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São Paulo, Machado e os ovos

Pablo Pereira

04 de maio de 2010 | 00h02

A vila colonial de São Paulo, que atrai os historiadores e fascina os curiosos (entre os quais me incluo) da vida oitocentista, teve pouca relevância econômica e política, comparada com o que viria a ser, mas projetou para a posteridade importantes traços na aventura republicana. Até o início do Século 19 não era a cidade mais do que um entreposto isolado.

 Por anos, funcionou como posto avançado do povoamento português no rumo do interior brasileiro em época na qual as expedições para expansão territorial eram importantes e o mapa nacional, como o vemos hoje, ainda demoraria quase um século a tomar forma – o que se deu com Rio Branco já no Século 20.

São Paulo, no entanto, deu a volta nesse isolamento imperial a partir dos anos 1820, principalmente a partir da Lei de Terras, adotada em 1850, ferramenta de ocupação do solo e base para criação de um valor substituto para a propriedade de escravos. E partiu para um avanço construído sobre a diversidade de imigração, e sua inexorável sede de inovação. Tornou-se rapidamente um relevante produtor agrícola, exportador, e acumulou importância na evolução do pensamento no Largo de São Francisco.

Com Recife, funcionou como geradora de massa crítica, notadamente no ramo do Direito do país, celeiro de boa parte das principais cabeças que fariam o movimento republicano e a luta pelo fim da escravidão.

Para São Paulo migravam jovens que almejavam formação de ponta para enfrentar as fortes transformações que aportavam no país, trazidas pelas naus das mudanças européias e norte-americanas. Os ecos dessas sociedades em franca transformação após o final do Século 18 eram propagados pelo mundo e chegavam ao Brasil, reverberando, em muitos casos, diretamente em centros descolados da corte, como a academia paulista.

Um olhar nos cantinhos desse tempo paulistano propicia a descoberta de indícios que permitem entender melhor aqueles dias. E uma das principais traduções dessa quadra é de uma figura que nem viveu na cidade, mas que não perdeu a noção do que estava por acontecer nos lados de Piratininga: Machado de Assis. 

Genial, ele captou, mesmo afastado da garoa, a importância que a cidade começava a projetar no país. Em seu belo conto Primas de Sapucaia, Machado faz aparecer essa atmosfera paulistana.

 “Eu vim cedo para a corte, donde segui a estudar e bacharelar-me em São Paulo. Voltei uma vez só a Sapucaia, para pleitear uma eleição, que perdi”, diz ele, emprestando alma ao personagem e ambientando a ação. A maravilhosa ficção vai adiante com as idas e vindas do “primo” e de sua Adriana por ruas do Rio e de Petrópolis.

 Às tantas, Machado, mais uma vez, deixa entrar lufadas paulistanas. “Hás de lembrar-te dos nossos planos da academia, quando nos propúnhamos, tu a ministro do império, eu da justiça. Podes guardar as duas pastas; não serei mais nada”.

Ao contrário do entristecido colega do primo das de Sapucaia, que admite um fracasso diante da vida pós-academia, São Paulo não “gorou”.

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