Parque da Serra da Capivara agoniza; museu tem homenagem ao tucano Sérgio Motta
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Parque da Serra da Capivara agoniza; museu tem homenagem ao tucano Sérgio Motta

Pablo Pereira

28 Agosto 2016 | 11h44

O Brasil está indo ladeira abaixo. Até um parque nacional considerado patrimônio da humanidade pela Unesco, com pinturas rupestres milenares, marcas da presença humana na América de mais de 10 mil anos, e berço de fósseis de fauna pré-histórica – mastodontes, preguiças gigantes e uma espécie de tatu do tamanho de um carro, de mais de 50 mil anos-, está abandonado no meio da caatinga do Piauí. O Parque Nacional da Serra da Capivara agoniza sem verba nem para o banheiro das guaritas, que estão desocupadas.

Depois de ter sido uma festa para a pesquisa mundial, orgulho científico nacional desde os anos 90 e salvação econômica para comunidades sofridas da região castigada pela seca nordestina, a cidade de São Raimundo Nonato e o povoado de Mocó, à beira do parque, testemunham a deterioração do PNSC de tal forma que o País pode ser acusado na Unesco de colocar “patrimônio da humanidade em perigo” (leia reportagem no Estadão deste domingo, 28).

Alegando crise financeira, o governo brasileiro, que por lei deveria cuidar de tal patrimônio, opta pelo sucateamento do parque, nivelando um projeto de Primeiro Mundo ao limitado espaço (lamentável também, óbvio) que oferece a outros parques nacionais. O PNSC já teve tratamento top para visitantes, com infraestrutura para receber até cadeirantes à beira dos paredões. Mas agora vive momento terrível: há planos do governo de economizar recursos e refazer a engenharia de administração daquele complexo com 700 sítios arqueológicos. Parecem dispostos a avançar no retrocesso nem que para isso tenham de afastar a criadora da obra de preservação, a arqueóloga Niède Guidon.

Beijo

No detalhe da foto, que fiz na semana passada lá mesmo no paredão de rocha na qual paleoíndios deixaram suas marcas por milhares de anos, há figuras como a do beijo (alto, à esquerda) e de animais (ao centro). Essa pintura dos animais, aliás, segundo pesquisadores, tem idades diferentes. O menor tem dois ou três milênios a mais do que o maior e mais elaborado.

Voltando. Pois a disputa política no governo, escorada na tal crise financeira que desde o início do ano detonou os repasses de dinheiro para a manutenção do parque, depois que a Petrobrás suspendeu contribuição, ameaça tudo isso.

O abandono do parque é visível. Até os cupins já perceberam – e sobem pelas paredes na direção das pinturas. E os raros turistas, que nos últimos dias se arriscam em visitas, encontram infraestrutura precária. Na verdade, o parque sobrevive da boa vontade dos poucos funcionários que ainda trabalham, apesar de salários atrasados há 5 ou 6 meses.

Depois de sucatear o PNSC – os guardas fazem vaquinha com os guias de visitas para comprar o combustível -, nos últimos dias os governos do Estado e federal prometeram verbas emergenciais, claro, pressionados por uma ação judicial. O dinheiro está prometido para os próximos dias, como já ocorreu com promessas vazias já feitas nos últimos meses.

Uma das ironias da coisa toda está estampada no fachada do teatro da Fundação do Museu do Homem Americano (Fumdham), criada por Niède Guidon em 1994. O Centro Cultural do Museu da Fumdham se chama Sérgio Motta. O Museu e o parque das pinturas rupestres são projetos separados, mas ambos são obras de Niède Guidon, que comandou o parque até final de 2015, quando o convênio dela com a União expirou e não foi mais renovado.

O nome do teatro é uma homenagem da cientista ao líder tucano que apoiou fortemente o projeto arqueológico da Serra da Capivara nos primeiros anos do governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1996, quando o parque foi oficialmente criado. Serjão morreu em 1998. Não conseguiu ver seus amigos tucanos no comando do País por longos anos, como profetizava.

O grupo político seguinte, do PT, que agora está sendo retirado do poder depois de 13 anos, mexeu na legislação, criou um fundo especial para recursos de parques, centralizado em Brasília no Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), mas pelo menos não impediu totalmente o fluxo das verbas. A Petrobrás, principal contribuidora, continuou a repassar por dentro das leis de compensação ambiental e de incentivos, como a Lei Rouanet.

Já o novo quadro político e administrativo federal, apesar de conter em seu bojo gente grande do próprio PSDB de Serjão, parece ter apostado no caos ao arrastar a situação das pré-históricas pinturas rupestres da Serra da Capivara ao ponto no qual se encontra – parque abandonado, exposto ao descaso no tratamento e ao perigo das mutilações dos paredões ilustrados.

Abaixo, fósseis da preguiça gigante, coleção inestimável do laboratório de paleontologia da Fumdham, onde hoje trabalha, por exemplo, o paleontólogo italiano Andrea MF Valli.  O laboratório fica ao lado ao Centro Cultural Sérgio Motta. Esse material está seguro por que recebe recursos da pesquisa científica e ajudas internacionais, da França e da Itália. Mas lá também já se ouve lamentos pela ausência do patrono Serjão.

Preguiça gigante

 

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(texto atualizado às 18h50 de 28/08)

 

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