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Planejar, lição dos gregos

Pablo Pereira

17 Março 2010 | 11h14

A propósito de uma reflexão sobre os conflitos de interesse da vida urbana, quando lembrei-me do grego Hipódamos de Mileto, que na Grécia Antiga criou cidades, comentei aqui que Hipódamos viu, há 2.500 anos, que a vida em comunidade continha alguns gargalos importantes e que, por isso, era preciso planejar. Vai, então, a seguir, um pouco mais sobre esse pensador da Antiguidade, à guisa de contribuição para a atualidade.

Foi ele quem deu a muitas cidades ocidentais atuais os traçados de quadras simétricas e ruas largas. Hipódamos chegou a definir a metragem das ruas e das quadras. E, de certa forma, desenhou o ancestral do que hoje se chama de condomínio fechado, local organizado mais ou menos de acordo com as classes sociais ou poder aquisitivo dos moradores.

São Paulo, como as cidades em franco crescimento do Interior, usa bastante, e cada vez mais, esse expediente dos condomínios pretensamente exclusivos, amarrados segundo o padrão de vida dos moradores. São, ou pretendem ser, ilhas de “tranquilidade” dentro dos centros urbanos, minicidades, na tentativa de criar comunidades mais homogêneas, do ponto de vista do padrão econômico local, para, com isso, filtrar os conflitos de interesses mais agudos.

Hipódamos, de certa forma, antecipou essa preocupação nos seus traçados, como aquele de uma cidade para dez mil habitantes citado por Aristóteles no seu famoso Política, Capítulo 5º (pelo menos na edição que eu tenho, da UnB).

O grego urbanista, a grosso modo, via as coisas em três partes: as pessoas eram divididas em artífices, agricultores e defensores da cidades, devidamente armados. Deveriam, portanto, assim se localizar no espaço urbano. As terras eram sagradas, públicas ou privadas. E os crimes também tinham três categorias: ofensas, danos e homicídios. Com esse sistema ele pensava dar solução à já complexa relação social urbana.

Algumas das ideias desse “inventor da arte de planejar cidades”, segundo Aristóteles — que também o descreveu como um sujeito que “usava cabelos longos e adornos caros, embora as roupas nas quais ele os ostentava fossem baratas”, foram atropeladas e não vingaram. Mas alguma coisa ficou.