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São Paulo está mais usável. Mas só com a luz do sol

Pablo Pereira

11 Janeiro 2016 | 22h39

São Paulo está mais amigável, menos hostil aos pedestres e habitantes longamente acostumados ao império do automóvel e ao mau humor dos motoristas intolerantes e sem educação. Ciclistas e caminhantes conhecem bem essa diferença crescente e desfrutam dela, durante o dia, principalmente nos finais de semana, como no último domingo, 10, deste janeiro de férias.

Aos poucos vai sendo vencido o medo de sair de casa para passear, andar na rua, aproveitar a cidade com luz natural. Isso é ótimo. Cidades sem a democracia das areias e que não facilitam a vida de seus moradores podem se tornar tediosas, insanas. Cidade é lugar de cidadania – de gente!

A vedete Avenida Paulista, criada no começo do século passado para bondes e carros, palco de “corsos” e até de corridas de automóveis, vai passando, aos poucos, a território legítimo dos sem-motor. O carro foi visto pela primeira vez na cidade em 1898, trazido pela família Penteado, segundo nos ensina Roberto Pompeu de Toledo. Virou mania e tomou conta de tudo – da economia aos costumes. E a avenida mais famosa, criação, aliás, de um uruguaio, Joaquim Eugênio de Lima, é testemunha secular disso.

Pois, agora, por ela passam a pé manifestações políticas (à direita e à esquerda) e paulistanos ou forasteiros em busca de local de recreação nas calçadas e mesmo no “leito carroçável”, mais conhecido, sem a velha tração animal e fora dos textos judiciais, simplesmente como pista.

Mas não é somente a “fidalga” Paulista que vive uma mudança importante, à moda luz elétrica, percebida por Oswald de Andrade, em sua infância, como espantosa. Quem curte os parques Ibirapuera, Villa Lobos, Aclimação, por exemplo, nota a crescente democratização do espaço público. E isso se reflete na periferia.

Pela Avenida 23 de Maio e arredores, ônibus de bairros distantes desembarcam famílias inteiras, de todo lado, para a sombra do arvoredo e o ambiente saudável daquele bucólico jardim paulistano.

Temos por aí também as ciclovias, que já foram ameaçadas até por ações judiciais, como lembra reportagem de Bruno Ribeiro no Estadão deste dia 11 – medidas que, felizmente, foram derrubadas por desembargadores, para o bem do cidadão. Uma dessas ações, pasmem, foi patrocinada pela Promotoria Pública e chegou ao cúmulo de querer desmontar a ciclovia da Paulista. É só olhar a avenida para ver que aquilo ali está melhor do que quando era somente um canteiro de postes.

Hoje as faixas exclusivas de bicicleta se estendem por diversos bairros e permitem que pessoas de áreas distantes, como São Judas e Jabaquara, cheguem ao Ibirapuera pedalando pela Avenida Indianópolis.

Ciclistas podem, abrigados pela caneta do bom senso dos desembargadores, se tiverem pernas fortes, dar a volta no Ibira, pegar a República do Líbano, subir direto passando pelo Clube Sírio, alcançar a Jabaquara e descer pela Vergueiro até a Avenida “Polista”, como dizia, em 1943, um matuto de Paulo Cursino de Moura em busca de injeção anti-rábica no antigo Instituto Pasteur.

Rodar de bicicleta é um ótimo passeio, cada vez mais apreciado, claro, por quem realmente usa a cidade para convivência alegre, esteja ela ensolarada ou com garoa. Há ainda a faixa de ciclistas da Marginal Pinheiros, a ciclovia da Vila Olímpia, da Faria Lima, consolidada não mais como via de passeio, mas sim para acesso ao trabalho na área da Vila Olímpia, Jardins, Vila Madalena e Pinheiros. São 277 quilômetros de novas faixas exclusivas para bicicletas na cidade.

