Augusta, Santo Amaro, Boa Vista, Consolação … Quando falta espaço para andar a pé, é hora de aumentar as calçadas.
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Augusta, Santo Amaro, Boa Vista, Consolação … Quando falta espaço para andar a pé, é hora de aumentar as calçadas.

Mauro Calliari

06 Agosto 2018 | 16h37

Calçada na região do Baixo Augusta. Foto: Mauro Calliari

Uma noite dessas, estava andando na região do Baixo Augusta. A calçada estava tão lotada que que várias pessoas tinham que andar na rua. Ao mesmo tempo, percebi que havia poucos carros passando. Alguma coisa está errada quando tanta gente tem que andar se comprimindo enquanto há tanto espaço livre.

Como todo mundo sabe, muitas calçadas de São Paulo não têm o mínimo de 1,20 m que a lei estabelece.  Por outro lado, há outras que, mesmo dentro da lei, não dão conta do fluxo de pessoas em alguns horários. Para essas, existe uma solução: alargar a calçada. Isso já está sendo feito em algumas ruas.

Mudanças na Rua Joel Carlos Borges, em São Paulo. Foto: Pedro Mascaro / WRI Brasil.

Joel Carlos Borges. As mudanças na Joel são uma rara combinação entre poder público e sociedade civil. Os técnicos da WRI, Urb-i e Secretaria de Mobilidade contaram direitinho o número de pessoas e de carros que passavam pela rua, que dá direto numa estação da CPTM, perto da Berrini. Resultado: 1800 pedestres e apenas 200 carros no mesmo período. A decisão foi fazer um teste, pintando de verde uma área adicional para pedestres.

A multidão que sai da estação de trem agora tem um espaço protegido para chegar até seu trabalho. Quase um ano depois, já está mais que na hora de transformar o provisório em definitivo, alargar de vez a calçada, colocar bancos e canteiros e acertar os pequenos problemas de entradas das casas existentes. Mandei essa pergunta à prefeitura, que respondeu que a Companhia de Engenharia de Tráfego “analisa a possibilidade de tornar definitivo o alargamento da calçada”. Ótimo. Será muito bom ver que um teste bem feito deu resultado e vai melhorar a vida de quem anda a pé.

rua Jerônimo da Veiga durante o alargamento. Toda a faixa à esquerda é adicional. Foto: Mauro Calliari

Jerônimo da Veiga. Nessa rua do Itaim Bibi, a iniciativa de alargar a calçada foi de comerciantes locais, que foi aprovada pela Prefeitura Regional Pinheiros. Esse não é um caso em que a calçada fosse pequena ou insuficiente, mas a reforma, que interessa aos comerciantes e que foi paga por eles, parece ter sido boa para os pedestres também. Aumentou a segurança e diminuiu a área de travessia, o que é bom e bem vindo. Se as mesas dos restaurantes não invadirem a área de passagem da calçada, terá valido a pena.

Em ruas onde há desconforto e risco para os pedestres, é preciso aumentar as calçadas.

Existem várias outras ruas que mereceriam atenção. Na periferia da cidade, há carência de calçadas, travessias, sinalização. No centro expandido, mesmo ruas consolidadas também estão a merecer atenção, pelo fluxo cada vez maior de pedestres. Cada um vai lembrar de várias, eu sugiro essas para começar a pensar em mudanças:

 

Calçada na av. Santo Amaro. Foto: Mauro Calliari

Santo Amaro. A avenida Santo Amaro é um pesadelo para o pedestre, para passageiros de ônibus e para quem tem comércio na rua. As calçadas são estreitas, os pontos de ônibus são desconfortáveis e as travessias perigosas. No final da gestão anterior, a prefeitura lançou a ideia de usar parte da verba da Operação Urbana Faria Lima, para fazer uma mega-reforma na Santo Amaro.

Como anda esse projeto?

Em resposta a esse blog, a prefeitura afirma que a “SP Obras está desenvolvendo os projetos executivos e os estudos ambientais para a requalificação da via. Também estão em andamento as ações de desapropriação necessárias para a intervenção. A conclusão dos projetos, a obtenção da posse dos imóveis a serem desapropriados e o início das obras estão previstos para ocorrer no primeiro semestre de 2019”.

Esse é um projeto gigantesco, provavelmente esse prazo está otimista, mas, se acontecer, qualquer melhoria vai trazer muito benefício para quem se arrisca a andar por ali.

