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Viramos um país de São Tomés

Pablo Pereira

14 Julho 2016 | 16h39

Descrédito. Essa é a palavra do momento – um momento que já se alonga bastante no país. Não se pode acreditar em governo de esquerda, forçado ao retiro por acusações de corrupção e desconfiança geral, nem no governo interino e provisório de centro-direita porque o que estava escrito na Constituição do país, que deveria ser o documento da garantia das coisas, aval do contrato social brasileiro, também pode não valer mais nos próximos dias.
A crença no voto na urna em 2014 foi ignorada numa manobra congressual e uma batalha por convencimentos políticos ainda está em pleno andamento. Vai o eleitor levar essa quebra de regras em conta na eleição municipal que se aproxima?
Direitos – Diante da crise econômica e política, não estão preservados nem os direitos dos idosos. Bem, os direitos das crianças e dos jovens há muito tempo que não são respeitados mesmo. É só olhar a educação brasileira. Os problemas vão da assistência na creche à universidade. A poderosa USP em crise, as particulares sem o dinheiro do Fies. Na área dos miúdos, o eterno déficit de vagas, merenda escolar sob suspeita, professores com salários aviltados. Os programas de ciências, descontinuados; pesquisadores indo embora do país…
Nos discursos de posse de ministros do governo interino, nem pensar em dar crédito. Eles podem não ter mais aquela pompa dos cargos na próxima semana – abatidos pelo passado revirado pela polícia ou por acordos palacianos de sustentação política. Os exemplos são vários nos últimos tempos – escolha o que melhor lhe parecer.
Justiça – No Judiciário, sem novidades. Basta ver que até a Suprema Corte, o poderoso STF, é tribunal composto por um grupo de 11 que vota uma coisa hoje mas pode mudar isso amanhã. Depende. Os votos vão de acordo com o vento. Nunca se sabe bem para qual lado vai soprar a lei porque há decisões tomadas por maioria – que podem se mover, se ajustar. Mas como esperar outra coisa se até os digníssimos senhores advogados voam a Brasília sem segurança de que demandas da pauta semanal serão apreciadas? E isso se dá ao vivo, na TV, às quartas-feiras. É só conferir.
Sem falar das dúvidas que grassam a partir do dia no qual um grupos de juízes, pagos com dinheiro do contribuinte para zelar por justiça, tiveram de ser brecados em alto escalão – situação que ampliou a insegurança jurídica nacional. E esse caso está resolvido? Não parece.
Política – E os políticos. Aí, Ave Maria. Parece cada vez pior. Noves fora as bagunças do Congresso e as demonstrações de curralismo explícito no Plenário, mais os devidamente recolhidos às cadeias, outro dia uma notícia dava conta até que um político havia ganho diversas vezes na Mega Sena. Opa: Como assim? Um cidadão sortudo? Muita gente comum acredita que pode ficar rico com uma aposta em casa lotérica. Mas logo depois se viu que havia até investigação de polícia sobre o tal premiado que parecia ter nascido virado para a lua. Nem na loteria…
E nos empresários, principalmente os grandões, então? Como acreditar nos discursos dos “empreendedores” brasileiros depois de se ver toda a farra das empreiteiras? De compras de voto de deputados para reeleições a propinas a diretores de partidos e de empresas públicas para ter acesso a obras pagas com dinheiro dos impostos. Com a propina metida no preço, óbvio, que ninguém é de ferro para meter a mão no próprio bolso.
Contas bancárias milionárias, que estavam escondidas no exterior, apareceram à rodo. Negociatas foram reveladas. Sem falarmos do cabidão do sistema oficial de financiamento bancado pelo dinheiro dos impostos, além da farta legislação de incentivos fiscais, perdões e isenções. Tudo ocorrendo em nome da criação de emprego, da função social da empresa, numa tremenda empulhação secular brasileira. Torcem o pescoço de Keynes, estatizam o risco, privatizam os ganhos, sem a menor cerimônia.
Economia – E o preço do feijão? Bom exemplo da situação econômica: falta de confiança, confusão. Num supermercado da periferia de São Paulo, outro dia, o quilo do feijão estava a R$ 15. Em outro bairro, R$ 5,69. Pode isso? O que explica a diferença? Como acreditar que não há nada embutido nessa cumbuca? Perguntei a um especialista no mercado. Como pode essa variação de quase R$ 10 num quilo de feijão? Especulação, produto velho ou jogada de marketing porque não há feijão novo na praça ainda, só em fins de agosto.
Segurança – E a saúde? Dá para crer em um tratamento de saúde bem feito? Quem tem plano de saúde sabe bem o tamanho da bronca e da desconfiança mútua da relação. E na polícia, que embruteceu geral. Dá para sentir firmeza? Um dos princípios do agente policial profissional é o de que todo mundo é suspeito até que prove que não é. Tudo bem. Com a criminalidade que cavalga no país não dá mesmo para acreditar nas pessoas na rua. Nunca se sabe se o cabra ao lado no sinal de trânsito é confiável. E o que todo mundo teme, cada vez mais, da favela à Avenida Paulista, é ser vítima de violência policial – quando deveria ter a sensação da proteção que o agente público é pago para fornecer. A impressão geral é a de que nem na polícia se pode crer. É isso que se quer?
Esportes – Resta-nos (ufa!) os esportes, telúrica atividade que encanta e diverte. Mas fora o futebol. Nesse aí ninguém acredita mesmo faz tempo. O pessoal até vai a campo ou vê na TV, mas é um recall dos velhos tempos  – ou uma tentativa de confirmar-se leso, abestado. É só ver por onde anda o ilustre brasileiro que foi presidente da CBF: preso nos EUA. O outro, o substituto, nem sai do país. Não corre riscos.
No campo, todo dia um árbitro faz aquilo que o juiz fez ontem no jogo do São Paulo pela Libertadores, ou seja, uma tremenda lambança – e desacredita ainda mais a paciência do torcedor. Não deu pênalti, expulsou e voltou atrás, acabou com o espetáculo. Agora lemos que um outro operador da Fifa está dizendo que até os sorteios dos grupos da Copa do Mundo foram combinados. Fraudes a mil.
Nas Olimpíadas, até o chefe do evento mundial, o prefeito do Rio, anda descrente. Já entregou os pontos, jogou a toalha, deu linha. Um pessoal que acreditou em propagandeada obra da orla de São Conrado viu a própria crença ir-se abaixo com a onda do mar.
Nestes Jogos universais resta-nos uma nobre aposta: a dos atletas. Ver para crer.
Viramos um país de São Tomés.

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