covid e do resultado do jogo do Corinthians e Palmeiras. Mas o tom não tem nada de imparcial e formal. Aqui, até a previsão de tempo é personalizada. Como na rádio de Araçatuba, em que, o locutor, indiferente aos percentuais de possibilidade de precipitação conta que choveu no seu bairro a noite inteira mas que “hoje essa chuva tinha que dar um descanso”. E quem disse que isso não é previsão?

 

O locutor de Ribeirão Preto comenta, consternado, a morte de um homem que caiu do telhado ao fazer um conserto. A notícia, que seria uma notinha em outro lugar, ganha contornos pessoais. Ficamos sabendo o nome e a idade do homem. Também somos informados que ele fazia esse tipo de serviço há mais de trinta anos e era muito querido no bairro tal. Não era um número. Era um homem, com história, nome e proximidade.

 

O programa que mais me cativou, porém, foi a entrevista  do secretário de turismo da cidade de Monte Alto, que durou a enormidade de quase 40 minutos e que eu ouvi inteirinha, ignorando a vacina, as intrigas de Brasília, as fofocas de Washington.

 

O jovem secretário está animado com seu trabalho e tem memória incrível, citando o valor exato empenhado em cada obra e o número da respectiva licitação, como se recitasse um ponto numa sabatina. Aprendi que, além de turismo ecológico e trilhas, Monte Alto tem um importante museu de paleontologia, que vai abrir quando a pandemia arrefecer.

 

A viagem vai terminando. Estou quase em São Paulo quando sintonizo uma rádio da capital que faz a irresistível enquete: “O que você faz para se acalmar?”. Há uma sucessão de ouvintes mulheres que dão suas dicas: ligar o ventilador no mínimo para parecer que é o barulho do mar, confeccionar máscaras para doação, fazer artesanato, meditar e escrever poesia. Nenhum homem se manifesta. Talvez eles não ouçam rádio à tarde. Talvez eles não tenham nada a dizer sobre a calma.

 

Chego a São Paulo diferente do que saí. Apesar de aturdido por tantas horas ao lado do rádio, sinto-me estranhamente próximo de cidades que nem conheço.  É como se durante algumas horas, tivesse tido companhia de gente que nunca vi, em busca de conforto em momentos de solidão ou tédio. Saúdo essas pessoas que me fizeram companhia e prometo mentalmente conhecer o museu de paleontologia de Monte Alto e seu competente secretário de turismo um dia.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.