 

Saída do estádio do Morumbi, em dia de jogo. Foto: Mauro Calliari

Saídas de grandes eventos, como jogos de futebol e shows. No Pacaembu, Allianz Park e Morumbi, as calçadas ficam vazias de dia mas são completamente insuficientes para dar vazão aos torcedores nos dias de jogos, que disputam espaço com carros, num congestionamento perigoso e evitável.

Esse é um problema que poderia ser facilmente resolvido se a CET adotasse um padrão de aumento temporário da área para pedestres, com cones, por exemplo. Depois que acabou o fluxo de torcedores, basta retirar tudo, como na operação das ciclofaixas de lazer.

Entradas de estações. Os trajetos para a chegada aos pontos e terminais de ônibus, estações de metrô e da CPTM são a maior prioridade. As estações criaram estruturas eficientes de logística e pobres em urbanismo. Há tanto que falar delas que o assunto vai virar um post específico.

Travessia na rua da Consolação. Foto: Mauro Calliari

Rua da Consolação. A Consolação é a maior ligação entre o centro e a região oeste, larguíssima, vive lotada de carros, mas oferece muito pouco espaço para quem anda a pé – e as ciclovias instaladas são super inseguras para os ciclistas. Com as novas estações de metrô da linha amarela, a demanda certamente vai aumentar, mas a oferta de calçadas também vai precisar mudar.  Há gente que poderia estar andando por ali, mas deixa de fazer porque as calçadas repelem pedestres, como no inóspito trecho do cemitério da Consolação.

 

Calçada estreita na rua Boa Vista. Foto: Mauro Calliari

Rua Boa Vista. O centro velho é um caso curioso. Por causa do trânsito intenso de pessoas, muitas ruas foram pedestrianizadas na década de 1970. Mas transformar uma rua em rua de pedestre não é necessariamente a solução para outras ruas do centro pois muitas vezes a mudança atrapalha mais que ajuda o comércio e a própria segurança. Na rua Boa Vista foi instalada uma ciclovia mas sem mexer nas áreas para a multidão de pedestres que circula por ali no horário comercial. É um lugar óbvio para aumentar as calçadas, mantendo as ciclovias, e organizando as faixas de circulação dos carros.

Uma iniciativa dessas seria ainda mais emblemática se lembrarmos que nessa mesma rua existe uma iniciativa da própria Secretaria de Mobilidade e Transportes de São Paulo – o Mobilab, um laboratório onde são testadas experiências de melhorar a mobilidade ativa da cidade. Que tal fazer um teste ali mesmo?

 

Calçada na rua Augusta. Foto: Mauro Calliari

Augusta. Quanto à Augusta, que motivou essas reflexões todas, a prefeitura informa que a rua Augusta é uma das prioridades da Comissão Permanente de Calçadas. A Augusta já foi comércio chique na década de 60, ponto de paquera nos anos 70, chegou até a ser acarpetada durante uns meses em 1973.

rua Augusta, acarpetada em 1973.

 

De lá para cá, muita coisa mudou na Augusta, mas o movimento de gente na rua a partir dos anos 2000, principalmente do lado do centro, aumentou incrivelmente Agora, talvez seja a hora de aumentar o espaço destinado às pessoas, que são, em última instância, as responsáveis pela energia do bairro e que hoje precisam se esgueirar pelas calçadas estreitas.

Pensar nas calçadas

São Paulo finalmente se deu conta de que o pé é o maior meio de transporte na cidade e, no primeiro ano desta gestão, foi criada até uma Comissão Permanente de Calçadas, formada por pessoas de várias secretarias. Essa comissão tem por objetivo pensar nas melhorias das calçadas e, se tiverem a disposição e agilidade para ouvir as demandas de quem pensa e usa a mobilidade a pé,  podem ajudar a dar vazão à demanda para melhorar os trajetos, além de coordenar o trabalho das prefeituras regionais.

É claro que não é fácil mexer nas calçadas sem alterar outras variáveis. É preciso deixar espaço para pontos de ônibus, para ultrapassagem em lugares estreitos, etc. Mas sempre existem soluções que podem atenuar o problema de pedestres.

Dá para se inspirar, por exemplo, no desenho da João Cachoeira ou mesmo da Oscar Freire, ruas de grande movimento de carros, em que as calçadas foram aumentadas com inteligência, em alguns pontos, principalmente nos cruzamentos, mantendo algumas vagas para carros nos outros. Quando houver linhas de ônibus, dá para alargar as calçadas nos cruzamentos e manter um bolsão para a parada dos ônibus no meio.

Em todos os casos, dá para pensar em algum tipo de melhoria. Quando há mais pessoas a pé do que de carro, é hora de aumentar as calçadas.