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Vizinho do sabiá

Pablo Pereira

15 de setembro de 2011 | 22h26

Há muitos anos, entrevistei em São Paulo um estudioso das aves, que costumava gravar o som dos pássaros. Chamava-se Dalgas Frisch, morava no Morumbi, e estava às voltas com um falcão peregrino que migrava toda temporada do Hemisfério Norte – e tinha São Paulo como ponto de relax na viagem até  o Polo Sul.

Na conversa, o homem reclamou que a cidade era pobre de aves, que não tinha árvores frutíferas. De lá para cá, a coisa melhorou bastante, acho. Basta ver o tanto de passarinhos que voa por aí.

No jardim do meu prédio, uma pequena árvore, de copa bem verde, abriga uma família de sabiás. Por vezes até passeiam no chão. Catam insetos nos finais de tarde. São gordinhos, laranja por baixo, cinza no dorso. Parecem um casal. Não sei se são os mesmos de outros anos.

Nos últimos dias, andavam sumidos – ou seria eu que andava com a cabeça cheia demais? O fato é que outro dia, às 5h05, despertei com o bicho cantando a plenos pulmões bem ao lado de minha janela. Lá fora, escuro ainda, 5h05 no relógio. Só depois de algum tempo da cantoria é que começaram a surgir os primeiros barulhos de carros a subir a rua. O bairro ainda dormia.

Aí notei que em seu repetitivo cantar ele respondia a outros que o imitavam mais ao longe. Fui à janela para ver se descobria qual era o galho. Não consegui ver nada. Só ouvia. Aos poucos, o rumor da cidade foi tomando o ambiente.

Mas o sabiá nem se tocou. E prosseguiu como se marcasse território com a voz. Lembrei que estamos em setembro, tempo de filhotinhos. Eram 5h40 quando percebi que tinha se calado. Fiquei ainda esperando pouco para ouvi-lo de novo. Nada. Mas, àquela altura,  ele já tinha se danado comigo. Sem sono, tive um ataque de  Dalgas Frisch – e  gravei o som do safadinho.

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