Seu Guima, do Jockey, 40 anos de bola
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Seu Guima, do Jockey, 40 anos de bola

Pablo Pereira

28 de setembro de 2011 | 13h30

Ele convive com anseios e expectativas de meninos boleiros e suas famílias na Zona Sul de São Paulo. Pelas mãos dele, que está com 75 anos, já passaram, em quase meio século, segundo seus cálculos, cerca de 200 mil jovens com seus sonhos de sucesso nos campos de futebol.

José Guimarães Júnior montava e domava cavalos de corrida no Jockey Club até que um dia, em 1961,  sofreu uma queda e quebrou as costelas. Decidiu trocar os cavalos pela bola. Funcionário do clube, fundou, em 1970, uma escolinha de futebol para atender aos sócios. Mas a ideia acabou crescendo e o projeto Pequeninos do Jockey virou um centro de formação de atletas, que atrai crianças e adolescentes da região.

Seu Guima já viu nascer ali craques como Júlio Baptista, Zé Roberto, Edu Manga, André Luiz, entre outros. Mas viu também muitos dos sonhos de fama e dinheiro terminarem em dificuldades e frustração. “Isso tem muito”, disse ele na semana passada, olhando o treino coletivo de garotos no campo do clube Espada de Ouro, ao lado da chácara do Jockey, no Butantã, onde funciona o Centro Desportivo Espadinha.

“Por isso que nosso trabalho aqui é focado na formação da pessoa, do homem. Se vai ser craque, é outra coisa”, diz ele. Seu Guima, na verdade, está na agenda de empresários e agentes de atletas que miram nas escolinhas e na várzea de São Paulo como celeiros de futuros jogadores. Ele admite que faz indicações, mas nega que receba dinheiro por isso.

Com cerca de 600 meninos matriculados nos diversos horários de treinamento no projeto Pequeninos do Jockey, Seu Guima coordena uma equipe de 22 pessoas e oferece um espaço de 11.600 metros quadrados de campo para treinamentos. Na sessão da manhã da última sexta-feira, pelo menos 45 garotos passaram pelo gramado sintético do clube.

Ele tem razão quando diz que é muito difícil um craque acontecer nos dias de hoje. Com a experiência de quem já viu milhares de casos, ressalta que para estourar um jogador depende de uma série de fatores dando certo ao mesmo tempo. “Tem de estar no lugar certo e na hora certa”, resume.

Muito distante das poderosas máquinas dos clubes e dos milionários fundos de investimentos e de seus sofisticados Centros de Treinamento, Seu Guima administra um orçamento de R$ 25 mil.  “Há muitos meninos com talento. Mas isso não garante nada. Os clubes têm lá seus grupos também muito bons. É muito difícil de entrar”, conta ele. Apesar da grande concorrência, diz, “tem jogador nosso por aí tudo”.

O ex-jóquei lembra que já forneceu jogadores talentosos para clubes como o São Paulo, que é da região. Até que um dia, numa solenidade, foi chamado pelo então presidente e recebeu uma notícia: “O São Paulo vai pagar ao senhor 5% do valor de cada atleta indicado”, prometeu-lhe o dirigente.

Ele recorda que, a partir de então, cada menino que indicava para treinar na base do São Paulo era barrado.  “Mandei vários meninos lá. Todos voltaram sem ter chance. Daí, parei de indicar. Quando surgiu o tal do dinheiro no meio, não funcionou mais.”

Seu Guima afirma que não recebe dinheiro como olheiro. Mas admite que não há como controlar o assédio dos agentes. “Eles falam direto com os pais”, explica. “Muitas vezes os garotos saem daqui, viajam, e depois voltam dizendo que não era bem o que tinham prometido para eles”, afirma.

Acostumado com esse ambiente, ressalta que vive do Jockey, que, aliás, lhe permite inclusive moradia no interior da chácara. “Sou muito grato ao Jockey”, afirma. E garante que até põe dinheiro do próprio bolso no projeto da escolinha. Mostrando as salas cobertas de troféus na sede da chácara, ele explica que a receita vem também da cobrança das mensalidades (de R$ 10 a R$ 70) e de repasses do Jockey para o projeto.

Orgulhoso, mostra na parede do casarão da chácara o ex-craque Bellini festejando com ele e um time de garotos a conquista do torneio de 1982 na Escandinávia. E curte os recortes de jornais europeus com notícias de campeonatos vencidos por sua meninada.

“O único jogador que veio aqui e pagou passagens de dois meninos para uma viagem à Europa, foi o Zé Roberto”, afirma Seu Guima. Os times da escolinha costumam viajar para competições na Europa, onde colecionam títulos. São meninos de 5 aos 16 anos, que competem em torneios amadores como o Gotchia CUP, em Gotemburgo, na Suécia.

Se esses jovens atletas amadores vão ou não virar estrelas, é outra história. Mas já é, com certeza, uma boa ganhar troféus em gramados europeus em plena adolescência. Andando no campo de treinos dos Pequeninos do Jockey  entre os meninos, cumprimentado por pais e mães agradecidos, Seu Guima repete. “Tem de ser bom de bola, e melhor na escola”.

Para ver o site oficial dos Pequeninos, clique aqui

 

José Guimarães Júnior e o craque Zé Roberto/Foto: Paulo Liebert/AE

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Com o presidente da Fifa, João Avelange, em 1988/Reprodução

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Seu Guima com troféu entregue por Bellini/Foto: Paulo Liebert/AE

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Seu Guima no campo de treinos do Butantã/Foto: Paulo Liebert/AE

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