SP e o caranguejo de Hipócrates
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SP e o caranguejo de Hipócrates

Pablo Pereira

26 Novembro 2011 | 18h16

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A ilha de excelência brasileira chamada São Paulo tem, seguramente, a maior concentração de hospitais de alto padrão e de profissionais de altíssimo nível no exercício da medicina no País. São 105 hospitais e pelo menos 9 mil clínicas, segundo dados da Prefeitura. E um exemplo desse poderio no serviço médico e pesquisa é a Faculdade de Medicina da USP, reconhecida mundialmente como top na formação de médicos.

É uma pena que toda essa experiência acumulada ainda não esteja largamente disponível para a população – em muitos e muitos casos confinada ao demorado atendimento do sistema público nas periferias do município e de seus vizinhos menos favorecidos.

Um desses complexos profissionais de saúde de ponta, o Instituto do Câncer de São Paulo, Icesp, é chefiado pelo médico Paulo Marcelo Hoff, oncologista que tem estado em moda nos últimos tempos pela importância da tarefa que desenvolve no combate à doença no setor público – e pelo trabalho na direção da área de oncologia do Hospital Sírio-Libanês tratando de pacientes famosos e políticos.

Aos 43 anos, Hoff é uma autoridade no assunto. Sob os cuidados dele e de sua equipe estão o ex-presidente Lula, a presidente Dilma Roussef, o ator Reynaldo Gianecchini. O ex-vice-presidente José Alencar, que morreu em março depois de anos de luta, também foi atendido por Hoff.

Na semana passada, ele trabalhou na segunda sessão da quimioterapia do ex-presidente Lula, no Sírio, conheceu oficialmente as estimativas do Inca sobre o volume da doença no Brasil e abriu uma campanha paulista de prevenção do câncer no Icesp. Na sexta-feira, comentou a previsão do Inca, a cura do câncer e outros temas da República.

Paranaense de nascimento, mas gaúcho por adoção – o pai, Paulo Sérgio Hoff,  é de Santa Bárbara do Sul -, Hoff é professor da USP onde ensina que a batalha contra a temida doença já proporciona a cura em 60% dos casos. Formado na Universidade de Brasília, doutorado pela USP, e tendo feito residência em Miami, além de experiência em Houston, ele começa agora a trabalhar com jovens paulistas na tentativa de desarmar eventuais bombas  do câncer lá na frente.

Programa do governo estadual, via Icesp, pretende levar informação e esclarecimentos sobre a doença a 1,5 milhão de alunos por maio de palestras de 80 médicos da entidade em escolas.

Paralelamente a esse esforço de disseminação de conhecimentos sobre a doença, Hoff acaba de assinar o livro Como superar o câncer. É um guia para quem convive com o problema ou quer tirar dúvidas sobre a enfermidade e seu tratamento.

Editado pela Editora Abril, o livro tem a participação de 12 especialistas do hospital Sírio-Libanês. Os direitos foram doados. Está à venda por R$ 24,90.

Em forma de guia, é uma aula sobre o câncer. Leia abaixo um extrato do livro sobre a milenar história do conhecimento da doença.

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2500 a.C.

Um papiro egípcio dessa época contém descrições de quase 50 doenças. Entre elas, destaca-se o relato de uma massa proeminente no seio. Os detalhes dão a entender que o autor do documento descrevia um câncer de mama.

460-377 a.C.

Esses são os anos de nascimento e morte, respectivamente, de Hipócrates, considerado o pai da Medicina. Ele usou o termo câncer, sinônimo de caranguejo em grego, para descrever a doença pela primeira vez. A forma do crustáceo, observou Hipócrates, seria similar a de um tumor que se espalha pelo corpo. Mas ele acreditava que a responsável pelo mal seria uma suposta substância que circulava pelo organismo – a que deu o nome de bile preta.

Século 2

Cláudio Galeno, talvez o médico mais importante do Império Romano, foi responsável pela criação de uma espécie de manual da Medicina daqueles tempos. Ele afirmou que o câncer não tinha cura e que não deveria nem sequer ser tratado. Essa é uma das justificativas pela qual a doença foi pouco estudada na Idade Média.

