Protestos animam catalães em São Paulo
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Protestos animam catalães em São Paulo

Pablo Pereira

16 de setembro de 2012 | 11h25

A crise econômica da Europa está levando a Espanha a reabrir cicatrizes de feridas de 300 anos dentro e fora do país. Depois de cerca de 1,5 milhão de pessoas protestarem por independência em Barcelona, capital da região autônoma da Catalunha, os ecos do 11 de setembro catalão bateram fortemente em Madri, e foram ouvidos até em São Paulo.

Para catalães que vivem no Brasil, a semana foi especial. A “Diada”, data nacional da Catalunha, que lembra a invasão da cidade em 1714, foi festejada por um grupo de cerca de 30 pessoas que se reuniram na terça-feira à noite em um restaurante. No sábado, no vão do Masp, eles voltaram a fazer festa para o centenário desejo de separação da região do resto da Espanha.

Masp. Catalães se reúnem para ouvir música pela independência da Catalunha/ Foto: Pablo Pereira

“Você pode perdoar, mas esquecer, nunca!”, disse em São Paulo o empresário catalão Ferran Royo Seubas, 63 anos, presidente do Clube Brasileiro-Catalão de Negócios de São Paulo e ferrenho defensor da independência da Catalunha. “Todos os anos nos reunimos para lembrar da data”, disse Seubas em seu escritório na Vila Olímpia. “O que aconteceu em Barcelona é muito forte”, afirmou. “Somos pacientes. Já estamos esperando por isso há 300 anos.”

Empolgado com a repercussão do movimento, ele recordou a luta da Catalunha contra o governo central de Madri. “Talvez sejamos o único povo que comemora uma derrota.” Em 11 de setembro de 1714, após um cerco militar de quase um ano, Barcelona foi destruída por tropas da aliança entre exércitos da França e do Reino de Castela. “Éramos um país. Perdemos tudo. E fomos abandonados pelos ingleses. Aquela foi a primeira grande guerra na Europa”, afirmou Seubas. “Desde aí somos humilhados pelo governo de Madri.”

Crise. A Catalunha, como o resto da Espanha, vive situação econômica difícil. Com PIB em queda de 0,5% no primeiro trimestre de 2012, em relação ao primeiro trimestre do ano passado, amarga uma crise que nos últimos meses levou o governo central espanhol a recorrer ao Fundo Monetário Internacional.

Pressionados pela recessão na Europa, a agricultura e os serviços da Catalunha cresceram abaixo de 1%, mas a indústria na região registrou -0,6% e a construção desabou 5,6% no primeiro trimestre. A região tem mais de 900 municípios e 7,3 milhões de habitantes, 16% do total dos espanhóis (47 milhões). A principal cidade é Barcelona, com 1,6 milhão de habitantes. A Catalunha responde por 20% das riquezas produzidas na Espanha.

A crise reacendeu antigos desejos de separação. Se há hoje um sentimento único na sociedade catalã, muito marcada internamente pelas inimizades familiares, esse é o da independência do governo central de Madri. Para o empresário catalão que vive em São Paulo, o momento político é adequado para a consolidação da independência. “Não falo de separatismo. Queremos é a independência, um Estado federal no qual possamos ter, por exemplo, nosso próprio ministério da economia, a chance de controlar a arrecadação de impostos.”

Seubas repete o argumento usado em Madri, na quinta-feira, pelo presidente da Catalunha, Artur Mas, que foi à capital espanhola pedir a criação de um Estado catalão independente, com soberania fiscal. A linguagem de Seubas é cuidadosa, assim como a do líder nacionalista.

Referendo. De acordo com Seubas, o sucesso da marcha não é um instrumento para rompimento brusco. Mas deve funcionar, segundo ele, para fomentar um debate político com pelo menos um objetivo claro: um referendo sobre a separação desejada há séculos. “A outra alternativa seria o Parlamento votar pela independência.” No primeiro caso, segundo Seubas, mesmo que fosse rejeitada a separação, como ocorreu recentemente com a comunidade canadense de Quebec, pelo menos já estaria criado um fato político importante.

Seubas vai além. No escritório paulistano dos negócios catalães, ele alegou que o momento é delicado também em relação ao vizinho País Basco, igualmente região autônoma. “Não me surpreenderia se os bascos conseguissem sua independência ainda antes da Catalunha”, afirmou. “Eles terão eleições aí na frente (outubro). São mais calados, mas agem mais do que nós.”

O empresário, que faz questão de esclarecer que não tem função oficial do governo catalão – mantém uma representação para promoção de negócios em São Paulo -, acredita que diante da atual situação da Europa é possível avançar com apoio no Parlamento Europeu. A situação é complicada. Um rompimento com Madri e a criação de um novo Estado catalão enfrentaria dificuldades na comunidade. Para a Catalunha entrar na zona do euro seriam necessários os votos dos países-membros, inclusive da Espanha. Essa é uma das trincheiras que devem ser ocupadas nos próximos meses, segundo o catalão, como reforço da ideia da independência.

Mas Seubas está otimista. “Não há neste momento o perigo que por muito tempo se temia que era a Brunete”, disse. A División Brunete era uma tropa armada com tanques que o ditador Francisco Franco mantinha estacionada em Valência, vizinha da Catalunha, para reprimir a oposição nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola.

Paixão. Publicitário, fala da “independência” com clara paixão. Ele é integrante da Convergência e União (CiU), uma frente de partidos liberais nacionalistas aliados com a democracia cristã. “É uma federação de partidos de centro-direita.” A CiU é hoje governo da Catalunha. O presidente da Generalitat, Artur Mas, é um dos principais líderes da CiU. A segunda força política da Catalunha é dos socialistas (PSC-PSOE), seguidos pelo Partido Popular (PP), do presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy. “O PP é o partido dos herdeiros do franquismo”, afirma.

Ele lembra que a história mostra que a Catalunha já era uma nação mil anos atrás. “Muito antes de a Inglaterra ter Constituição, já havia um conselho, que era o Parlamento catalão, que se reunia em Barcelona, no Bairro Gótico.” Segundo ele, “a Catalunha já teve Nápoles e chegou até a Sicília”. “Não somos belicosos. Queremos mudanças democraticamente. Mas não queremos mais ser humilhados. Já chega!”

Esportes. Casado com uma brasileira, Maria do Amparo, especialista em Recursos Humanos, Seubas mora na zona oeste de São Paulo. Ele se diz impressionado positivamente com o Brasil, que não conhecia até se casar com a ex-colega, quando trabalhavam numa empresa dos EUA. Na cidade, ele se considera um homem de sorte. “Nunca fui assaltado”, respondeu sobre a vida paulistana.

O que preocupa o empresário é o que ele chama de “crescimento desordenado” da cidade e os serviços públicos de transportes “que não funcionam como na Europa”. “O trânsito é muito complicado”, disse, alegando que sempre foi muito bem tratado por aqui. Apaixonado por futebol, Seubas preside o fã-clube do Barcelona em São Paulo, a Penya Barcelonista. Ele costuma comemorar as conquistas do Barça no futebol em restaurantes paulistanos, onde festeja com as bandeiras da Catalunha e do clube de Lionel Messi.

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(Reportagem publicada em 16/09/2012 no caderno Economia do Estado)

 

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