Uma São Paulo olhando para fora – 2
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Uma São Paulo olhando para fora – 2

Pablo Pereira

21 Dezembro 2010 | 14h29

As dores do parto começaram a atormentar o poeta e ele sentou-se, solitário, à janela do pequeno avião. Voava sobre a selva amazônica. Eu, quieto, dois bancos atrás, no corredor – só voo se for no corredor –, vi as contrações agitarem as entranhas do artista. Vi o silêncio expulsar daquele interior fervente as palavras que deram forma a um ser poético que se chama Centelha Fugaz.

A bordo de um jatinho, eu vi nascer um poema! O parto durou horas… Era verão, como agora. 1997. O poeta: Thiago de Mello.

Aturdido por uma cena brasileira, como só uma alma como a dele poderia estar, Thiago passou longo tempo do voo rabiscando o desenho de mais um filho literário. O poema começou a deixar sua alva placenta –Thiago só vestia branco— já a bordo de uma lancha, cruzando um paraná de rio a caminho de Barreirinha, onde morava, observado de perto pelas lentes do fotógrafo Alberto Araújo.

Acompanhando aquela gestação, conheci o tucano Flor da Mata. Na casa do poeta, tomamos café com amigos, Thiago contou sobre a dedicação a temas sul-americanos e à floresta amazônica. Falou do filho que morava em Brasília, das ausência com São Paulo e de um sábio nativo que ensinava tudo sobre madeiras. Nos mostrou sua casa, desenhada por Lúcio Costa, lembrou da velha militância política dos anos 60 e de parceiros antigos, como Armando Nogueira e Paulo Francis.

Depois, no quintal, numa manhã ensolarada, conversou com seu mascote colorido, pousado em galho baixo. E quem, como ele, fala com aves no quintal, pode até não saber, mas vive com a alma prenhe.

Thiago cortou o cordão umbilical de sua poesia na varanda de outra casa, na Freguesia do Rio Andirá, à beira das águas dos índios do guaraná.

Que nobre berço para a poesia, aquela Freguesia do Andirá!

“Adoro esta praia!”, disse o poeta, olhando o rio, antes de rabiscar, num papel-jornal, um regalo para mim. Na praia do Andirá, ouvi o choro da poesia – e vi o olhar aliviado do pai de um poema!

  Para ler a reportagem, publicada em O Estado de S.Paulo,

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