A sombra do helicóptero sobre a Faria Lima
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A sombra do helicóptero sobre a Faria Lima

Mauro Calliari

08 de dezembro de 2020 | 11h20

 

Sexta feira, começo de dezembro desse ano quase irreal. Avenida Faria lotada. Há gente nas calçadas, nas lojas, nos carros, na ciclovia.

 

Na calçada em frente ao shopping Iguatemi, um Papai Noel gigante está com cara de poucos amigos. Ao seu lado, um enorme cachorro também usa uma inócua máscara, mas que parece mesmo uma mordaça: – “Compre algo ou vou atiçar o meu cachorro gigante sobre você” – parece dizer o antipático velhinho.

 

 

Um grupo de homens e mulheres passa com a indumentária clássica dos escritórios – os crachás pendurados, acrescidos agora da máscara obrigatória. Parecem estar numa pausa do almoço, estariam palitando os dentes não fosse isso um ato muito complicado de executar em público. Alguém parece estar contando uma história, mas a voz não consegue vencer os barulhos da rua.

 

Embaixo da sombra de um prédio, um engraxate faz uma pausa no trabalho para comer. Ele abre uma marmita e segura o garfo como se fosse uma ferramenta, jogando comida na boca, mastigando com pressa e fúria. Olho para os pés dos passantes e me pergunto onde estarão seus clientes; ninguém mais parece usar sapatos de couro, numa profusão de sapatênis,  tênis esportivos e até sandálias.

 

Logo adiante, há uma farmácia. Duas mulheres muito obesas estão deitadas sobre o degrau de entrada, acompanhadas de duas menininhas, de uns 4, 5 anos. Uma das mães pede dinheiro ao grupo de funcionários de crachá, enquanto a outra se engaja num diálogo estranho com a filha. Ouço os fragmentos – “você pediu dinheiro, falou isso e na verdade era aquilo, você mentiu e você é feia”. O diálogo é violento, mas a menina não parece intimidada.

 

A mãe abre a boca para continuar sua peroração quando uma sombra passa pela calçada e começa um barulho ensurdecedor.

 

Por segundos, todos param e olham para cima.

 

O barulho é tão alto quanto o de uma britadeira e parece mergulhar a rua, a calçada e as pessoas num transe. É um helicóptero.

 

O monstro alado pára no ar e desce suavemente até o topo do prédio em frente, que tem o mesmo nome da cidade onde estamos todos, mas em italiano: San Paolo. Tomado pelo barulho, penso: quem serão os ocupantes do helicóptero que se dão ao direito de calar toda uma rua?

 

 

O edifício abriga escritórios de advocacia e sedes de fundos de investimento. Especulo que os passageiros do helicóptero barulhento sejam executivos de uma empresa de telefonia em busca do parecer do seu advogado para instalação da concorrência de 5G no Brasil, vindo diretamente do aeroporto. Ou talvez seja apenas algum empresário que pode se dar ao luxo de economizar 30 minutos do trânsito entre o escritório em Barueri e a região onde mora.

 

Fico pensando nesses humanos que voam pelos céus, enquanto outros seres, também humanos, rastejam pelas calçadas.

 

Não é estranho que grandes negócios que mudam a vida de todos do país sejam fechados sem que os dignatários tenham que andar em ruas, ver gente de verdade, que pede dinheiro, que palita os dentes, que se desloca em busca de uma vida melhor, de uma vida qualquer?

 

 

Lembro dos Jetsons, o desenho dos anos 60, com suas casas nas alturas. Nenhuma informação sobre o que acontecia ao nível do chão. Em Blade Runner, a mesma sensação. Os carros voadores ameaçando os coitados que andam a pé pela chuva ácida. No filme, que se passava num hipotético 2019, os mais ricos já tinham abandonado o planeta.

 

Depois de alguns minutos, o helicóptero vai embora e há um alívio quase palpável na rua.

 

Com o fim do barulho, o engraxate volta a atacar a marmita. A mãe continua a bronca na filha, a filha continua a ignorá-la. A turma do escritório passa por elas sem dar dinheiro, impacientes para palitar os dentes e tentar entender a última piada que alguém conta por trás da máscara N95.

 

Sigo meu caminho, pensando em helicópteros, pessoas e desigualdade. Paro para atravessar a rua e me dou conta de que São Paulo não é uma cidade. São muitas. E que o maior risco que corremos é que essas muitas cidades nunca se encontrem.

 

Foto e desenho: M.Calliari.

Blade Runner: Divulgação

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