Bairros mais afastados, mostra a reportagem, devem receber até o final do ano mais outros 140 quilômetros de ciclovias. A prefeitura não cumpriu sua meta de 400 quilômetros, prometida para 2015, é certo. Mas ainda tem um ano para chegar lá. Se não completar, o novo prefeito, seja quem for, tem de se comprometer com a expansão.

A questão aqui não é apoiar o PT ou exercer o antipetismo, já que o prefeito Fernando Haddad, ex-auxiliar de Lula, eleito quando a presidente Dilma Rousseff ainda tinha lá seus 70% de aprovação, todos eles hoje com a baixa popularidade, era também uma aposta de boa gestão após o desastre da administração de Gilberto Kassab, que terminou o mandato com índices de aprovação de 27%.

A questão aqui é ver a cidade como ela foi e como está. São Paulo já teve pelo menos outras duas administrações petistas (Erundina e Marta Suplicy) e naqueles dias os paulistanos não tinham as ciclovias, como igualmente não tiveram nos tempos de Jânio, Maluf, Pitta, Serra e Kassab, só para ficarmos aí no período de tempo do último quarto de século.

Ao contrário: nos tempos de Jânio (1985-1988), quem não se lembra, o Ibirapuera, hoje tão amado e requisitado, era fechado com cercas de ferro. Dizia-se que frequentadores poderiam estragar o parque. Nos tempos de Serra (2005-2006), depois Kassab (2006-2008), havia promessas de parques para todo lado. Mas…

Nos dias (só) de Kassab (2008-2012), também boteco aberto até mais tarde e músico de rua eram blasfêmia. Em 2010, a rapaziada do sax e da sanfona era perseguida pela Guarda Municipal e pela PM porque tocava e passava o chapéu. Ronco de motor, ok, podia; mas música, tão comum nas ruas em tantas cidades do mundo avançado, atrapalhava o “comércio”. Era proibido.

Quando isso aconteceu em São Paulo e o Estadão noticiou lembrei de um brasileiro que encontrei, por acaso, numa rua central de Munique, sul da Alemanha, em 1992 ou 1993, faturando alguns trocados na calçada. Era um mineiro. Ele me contou que fugira de Colônia, ao norte, para a Baviera, porque um amigo dele, indiano, que tocava flauta no mesmo ponto, fora atacado por skinheads. Os brucutus neonazistas haviam cortado dedos do flautista para que ele não tocasse mais na rua…

Não vamos nem falar dos europeus ou americanos e canadenses civilizados que convivem com arte de rua numa boa. Fiquemos aqui mesmo no mundo de baixo da linha do Equador.

Na Argentina fecha-se rua para o povo ver espetáculos de tango ao ar livre. Orquestras fazem exibições do lado de fora das estações de metrô de Buenos Aires. E o povo se aglomera no fim do dia, na volta para casa, para curtir. Em Lima, também, eu mesmo acompanhei coloridos grupos folclóricos pelas ruas do centro velho quando mostravam a cantoria andina e a alegria de jovens indígenas. Mas, não! Na carrancuda São Paulo, não. Eram camelôs de sons, ilegais – pau neles! Só faltou chamar os abestados de Colônia.

Ainda bem que essa bobice vem sendo abandonada. Hoje já se pode ouvir música por aí, embora a prefeitura (sim, a prefeitura petista!) ainda insista em limitar a atividade dos músicos e não incentive a contento apresentações em áreas de parques, por exemplo.

O fato é que um pouco de boa vontade, coisa que ultimamente também está difícil pelo clima de fla-flu que vivem PT-PSDB e que vai se agravar por ser este um ano de eleição municipal, permite ver que a cidade mudou, sim, para melhor. São Paulo, à luz do sol, é hoje uma cidade mais usável, mais amiga.

A noite, porém, já é outra conversa. Escureceu, o bicho pega. O real e agressivo câncer desta metrópole, a insegurança pública, permanece assustador, mortal.

 

 

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