1543

Neste ano, em pleno Renascimento, um dos estudos mais completos sobre a anatomia humana é realizado pelo belga Andreas Vessalius. Ele critica a falta de atenção com os tumores e questiona a teoria de Hipócrates sobre a bile negra.

1775

O inglês Percival Pott nota que limpadores de chaminés tinham um índice maior de câncer na bolsa escrotal. Isso por causa do contato constante com o alcatrão e outras substâncias tóxicas. É um dos primeiros relatos sobre a influência do meio ambiente no desenvolvimento da enfermidade.

1787

Começa-se a falar na capacidade do câncer criar vasos próprios para pegar nutrientes do corpo e se alimentar para crescer. O processo se chama de angiogênese e começou a ser observado mais profundamente pelo cirurgião escocês John Hunter nesse ano. Aliás, ele aperfeiçoou o que se considera ser o método científico, ou seja, esboçou as formas mais confiáveis para fazer pesquisas médicas, inclusive as relacionadas a tumores.

1867

São apontados os princípios básicos da antissepsia. De autoria do médico inglês Joseph Lister, métodos como limpar escrupulosamente as salas de operação tornaram todos os procedimentos cirúrgicos muito mais seguros.

1890

Data desse ano a mastectomia radical, ou seja, a retirada de toda a mama por causa de um tumor. Realizada pela primeira vez pelo cirurgião americano William Halsted, ela atualmente é pouco usada pela agressividade e pelos efeitos colaterais. Mas, mesmo assim, abriu as portas para tentativas de extrair o câncer do corpo.

1895

Wilhelm Roentgen, um físico alemão, consegue produzir radiação eletromagnética de modo a revelar partes do interior do corpo de uma pessoa. Essa nova tecnologia foi primordial para desenvolvimento do raio X. Oito anos depois, a cientista Marie Curie ganharia o Prêmio Nobel por, entre outras coisas, estudar os efeitos da radiação sobre os tecidos biológicos e firmas as bases da radioterapia, usada até hoje para combater o câncer.

1929

O hormônio estrogênio, mais ligado ao organismo feminino, é identificado pelo bioquímico americano Edward Doisy. Esse é o passo inicial para a criação de seus antagonistas, aplicados hoje na hormonioterapia para controlas cânceres como o de mama.

1946

Com base no gás mostarda, usado na Primeira e na Segunda Guerra Mundial como uma arma química, os farmacêuticos americanos Louis Goodman e Alfred Gilman produzem uma substância para exterminar células malignas do sangue. Começa a quimioterapia.

1971

O estão presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, assina o Ato Nacional contra o Câncer, um documento que visa estimular as pesquisas sobre a doença e fomentar o desenvolvimento de tratamentos para atacá-la.

1977

Os primeiros genes relacionados ao surgimento do câncer, conhecidos como oncogenes, são descobertos.

1997

A FDA, agência americana que regula medicamentos, aprova o primeiro anticorpo monoclonal contra o câncer, substância capaz de ajudar o próprio corpo a identificar células malignas. É o rituximab. A terapia alvo, como é chamada, ganha força.

2010

Novamente nos Estados Unidos, é aprovada a primeira vacina terapêutica contra o câncer – mais especificamente contra o tumor de próstata metastático, ou seja, que já se espalhou pelo corpo.

2011

O Instituto Nacional do Câncer, vinculado ao Ministério da Saúde, estima que, neste ano, serão diagnosticados 489 mil novos casos de tumores malignos no Brasil.

2011*

Instituto Nacional do Câncer, do Brasil, atualiza os dados de estimativas sobre a incidência da doença no país projetando para 2012 520 mil novos casos.*

Fontes:

“Como superar o câncer” (págs. 22 a 25), Dr. Paulo Hoff, Editora Abril, 2011,

 e  *Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva – INCA

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Capa do livro do oncologista Paulo Hoff e outros 12 especialistas

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(texto atualizado às 16h58 de 2/12)

 

 

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