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Vargas, as ruas e a juventude, leituras do ex-presidente Lula

Pablo Pereira

21 de julho de 2013 | 10h22

Depois de ler Getúlio Vargas: dos anos de formação à conquista do poder – 1882-1930, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem estado ocupado com a leitura dos originais do segundo tomo da trilogia do escritor Lira Neto. O autor cearense, que lá biografou Castello, Maysa, Padre Cícero e José de Alencar, lança nos primeiros dias de agosto o livro sobre Vargas de 1930 a 1945. O volume final abordará o Brasil de 1945 ao suicídio, em 1954, e será lançado em 2014.

Lula fechou a semana com o livro de Lira Neto depois de, nos últimos dias, ter dedicado atenção especial a encontros com jovens, políticos e intelectuais, numa tentativa de interpretar a vontade escrita nas ruas em junho por milhares de brasileiros.

O petista (que já teve a trajetória política comparada à de Vargas) e o também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que sonhava em varrer do país o legado varguista) receberam os originais de Lira Neto porque escrevem textos para a contracapa da obra, editada pela Companhia das Letras.

Neste volume, Lira Neto conta 15 anos da história de Getúlio Dorneles Vargas (1882-1954), exatamente o período no qual eventos como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o salário mínimo e o incentivo à industrialização ajudaram o país a criar e alimentar a classe média consumidora nos grandes centros urbanos.

O encontro com o autor ocorreu por solicitação de Lula. Ele telefonou para o escritor Fernando Morais, que lhe havia presentado com o primeiro tomo, pedindo que convidasse Lira Neto para um almoço na terça-feira, 15. Com o livro sobre a mesa de trabalho, ao lado de uma biografia de Abraham Lincoln (1809-1865), um dos pais dos Estados Unidos, Lula recebeu os escritores, comentou a obra e citou trechos da biografia, que tem anotações em beira de página.

“Lula é um leitor atencioso”, disse Lira Neto na semana passada, depois de estar no Instituto Lula.

Transformação

O ex-sindicalista gostou da narrativa. “Ele comentou que parece ver Vargas caminhando pela Rua da Praia (em Porto Alegre)”, lembrou Fernando Morais.

No segundo volume, o que mais parece ter angustiado o ex-presidente são as descrições das mudanças radicais na trajetória política de Vargas, como o momento do livro no qual o ditador atropela a democracia. Também chamou bastante a atenção (negativamente) como Vargas compactuou com uma personagem que Lula acha terrível: Filinto Muller, o chefe de polícia varguista.

Morais, autor de  A Ilha e Chatô, também está escrevendo outro livro, este sobre o próprio Lula. Ele começou o “projeto” há dois anos – e ainda não tem data para acabar. “Já tenho uns 30 depoimentos. E recebi um pacote com mais de 30 fitas, mais de 40 horas de gravações dele. Ouro puro”, afirmou Morais.

“Conheço o Lula desde os tempos das greves em São Bernardo”, declarou o escritor. Ele recordou dos tempos de tensão e repressão política no Brasil, final dos anos 70, início dos 80, tempos nos quais Lula foi perseguido pela ditadura, e preso. “Jantamos juntos na véspera da intervenção no sindicato. Fernando Henrique estava lá naquela noite, mas voltou para São Paulo porque não acreditava em uma intervenção militar. Nós ficamos. E à 1h da manhã a tropa cercou o sindicato”, disse. Morais se refere à primeira intervenção no sindicato, ocorrida em março de 1979. Lula foi preso em 19 de abril de 1980, e solto em 20 de maio.

Autor também da história de Olga, a mulher de Luís Carlos Prestes, mandada aos nazistas pelo ditador Vargas, Morais contou que o encontro no Instituto Lula serviu também para os três conversarem sobre as manifestações de junho e, obviamente, a conjuntura política brasileira.

Candidatura?

Na conversa no Instituto, localizado no bairro Ipiranga, Lira Neto lembrou a Lula que Vargas, no terceiro livro, depois de um retiro na fazenda gaúcha, volta ao poder no Rio. E, então, fez ao petista a pergunta que boa parte do país gostaria que ele respondesse depois que a popularidade da presidente Dilma Rousseff escorreu ladeira abaixo, segundo pesquisas de opinião.

Ao estilo do jornalista Samuel Wainer, que durante uma visita a São Borja, em 1949, entrevistou o líder do PTB (que confirmou a nova candidatura), Lira Neto não resistiu à provocação: “O senhor pensa em voltar a morar em Brasília?”, disse a Lula, imitando a técnica de apuração de Wainer. Mas Lula não caiu na “esperteza”. Como Vargas, riu da pergunta. Mas disse que não é candidato.

Parece que os escritores acreditaram…

Juventude

Durante a semana, Lula tentou também uma aproximação com a juventude. No mesmo dia do encontro com os escritores, chamou ao Instituto o secretário da Cultura de São Paulo, Juca Ferreira, um apaixonado pela cultura digital, para acompanhá-lo em reunião com jovens de movimentos sociais, partidos e entidades populares e de mobilização na web.

Estiveram com ele jovens ligados à UNE, UJS, MST, CUT, PT, PCdoB, além de blogueiros do próprio Instituto Lula e o que eles chamam de “coletivos”, como Circuito Fora do Eixo e Existe Amor em SP, movimentos que ganham massa nas redes sociais. O pessoal do Movimento Passe Livre, protagonista principal das manifestações de junho, não estava na reunião. Disse que nem foi convidado.

Na conversa com a moçada, Lula se disse interessado em ouvir o que eles pensam do país e suas demandas, muitas delas apresentadas nos cartazes de manifestantes que lotaram as ruas. O primeiro encontro do ex-presidente com a juventude ocorreu havia quase um mês, ainda no calor das manifestações deixarem políticos, líderes de partidos e analistas e sociólogos perplexos. A reunião da terça-feira, dia 15, foi prosseguimento daquela anterior.

Artigo

“Ele queria ouvir a juventude e abriu uma porta para o diálogo”, afirmou na sexta-feira Pablo Capilé, do Fora do Eixo, que esteve na reunião logo após o almoço do ex-presidente com os escritores. Para Juca Ferreira, Lula queria falar de conjuntura, do significado das manifestações. “Na chegada, ele perguntou: você leu o artigo (publicado no Times)”, contou Ferreira. “E disse, você vai gostar”, emendou.

No texto do Times, Lula elogia os movimentos e adverte os partidos políticos para a necessidade de renovação. “Eu encaro como uma espécie de manifestações do descontentamento com o nível da democracia”, argumentou o secretário. “Os partidos políticos foram longe demais na insensibilidade com os movimentos populares”, acrescentou Juca.

Dois dias depois, Lula foi à palestra de encerramento de seminário sobre política externa na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo. Falou por mais de duas horas para uma plateia de estudantes que lotou os 400 lugares do auditório. respondeu perguntas sobre política externa, contou histórias do tempo de seu mandado, defendeu o governo de Dilma Rousseff, festejou os 95 anos de Nelson Mandela, e surpreendeu ao falar de boatos sobre uma suposta complicação de sua saúde.

Pediu aos estudantes que lutassem contra o que chamou de “vandalismo na internet”, negou que esteja fazendo “tratamento escondido” para um câncer, anunciou exames regulares para agosto, e chamou de “canalhas” e “imbecis” usuários de redes sociais que vão à web espalhar notícia falsa. Foi aplaudido. E deixou o auditório assediado como um popstar.

 

 

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