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São Paulo, o delírio das águas

Quem há um ano tinha uma represa na Cantareira e hoje por lá só vê capoeira, pode acreditar que nesta terra tudo é possível

Pablo Pereira

15 de outubro de 2014 | 13h52

São Paulo vive dias de um outubro calorento com ameaça de falta de água. Nada a ver com a campanha eleitoral para presidente da República, que a cada debate na TV fica ainda mais fervente. Ou tudo a ver, sei lá. Com essa temperatura beirando os 40 graus, pode-se pensar que até o clima tem a ver com as escolhas que se faz na política.

Quem há um ano tinha uma represa na vizinha Cantareira e hoje por lá só vê capoeira no lugar de água pode acreditar que nesta terra tudo é possível. Até torneira seca para as 11 milhões de pessoas que por aqui se aglomeraram em 100 anos.

Sim, porque esta São Paulo, em 1890, tinha 64.934 moradores, segundo senso populacional de então. E tinha rios e riachos, clima fresquinho, garoa fininha vinda das matas da beira da serra do Mar. Ou seja, o que aconteceu às margens límpidas do Ipiranga, Tamanduateí, Tietê, Pinheiros, que eram servidos por uma farta malha de córregos de líquidos fresco em terras férteis, foi uma explosão brutal.

O que diriam Castro Alves e Fagundes Varela se aqui baixassem nos dias atuais com esse calorão todo envolvendo o mar de prédios, casas, ruas asfaltadas e viadutos de concreto? Ambos viveram em São Paulo e fofocavam sobre o frio lascado que tinham de enfrentar – Castro Alves, baiano, e Varela, carioca.

Por falar em “mar”, é comum até os dias de hoje, principalmente nestas épocas de sufoco, encontrar gente se lamentando pela ausência de praias na cidade. Ah, se o Tietê não fosse um rio podre! Se nele, como nos anos 20, ainda se pudesse nadar, competir como fizeram os sócios do antigo Clube Tietê, ali na Ponte das Bandeiras. Ah, se o Pinheiros, em vez de preto de lodo fétido, fosse verde e transparente! E se se pudesse saltar sobre valas e riachos na Várzea do Carmo, como um dia fez Castro Alves.

Saudosismo? Será mesmo que não seria possível ter tudo isso disponível?

No último domingo, quem andava no Parque Ibirapuera não encontrava uma sombra desocupada naquele oasis paulistano. Atletas de finais de semana e famílias em pique-nique lotavam alamedas e gramados sonhando com o rumor das ondas de um marzinho refrescante!

E esse não é um desejo desesperado, um delírio de uma massa aturdida pelo abafo de deserto dos dias de hoje. É um sonho antigo mesmo! O viajante Henrique Raffard, um suíço-brasileiro, filho de diplomata de terras da Helvécia, que por São Paulo passou nos anos 1890, já contou sobre planos existentes aqui quando a cidade ainda nem tinha inaugurado a frondosa Avenida Paulista.

Raffard, como nos lembra Roberto Pompeu de Toledo em seu maravilhoso “A capital da solidão” (Objetiva, 2003), conheceu folhetos de um projeto com uma série de comportas que trariam a água do mar ao alto da serra. “Ouvi falar bastante em tornar São Paulo porto de mar”, escreveu Raffard.

Claro que o descrente Pompeu de Toledo vai logo dizendo, ao citar Raffard, que tal obra seria como se “um deus” removesse a montanha, revogasse a serra do Mar. Impossível! Pode ser. Mas, não sei, não. Parecia impossível também uma ligação do Pacífico com o Atlântico no Caribe e, na virada dos séculos 19/20, portanto há muuuuito tempo, a engenharia americana e francesa deu conta do fantástico canal do Panamá. Parecia impossível também que um dia tivéssemos um papa argentino.

Quem sabe…

Seria uma boa, já que não se consegue manter limpas e preservadas as doces águas da montanha de Bartira e Tibiriçá.

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PS:  quem quiser ver a Cantareira de cima pode clicar no belo trabalho do site Saopa.com.br.

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