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Em tempos de comércio eletrônico impessoal, o prazer de encontrar um livreiro que gosta de livros e de pessoas

Mauro Calliari

20 de setembro de 2020 | 19h04

Outro dia, no aniversário de minha filha, ela pediu um livro. Não um livro qualquer,  mas um com título incompreensível, de um autor de nome impronunciável. Não tentei interpretar o pedido e nem aprender a pronunciar o nome do sujeito. Aceitei, ciente do fato de que alguém que faz aniversário às vezes tem desejos insondáveis.

Logo descobri que o livro estava esgotado, e que, pior, ele deve ser muito procurado porque em cada sebo o preço era maior que no anterior. Conformei-me com a inflação fora de hora e fiz o pedido, preenchendo dezenas de campos, data de aniversário, confirmação do cartão, inclusive aquele codiguinho que só serve para ser cobrado nos sites de comércio eletrônico.

Em alguns dias, chegou um aviso via email: o exemplar que eles tinham estava um pouco rasgado e não iriam mais enviar. Eu não me importaria com o pequeno rasgo, mas não havia jeito de conversar com um software de resposta automática. Fui a mais um site, preenchi as mesmas dezenas de campos, cvv, data, etc etc. Ato contínuo, recebi outro aviso dias depois: ‘livro fora de estoque’.

Exasperado por não conseguir me relacionar com os sites, sacs, e sistemas anônimos, decidi tentar um contato pessoal. Peguei o telefone e liguei para uma última alternativa: uma livraria em Porto Alegre, uma opção quase insólita para quem está em São Paulo.

O telefone deu um toque, e uma voz (um ser humano, finalmente!) atendeu. Perguntei se tinha tal livro, já preparado para ouvir aquele silêncio clássico de livrarias impessoais: “dá para soletrar o nome do livro, dá para soletrar o nome do autor?”.

Pois bem, o Gabriel não precisou de nada disso. Em trinta segundos, o livro estava na sua mão. Em meia hora, já estava postado no sedex. Depois, me deu um número de uma conta e eu fiz o depósito. Em dois dias, o livro chegou às mãos da minha filha, bem no aniversário. O embrulho veio com um bilhetinho simpático e uma embalagem de bom gosto.

Descobri que o dono da livraria Cirkula se chama Mauro, como eu. Liguei, agradeci e ainda ganhei um convite para um café. Espero um dia ir a Porto Alegre, visitar a Livraria Cirkula, e cobrar o cafezinho do meu xará.

Em tempos de robôs, big data, comércio eletrônico impessoal, algoritmos que pretendem saber tudo sobre os nossos hábitos, convenhamos, poder tomar café com seres humanos que gostam de livros e pessoas, não é pouco. Ainda mais se eles conseguem pronunciar nomes impossíveis como Giles Lipovestsky, o autor do livro  “A felicidade paradoxal”.

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