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Serra perdeu oportunidade de usar o debate da Bandeirantes para bater na corrupção do PT

Pablo Pereira

20 Outubro 2012 | 12h48

O primeiro debate do segundo turno em São Paulo não teve um ganhador disparado, aquele candidato que põe o adversário na lona, que expõe claramente as deficiências do outro, que mostra que é bem melhor, vence por nocaute. Não foi isso que aconteceu no debate da Band na noite de quinta-feira. Mas o encontro entre Fernando Haddad (PT), que lidera no Ibope com 49%, e José Serra (PSDB), que tem 33%, teve sim um perdedor.

Serra perdeu a oportunidade de expor as fragilidades políticas de Haddad. Deixou de traduzir claramente para o eleitor da periferia, onde precisa crescer, o que significa exatamente o escândalo de corrupção do PT que o Supremo Tribunal Federal está julgando. O PT nunca esteve tão vulnerável diante de um dos pilares da vida pública, a retidão, a ética, o combate à corrupção. Se isso não é sopa no mel para um debate político eleitoral, o que mais pode ser? Imaginemos a situação invertida. No passado, com muito menos munição do que isso o PT fez estragos eleitorais poderosos na tropa tucana.

O mensalão deu de mão beijada ao candidato do PSDB dias e dias de marketing negativo do adversário. A expectativa agora no confronto direto dos dois projetos de governo era que Serra transformasse a maré de escândalos de Delúbio, José Dirceu e Genoino em tsunami da roubalheira e ataque aos cofres públicos nacionais, inclusive com reflexos em São Paulo. Manchetes de jornais, longos programas de televisão em horário nobre e coberturas intensivas de rádios mostraram ao Brasil, exatamente durante a campanha, a maneira de operar de membros do partido de Haddad, gente muito ligada à cidade. Mas Serra praticamente não tocou no assunto.

Equivocado, aceitou a esperteza do petista que logo de saída propôs um debate “de alto nível” no campo dos problemas de São Paulo. É claro que a equipe de Haddad sabe que ele é menos preparado do que Serra. E o marqueteiro João Santana operou Serra. O tucano caiu na armadilha como um pato. Inebriado com o próprio desempenho de homem público, entrou por um caminho de divulgação de obras no qual o imaginário do eleitor está muito nublado pelos problemas do dia a dia e, portanto, no qual ele tem mais a perder do que a ganhar. Serra, aliás, deveria era fugir do debate em campo aberto sobre a administração da cidade. Ele carrega consigo um aliado que está no comando da Prefeitura, Gilberto Kassab, que tem avaliação sofrível da população.

Serra é realmente melhor preparado do que Haddad. Já esteve na Prefeitura com a caneta na mão, coisa que Haddad só tenta agora. Serra já foi ministro do Planejamento da República, depois ministro da Saúde. Serra teve 44 milhões de votos em disputa nacional pelo Planalto. Do outro lado, Haddad foi ministro uma vez, da Educação, é íntegro, não está no meio da podridão mensaleira, não tem flanco pessoal descoberto. Mas no início da campanha tinha 3% nas pesquisas, teve votação inferior no primeiro turno, nunca antes neste país disputou um cargo no voto e ainda tem contra si o peso da caneta do ministro Joaquim Barbosa.

Ao adotar o caminho paz e amor, proposto no debate por Haddad, e tentar reafirmar competências administrativas que o paulistano já sabe que ele tem (mas que Kassab encobriu), Serra deixou de cutucar com força as contradições éticas do PT. E ajudou o adversário a ficar do tamanho dele. O tucano precisava de um nocaute neste primeiro debate. Vai ser difícil virar o jogo. Serra legitimou a candidatura de Haddad.

P.S.: Horas depois do debate, pela manhã, o Datafolha confirmou a dificuldade da empreitada tucana: Haddad, 49%; Serra, 32%, ou seja, 17 pontos percentuais de vantagem para o petista.

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(Texto originalmente publicado no Estadão Noite, no iPad, em 19/10)

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