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Você mandaria seu filho de 10 anos para a escola pilotando uma bicicleta?

Pablo Pereira

02 de abril de 2013 | 00h34

O número de mortes em acidentes com bicicletas em São Paulo subiu 6%, passando de 49 vítimas fatais em 2011 para 52 mortos em 2012. A dura estatística da Companhia de Engenharia de Trânsito (CET), divulgada outro dia pelo governo, esclarece também que 51 dos mortos em bicicletas são homens com idade média de 35 anos. Noves fora o chocante caso do rapaz que perdeu o braço ao ser atingido por um carro em plena Avenida Paulista, episódio que comoveu a cidade por características absolutamente brutais – o atropelador livrou-se de um pedaço do atropelado jogando o braço arrancado no rio – esse número crescente de mortes revela o quanto é perigoso pedalar na cidade.

São Paulo, mostra o dado, não é cidade amiga das bicicletas. Pedalar nas ruas é coisa de doido. É claro que essa realidade precisa ser mudada, que a cidade deveria se transformar em um espaço tolerante para pedalantes. Como ocorre em comunidades europeias, famosas pela convivência pacífica no trânsito, ou como Vancouver, na Colúmbia Britânica, no Canadá, cidade da qual gosto muito e que está entre as mais bem avaliadas do mundo no quesito qualidade de vida.

Em Vancouver há excelente convivência no trânsito. Mas isso não é só de carro com bicicleta. Lá, pedestre tem prioridade, carro é meio de transportes (não é objeto de status econômico), e ciclista tem tranquilidade para curtir a bela geografia do lugar sem poluir o ambiente.

Mas Vancouver é Vancouver, tem 600 mil habitantes, está num mundo organizado, com renda alta, educação top e respeito pela existência do outro. São Paulo é São Paulo. Achar que se pode ter nesta megalópole latina o comportamento existente com ciclistas na rica maravilha canadense é uma agressão ao bom senso. Aqui a coisa está mais para o trio Garcin, Estelle e Inês – aqueles personagens da obra “Huis Clos”, do Sartre, e da conclusão atualíssima: “o inferno são os outros”.

Nada contra os militantes do ciclismo que sonham em mudar hábitos e reivindicam mais respeito e igualdade nas ruas. Nem contra as fábricas e lojas de bicicletas. Devem ser apoiados. Mas dar murro em ponta de faca é, no mínimo, bobagem. Expor as pessoas às neuras paulistanas é forçar uma barra que deveria ser contornada, não confrontada. Trata-se de uma ameaça concreta contra a vida. Há por aí milhares de motoristas malucos que empunham seus carros como armas.

Os fundamentalistas do pedal precisam puxar o freio, precisam ter mais cuidado. O ambiente ainda é muito desfavorável a eles. A doideira do automóvel, o estresse do trânsito, e a falta de educação do paulistano provocam resultados trágicos – é só olhar a estatística!

Além das mortes, que são as perdas mais lamentáveis, sem dúvida, o relatório da CET mostra que todos os dias 9 ciclistas são levados a hospitais por causa de acidentes de trânsito. No Estado, segundo a Secretaria Estadual da Saúde, 3,2 mil pessoas foram internadas devido a esses acidentes e o SUS teve um custo de R$ 3,3 milhões com tratamentos.

Tentar mudar hábitos da cidade dessa forma, no peito e na raça, sem que as condições mínimas de segurança urbana sejam garantidas, tem preço muito alto. E aqui não se trata de defesa pura e simples do carro, de apologia do motor. Não é nada disso. Olhando a cidade como é hoje, responda aí: você mandaria seu filho de 10 anos de bicicleta para a escola? Duvido!

PS:

E  abril começa com mais uma dessas tragédias. Desta vez, no Rio. No Leblon,  um ônibus contra uma bicicleta – e a diretora de TV da Rede Globo, Gisela Matta, 36 anos, não teve a mínima chance. Na manhã de segunda-feira, 1/04, ela chegou a ser hospitalizada, mas não resistiu.

 

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